Imigrantes, pais de Kamala Harris foram forjados no movimento por direitos civis

Pai e mãe de vice-presidente eleita deixaram Jamaica e Índia para estudar nos EUA

Ellen Barry
The New York Times

Num espaço fora do campus da Universidade da Califórnia em Berkeley, em 1962, um doutorando jamaicano alto e magro discursou a uma pequena multidão, traçando paralelos entre seu país e os EUA.

Ele falou a um grupo de estudantes negros que crescera observando o poder colonial britânico na Jamaica sobre o modo como um número pequeno de brancos cultivara uma “elite negra nativa”, no intuito de mascarar a desigualdade social extrema.

Aos 24 anos, Donald J. Harris já tinha ares de professor universitário e era tão reservado quanto o acólito anglicano que fora no passado. Mas suas ideias eram ousadas. Uma pessoa da plateia as achou tão instigantes que o procurou depois do discurso para se apresentar.

Kamala Harris com a mãe, Shyamala Gopalan, no centro, sua irmã, Maya, embaixo à esq., e seus avós maternos, P.V. e Rajam Gopalan
Kamala Harris com a mãe, Shyamala Gopalan, no centro, sua irmã, Maya, embaixo à esq., e seus avós maternos, P.V. e Rajam Gopalan - Divulgação

Ela era uma cientista indiana de baixa estatura que usava sári e sandálias —a única outra estudante estrangeira a comparecer a uma palestra sobre a questão racial na América.

Shyamala Gopalan nasceu no mesmo ano que Donald Harris, em outra colônia britânica do outro lado do planeta. Mas sua visão do sistema colonial era mais comedida —era a visão da filha de um funcionário governamental sênior, ela lhe explicou. A palestra de Harris lhe deixou dúvidas. Ela queria ouvir mais.

“Aquilo foi muito interessante para mim, acho que um pouco encantador”, recordou Harris, que hoje tem 82 anos e é professor emérito de economia na Universidade Stanford. “Num encontro subsequente, voltamos a conversar, e em mais um depois disso. O resto ficou para a história.”

Kamala Harris frequentemente relata a história de romance dos pais. Os dois eram universitários estrangeiros e idealistas; acabaram se envolvendo no movimento pelos direitos civis nos EUA. É uma variante da história clássica americana sobre as massas apinhadas de imigrantes acolhidos pelo país.

Mas essa descrição não chega a arranhar a superfície de Berkeley no início dos anos 1960. A comunidade em que Donald e Shyamala se conheceram era um caldeirão de política radical em que a esquerda sindicalizada encontrava os primeiros pensadores nacionalistas negros.

Esse movimento levou a um intercâmbio de ideias entre uma onda de universitários negros, muitos dos quais descendentes de meeiros ou escravos que haviam migrado do Texas e de Louisiana, e estudantes vindos de países que haviam combatido potências coloniais e se libertado delas.

Membros do grupo de estudos que aproximou Donald de Shyamala, conhecido como a Associação Afro-Americana, ajudariam a criar a disciplina dos estudos negros, introduziriam o feriado do Kwanzaa e fundariam o Partido dos Panteras Negras. Muito tempo depois de a intensidade particular do início dos anos 1960 ter passado, a comunidade que ela criou persistiu.

Durante décadas, os melhores estudantes de colônias britânicas, da Jamaica à Índia, eram enviados ao Reino Unido quase automaticamente para levar seus estudos superiores adiante.

Mas Donald Harris e Shyamala Gopalan eram diferentes. Ambos tinham uma razão convincente para quererem uma formação americana. No caso de Gopalan, o problema era que ela era mulher.

Filha mais velha de uma família brâmane tâmil destacada, Shyamala Gopalan queria ser bioquímica. Mas no Lady Irwin College, fundado pelos britânicos para oferecer educação científica a mulheres indianas, ela fora forçada a se contentar com um diploma em economia doméstica.

“Meu pai e eu caçoávamos dela sem parar”, comentou o irmão, Gopalan Balachandran. Mas, olhando para o passado, ele entende que Shyamala deve ter se enfurecido.

Ela, porém, tinha um plano. Na América, diferentemente da Índia ou do Reino Unido, ainda seria possível obter um diploma em bioquímica. E ela foi aceita pela Universidade da Califórnia em Berkeley.

A 13 mil quilômetros de distância, em 1961, algo semelhante ocorreu com Harris, que queria fazer doutorado em economia. Quando ele recebeu uma prestigiosa bolsa de estudos do governo colonial britânico, ficou subentendido que estudaria no Reino Unido, como os beneficiários que o precederam.

Mas Harris não queria ir ao Reino Unido. Ele começara a perceber como “a rigidez estática de pompa, cerimônia e classe” britânica fora transplantada para a sociedade dos donos de plantations na Jamaica.

A Universidade da Califórnia em Berkeley chamou sua atenção quando ele leu uma notícia sobre ativistas estudantis que viajaram ao Sul do país para fazer campanha pelos direitos civis. "Buscas adicionais por informações sobre essa universidade me convenceram de que eu devia ir para lá”, contou ele.

