Descrição de chapéu Coronavírus

Antes exemplo no combate à Covid, Uruguai vê alta recorde de casos

Presidente Lacalle Pou demorou a negociar vacinas e agora tenta acordo às pressas

Buenos Aires

De exemplo na região no combate à pandemia do coronavírus, o Uruguai vive agora situação alarmante: aumento exponencial dos casos, transmissão comunitária do vírus, recorde de mais de mil contágios num único dia e nenhum acordo concretizado para a compra de vacinas.

Segundo o Ministério da Saúde, a taxa de infecções confirmadas aumentou de 9,49% para 13,66% —a mais alta desde o início da crise. Enquanto isso, o presidente Luis Lacalle Pou passa os fins de semana no balneário de elite de La Paloma, onde tem casa e foi visto com frequência nas últimas semanas surfando.

"Houve uma mudança muito grande entre os primeiros seis meses da pandemia e os dias de hoje. Tanto em termos de comportamento do vírus como das medidas sanitárias adotadas pelo governo", diz à Folha o sociólogo Eduardo Botinelli, diretor do instituto de pesquisas Factum.

Oficiais da prefeitura patrulham a praia Pocitos, em Montevidéu, para prevenir aglomerações
Oficiais da prefeitura patrulham a praia Pocitos, em Montevidéu, para prevenir aglomerações - Nicolás Celaya - 13.jan.21/Xinhua

Segundo ele, a estratégia inicial de localizar o vírus e isolar os infectados e seus contatos funcionou bem porque a maioria dos casos era importada do Brasil ou da Argentina. Além disso, era inverno, e parecia mais fácil para a população cumprir as orientações de isolamento sugeridas pelo governo.

O presidente se envolveu pessoalmente na comunicação das medidas de precaução e ia à TV para fazer pronunciamentos frequentes. Hoje, a situação é diferente. A transmissão do vírus já passou a ser comunitária —ou seja, o patógeno circula pelo país sem que seja possível identificar a origem dos casos.

Isso faz com que as "bolhas sanitárias", como é conhecida a estratégia de isolar infectados e seus contatos, já não sejam tão eficientes. "Além disso, chegou o verão, e há uma sensação dos uruguaios de que a pandemia está vencida. Em Montevidéu, onde está a maioria dos casos, as pessoas passaram a sair mais, ir a bares e restaurantes, já que a quarentena nunca foi obrigatória", aponta Botinelli.

Os profissionais de saúde se preocupam agora com a volta das pessoas que vivem na capital e foram passar férias no litoral, onde estiveram em aglomerações em praias, bares e festas.

Para Botinelli, Lacalle Pou, que deixou de aparecer com frequência e de comunicar sobre a seriedade da pandemia, foi pego de surpresa, confiante de que o vírus tinha sido vencido no país. O governo havia iniciado uma conversa com a Covax, consórcio da OMS que acompanha estudos de potenciais vacinas, e o Ministério da Saúde chegou a anunciar que a imunização começaria em abril.

Quando vizinhos como Chile e Argentina começaram a aplicar as vacinas, no entanto, o governo uruguaio recebeu muitas críticas. "Houve pressão da oposição e da sociedade. Agora o governo está apressando acordos com outros laboratórios, mas a verdade é que, por enquanto, não temos nada", diz o sociólogo.

Enquanto o presidente aproveitava a praia no domingo, o país bateu o recorde de infecções: foram 1.212 em 24 horas. "Estamos em negociações e avaliando as melhores vacinas disponíveis. Nos próximos dias faremos anúncios muito importantes sobre isso", disse ele, já de volta ao gabinete na segunda-feira.

Lacalle Pou afirmou ainda que o Uruguai terá um plano de vacinação "ambicioso", que pretende imunizar 600 mil pessoas por mês —a população do país é de 3,4 milhões. O aumento dos casos vinha sendo notado desde setembro, embora não nessa escala. Por isso, o Uruguai decidiu não abrir suas fronteiras para a temporada de verão, o que significa um duro golpe à economia, uma vez que os balneários atraem muitos visitantes da Argentina e do Brasil, e o turismo responde por 3% do PIB.

Em dezembro, o governo decidiu fechar as fronteiras do país inclusive para uruguaios que não tinham comprado uma passagem de volta. A medida valeria até 10 de janeiro, mas foi estendida até o fim do mês.

O sistema de transporte em barcos que conectava Montevidéu a Buenos Aires, que vinha funcionando durante a pandemia, ainda que apenas para quem tinha dupla residência, foi suspenso.

Segundo dados da Universidade Johns Hopkins, o país tem até agora 28.475 casos confirmados e acumula 275 mortes. A maioria dos casos se concentra em Montevidéu, mas, nas últimas semanas, houve aumento de contágios em Maldonado, onde fica Punta Del Este, e Rocha, que concentra praias da moda.

Apesar de não haver estrangeiros, a movimentação interna devido às férias de verão e às festas de fim de ano colaborou para o aumento de casos nessas regiões turísticas.

O secretário de Saúde de Maldonado, Leonardo Cipriani, pediu na segunda-feira (11) a quem estiver na praia com algum sintoma de coronavírus que não retorne a Montevidéu. O governo estuda pagar pela estadia dessas pessoas para que cumpram o isolamento no lugar em que estiverem.

"Essa medida tem como foco principalmente os jovens, que estiveram em festas ou outro tipo de aglomeração. Queremos que eles entendam que, ao voltar para a cidade, podem contagiar seus pais, seus avós", afirmou Cipriani.

A preocupação é ainda mais compreensível quando se leva em conta que, no Uruguai, aqueles com mais de 65 anos representam 14% da população e há 500 pessoas com mais de 100 anos.

Apesar de não ter recebido turistas do exterior, as praias uruguaias ficaram lotadas, e houve filas nas estradas. Os governos municipais colocaram placas pedindo que as pessoas ficassem em grupos pequenos. Há policiais vigiando o uso de máscara por vendedores nas praias. Nos restaurantes, a temperatura corporal é medida e, em alguns casos, pede-se o nome e o contato das pessoas.

Para infectologistas, as estratégias usadas até aqui já não bastam, e é preciso introduzir novas regras. "Uma vez que superamos esses recordes, a estratégia de rastrear e isolar, apenas, não é eficiente para deter o vírus", diz Marcelo Fiori, da Universidade da República.

O mesmo afirma Blauco Rodríguez, do Colégio Médico do Uruguai. "Neste ritmo, nosso sistema de saúde caminha para a saturação. Algo precisa ser feito. Não temos UTIs para contaminação em maior escala."

Para Lacalle Pou, porém, tomar medidas mais drásticas, como uma quarentena obrigatória ou um lockdown, seria uma decisão difícil. Ele afirmou, desde o início da pandemia, que por convicções ideológicas liberais, optaria por recomendar aos cidadãos que tivessem cautela e ficassem em casa.

"Vai ser um dilema ideológico para ele. Se chegarmos ao ponto de precisar de uma medida de restrição dos uruguaios, ele entrará em contradição com seu discurso", afirma Bottinelli.

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