Skate supera polêmicas e admite lado 'careta' para aproveitar vida olímpica

Estreia em Tóquio-2020 impulsiona eventos no Brasil, como Mundial no Rio a partir desta quinta

Daniel E. de Castro
São Paulo

A um ano e meio de o skate estrear na Olimpíada, em Tóquio, entidades e pessoas ligadas ao esporte aproveitam o novo patamar adquirido por ele no Brasil.

O momento contrasta com a situação vivida até 2017, quando uma disputa envolvendo o órgão de representação da modalidade gerou até ameaça de boicote dos atletas brasileiros à Olimpíada.

Em 2018 foram criados um circuito nacional, até então inexistente, e uma seleção brasileira de skatistas.

Já 2019 começa com a realização, no Rio de Janeiro, do Mundial de street, uma das modalidades que estarão na Olimpíada de Tóquio (a outra é o park). A competição vai de 10 a 13 de janeiro na Arena Carioca 1, no Parque Olímpico.

Para a Effect Sport, empresa que organiza o evento no Rio, hoje o cenário para investimento em torneios de skate no país é dos mais favoráveis.

“Um esporte no qual o país tem representantes na elite mundial, entre homens e mulheres, com chances reais de bons resultados e grande interesse de público, sobretudo entre os jovens. É a combinação perfeita”, afirma Marcelo Hargreaves, diretor comercial.

Em setembro de 2017, Bob Burnquist, maior medalhista dos X Games, foi eleito presidente da Confederação Brasileira de Skate (CBSk). Um mês depois, o Comitê Olímpico do Brasil filiou a entidade e colocou fim a uma disputa.

Antes, o COB havia apontado a Confederação Brasileira de Hockey e Patins como representante do skate no processo olímpico, o que significava que ela receberia os repasses feitos pelo comitê olímpico das verbas de loterias, previstos na Lei Agnelo/Piva.

Vários atletas ligados à CBSk protestaram e ameaçaram um boicote aos Jogos Olímpicos.

Existia outra disputa na época, entre a Federação Internacional de Skate, à qual a CBSk era filiada, e a Federação Internacional de Roller Sports, reconhecida pelo Comitê Olímpico Internacional.

Por fim, a junção das entidades na World Skate abriu caminho para o reconhecimento da confederação nacional pelo COB. Em 2018, primeiro ano em que teve direito aos recursos, a CBSk recebeu R$ 719.696,97. Em 2019, serão R$ 801.470,59.

Há ainda R$ 4 milhões, segundo o COB, que podem ser aplicados em projetos de atletas e equipes de skate, surfe, beisebol/softbol, escalada e caratê, modalidades estreantes em Tóquio-2020 e que por isso recebem um valor padrão na divisão do bolo.

“Os skatistas viram que eu abracei uma causa e coloquei uma mochila pesada nas costas. Poderia ser que a galera quisesse distância da confederação, mas senti que todo mundo veio junto”, afirmou à Folha Bob Burnquist. Sandro Dias, conhecido como Mineirinho, é diretor da entidade.

Bob Burnquist, hoje presidente da CBSk, durante etapa do STU
Bob Burnquist, hoje presidente da CBSk, durante etapa do STU - Carl de Souza - 14.nov.18/AFP

Segundo Burnquist, a partir do momento em que houve o reconhecimento da CBSk, outros desafios se impuseram: “A gente teve o bom problema: agora que estamos aqui, o que vamos fazer?”.

Entre as ações implementadas está a criação da seleção brasileira, grupo de 20 atletas que recebem ajuda de custo para viagens e plano de saúde.

Outra novidade foi a estreia do circuito nacional, o Skate Total Urbe (STU), uma parceria da confederação com a empresa Rio de Negócios, que tem o patrocínio da empresa de telefonia Oi. Para este ano estão previstas oito etapas nacionais e uma mundial.

É por meio do STU que os atletas se classificam para a seleção brasileira. Segundo Diogo Castelão, sócio da Rio de Negócios, a decisão de investir na modalidade veio antes mesmo de ela virar olímpica, já que o país possui muitos talentos, mas não contava com uma liga organizada.