Shyamala Gopalan fez amizades importantes em Berkeley assim que chegou. Em 1959, quando ela estava numa fila para se matricular em cursos, a pessoa atrás dela era Cedric Robinson, jovem negro de Oakland.

Em 1960 havia menos de cem estudantes negros em um corpo discente de 20 mil estudantes, escreveu a historiadora Donna Murch no livro "Living for the City: Migration, Education and the Rise of the Black Panther Party". Robinson, cujo avô fugira do Alabama na década de 1920 para não ser linchado, foi o primeiro de sua família a se matricular numa faculdade.

A mulher à sua frente na fila chamou a atenção. Shyamala Gopalan, dois anos mais velha que ele, frequentemente usava sári naquela época, e conhecidos dela disseram ter pensado que ela vinha de uma família real, graças à sua postura.

Quando Robinson chegou à mesa do encarregado das matrículas, a pessoa supôs que ele fosse estudante vindo da África e lhe perguntou educadamente se seu país estava pagando os estudos.

Robinson, que morreu em 2016, achou isso hilário, contou o historiador Robin D.G. Kelley. Ele relataria a história muitas vezes ao longo dos anos, quando fez mestrado, depois doutorado e finalmente foi aceito como professor titular da Universidade da Califórnia em Santa Barbara.

Ele e Shyamala se tornaram amigos por toda a vida. Passaram a fazer parte de um grupo de estudos formado por intelectuais negros que se reuniam na casa da estudante de antropologia Mary Agnes Lewis.

Mais tarde, esse grupo limitaria a participação a pessoas de origem africana, recusando a companheira branca de um membro negro, escreveu Murch. Mas, disseram outros membros entrevistados, como ex-súdita colonial e pessoa não branca, a possibilidade de Shyamala fazer parte nunca foi questionada.

Em 1961, quando Donald Harris chegou ao campus, ele entrou para o grupo imediatamente.

Foi ali, no segundo semestre de 1962, que ele conheceu a futura esposa. “Conversamos naquele dia, continuamos a conversar em uma reunião subsequente, depois em outra e mais outra”, disse ele. Eles se casaram no ano seguinte.

Os protestos do movimento pelos direitos civis eram uma parte importante da vida do jovem casal. No discurso que fez na Convenção Nacional Democrata, no mês passado, Kamala disse que seus pais “se apaixonaram dessa maneira mais americana possível: marchando justos pela justiça no movimento pelos direitos civis, nos anos 1960”. “Aqueles laços viraram nossa comunidade,” afirmou ela.

Quando Kamala, a primeira filha do casal, nasceu, em 1964, a maré política havia começado a mudar outra vez. O casamento dos Harris se desgastou quando Donald Harris assumiu cargos docentes de curto prazo em duas universidades diferentes no Illinois.

Quando ele conquistou um cargo titular na Universidade do Wisconsin, Shyamala Gopalan Harris, em vez de acompanhá-lo, fixou-se com suas filhas em Oakland e West Berkeley.

A carreira de Donald Harris ganhou força. Crítico de esquerda da teoria econômica neoclássica, ele era um professor bem visto pelos alunos e se tornou o primeiro acadêmico negro a ser professor titular no departamento de economia de Stanford. Já o casamento com Shyamala esfriou.

Cientista pesquisadora que publicara trabalhos influentes sobre o papel dos hormônios no câncer de mama, Shyamala Gopalan Harris entrou com pedido de divórcio em 1972. A separação a enfureceu tanto que durante anos ela praticamente não conversou mais com Harris.

Seus velhos amigos dos tempos do grupo de estudos em Berkeley vieram suprir o vazio deixado pelo divórcio. Uma rede de apoio foi lançada a partir da Associação Afro-Americana, abrangendo o cuidado das crianças, a igreja, os padrinhos e madrinhas e as aulas de piano.

“Aqueles laços viraram a comunidade que deu apoio a Shyamala, ajudando-a na criação de suas filhas”, comentou Margot Dashiell, professora de sociologia que integrava o grupo de discussão. “Não estou falando em apoio financeiro. Mas eles deram amparo total àquelas crianças,” diz.

Aubrey LaBrie, que passou a dar cursos sobre nacionalismo negro na San Francisco State University, apresentou Shyamala à sua tia, Regina Shelton, diretora de uma creche em West Berkeley.

Shelton, que nascera no Louisiana, tornou-se um pilar na vida da jovem família. Ela acabou por lhes alugar um apartamento no andar de cima da creche. Sempre havia um lanche e um abraço para as crianças na casa de Shelton. Quando ficava tarde demais, as meninas dormiam na casa dela, ou então Shelton enviava suas filhas para colocar Kamala e sua irmã na cama na casa delas.

Nos anos passados desde então, Kamala já comentou muitas vezes que a família que sua mãe imigrante formou por escolha própria –famílias negras distantes uma geração do Sul americano racialmente segregado— foi uma influência formadora importante para ela, como política.

Quando ela prestou o juramento de posse como procuradora-geral da Califórnia, e mais tarde como senadora, pediu para colocar a mão sobre a Bíblia de Regina Shelton. Em um ensaio do ano passado, ela escreveu: “Carrego a sra. Shelton comigo sempre, no meu trabalho político e na luta”.

Tradução de Clara Allain 

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