Além das questões burocráticas, também foi preciso superar a resistência que havia no meio do skate à participação nos Jogos pelo temor de que ocorra uma mudança na cultura da modalidade.

O esporte precisou ainda se adequar ao código antidoping da Wada (agência internacional), que proíbe o uso de maconha durante competições, mas não fora delas.

No início do ano passado, Pedro Barros, campeão mundial de park, testou positivo para um derivado da droga durante campeonato em Santa Catarina. Ele não recebeu suspensão preventiva, e o caso ainda não foi a julgamento.

“Antes era normal eles beberem e fumarem dentro as competições. Com a profissionalização e a questão do antidoping, eles já entenderam que estão em outro lugar. Tanto do ponto de vista do controle quanto da imagem, é exigido um cuidado maior”, afirma Diogo Castelão.

Para Burnquist, é possível seguir no projeto olímpico sem perder a identidade: "Muitos ficaram ‘ah, o skate acabou’. Muito pelo contrário. Sempre tivemos competições. Tem o lado, sim, careta, mas se você quiser competir na Olimpíada tem que se adequar às regras. Foi um ano de adaptação, de entender que tem que responder a alguém”.

Mundial no Rio de Janeiro reúne elite brasileira no street

A etapa final da Street League, reconhecida pelo COI como Mundial da categoria, terá 12 brasileiros na disputa. Entre eles estão destaques internacionais, como Leticia Bufoni, Pâmela Rosa e Kelvin Hoefler.

Bufoni, 25, é dona de 9 medalhas nos X Games. A atleta, que mora nos EUA há mais de dez anos, afirma que o momento vivido pelo esporte, com vários eventos realizados no Brasil, faz com que ela esteja mais presente no país.

“A participação olímpica deu um grande boom no skate. Antes estava bem apagado, não tinha suporte do governo e da confederação. Agora existem muitos eventos, foi criado um ranking. Essa vai ser a minha terceira competição no Brasil em um ano, antes disso estava sem competir aqui por cinco, seis anos”, afirma.

Recentemente, ela foi nomeada representante dos atletas na World Skate. Apesar de o formato das competições em Tóquio-2020 ainda estar indefinido, a brasileira é otimista.

“Tudo é muito novo pra nós, mas estamos próximos das confederações do Brasil e dos EUA. O skate está muito bem representado por pessoas de dentro do esporte, [o torneio olímpico] não vai ser o absurdo que a gente achou que seria antes. Vamos colocar o skate como ele tem que ser”, diz.

Hoefler, 25, também se anima com o nova realidade do skate. “Quando comecei a andar era você e você mesmo. Corri vários eventos sem respaldo nenhum. Representava o Brasil e ninguém falava nada. Hoje, se você é campeão mundial de skate, muita gente vem falar”, afirma.

O Mundial começa nesta quinta (10) na Arena Carioca 1, no Parque Olímpico, com as etapas classificatórias.

As semifinais serão no sábado, e as finais, no domingo. No fim de semana, o evento será aberto ao público, com ingressos a partir de R$ 80, à venda no site da Eventim. As finais serão transmitidas pelo SporTV a partir das 15h.

Como funciona a classificação para os Jogos de Tóquio-2020

Número de competidores:
20 na categoria street feminina
20 na categoria street masculino
20 na categoria park feminina
20 na categoria park masculino

Em cada evento há o limite de 3 representantes por país e o mínimo de 1 skatista por continente. O Japão tem vaga garantida em cada um deles.

Mundiais
Os três primeiros colocados dos campeonatos mundiais da temporada 2020 já estarão classificados.

Ranking
Levará em consideração eventos nacionais, continentais e mundiais disputados de 1º de janeiro de 2019 a 31 de maio de 2020. Serão considerados os três melhores resultados da temporada 2019 (até 15 de setembro) e os seis da temporada 2020 (de 16 de setembro até 31 de maio).

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