Historiador chileno best-seller se candidata à Constituinte para 'enterrar Pinochet'

Para Jorge Baradit, país corre risco de não realizar mudanças devido a erros políticos das forças progressistas

Buenos Aires

O Chile irá às urnas em abril para definir aqueles que redigirão uma nova Constituição para o país, substituindo a que está em vigor desde 1981, promulgada pelo ditador Augusto Pinochet (1915-2006).

Uma Assembleia Constituinte formada apenas por membros eleitos foi a opção pela qual os chilenos votaram em outubro, de maneira contundente. A proposta foi vitoriosa com 78,8% dos votos, contra 21,1%.

"Abriu-se espaço a candidatos independentes, para atores da sociedade vindos de áreas diferentes, então pensei que poderia aportar algo", diz o autor de best-sellers de divulgação histórica Jorge Baradit, 51.

Autor dos três tomos de "Historia Secreta do Chile" e de obras de ficção científica, ele integra um movimento literário local conhecido como "freak power", que mistura linguagem das ruas com cultura pop.

Em 2018, lançou sua mais recente obra de não ficção, "La Dictadura", em que trata do período de Pinochet, "cujo ciclo temos a chance de fechar agora". Baradit sairá como candidato independente nessa eleição.

Manifestantes em Valparaíso homenageiam desaparecidos durante ditadura de Augusto Pinochet
Manifestantes em Valparaíso homenageiam desaparecidos durante ditadura de Augusto Pinochet - Rodrigo Garrido - 10.dez.20/Reuters

Em seu livro sobre a ditadura, o senhor conta que a saída de Pinochet, em 1990, não trouxe o alívio desejado e deixou uma sensação, que segue até hoje, de que sua presença ainda persiste. A nova Constituição fechará esse ciclo? Temos a oportunidade de fazer isso. O que temos que saber, agora, é se será aproveitada pelos chilenos. Pinochet é uma metáfora da história do Chile e de grande parte da América Latina. Nossos países nasceram da instalação da cultura ibérica, uma instalação violenta, da monarquia espanhola, da portuguesa. E essa instalação colocou no controle de tudo uma oligarquia.

Isso, em essência, não mudou. E Pinochet representa a violência desse processo, essa imposição de um sistema político e da ratificação dessa oligarquia. Por isso que, quando ele saiu, o Chile continuou de certa forma dentro do pinochetismo. Pinochet continuou à frente das Forças Armadas, depois virou senador vitalício e deixou uma Constituição que dava segurança de que o modelo não mudaria, que os militares não seriam perseguidos pelos crimes que cometeram, que os interesses da oligarquia continuavam sendo protegidos. Até hoje, temos, na direção de várias empresas importantes do país, pessoas que haviam trabalhado ou colaborado com Pinochet. Essa situação era celebrada por parte da sociedade, por ser parte do que se considerava a chave para a famosa "estabilidade política" do Chile.

As manifestações que começaram em 2019 passaram a desconstruir essa ideia? É o começo do processo, mas não tenho garantias dessa desconstrução, porque as forças que seguiram no controle do país e que têm orientação de seguir com o projeto pinochetista trabalham com a força, com a violência. O plebiscito, por impor uma derrota numérica tão grande à Constituição atual, nos dá a possibilidade de tirar das costas essa pedra de Sísifo. Mas, assim como na história mitológica, podemos colocar as coisas a perder.

Por que o senhor parece pessimista se, como disse, a vitória foi tão contundente? Porque o placar do plebiscito não necessariamente vai se repetir em abril. No plebiscito, a direita se quebrou e parte da direita votou pelo "aprovo" [pela nova Assembleia Constituinte]. Agora, irão à eleição unidos outra vez. Enquanto isso, a centro-esquerda e a esquerda se fragmentaram em várias agrupações. Como no Chile o sistema eleitoral é por listas, ou seja, favorável aos blocos grandes, haverá mais chance de a maioria ser da direita [não são os candidatos mais votados que entram, mas os integrantes de listas que receberem mais votos]. Isso pode emperrar algumas reformas e fazer com que tudo tenha que ser negociado segundo os termos dessa maioria, que tende a não ser progressista, ao menos na situação que temos hoje.

O que aconteceu com a Concertação [coalizão de centro-esquerda que governou o Chile de 1990 até 2010] e com a Frente Ampla [criada depois das manifestações estudantis de 2011]? A Concertação continua sendo uma força grande e nacional, mas hoje é basicamente formada apenas por dois partidos, o Socialista e a Democracia Cristã. O resto passou a se aproximar do Partido Comunista. A Frente Ampla surgiu para preencher esse espaço e se apresentar como uma social democracia de esquerda, como quem diz: não somos comunistas e tampouco somos a centro-esquerda que fez pactos com o pinochetismo [referindo-se à Concertação]. Mas não funcionou, fracassou ao não conseguir capitalizar apoio nas manifestações em 2019. As pessoas votaram em 2020 com uma rejeição muito grande aos partidos existentes, e isso incluiu a Frente Ampla, que sentiu e se quebrou. O resultado desse processo é que deve haver uma sobrerepresentação da direita e uma subrepresentação da esquerda na Constituinte. Ou seja, tínhamos uma chance de aproveitar esses 80% da população que votaram por mudança e corremos o risco de não conseguir por erros políticos cometidos pelas próprias forças progressistas.

Qual é a principal proposta da sua candidatura? O mais importante é defender aquilo que as pessoas votaram "aprovo" desejam. Isso significa transformar o Chile, de fato, num estado que garanta os direitos dos cidadãos. Temos de desmontar esse sistema no qual os direitos à educação e à saúde não são grátis. Porque, com uma sociedade tão desigual, há gente que não pode comprar seus próprios direitos e morre com uma aposentadoria miserável ou não tem uma boa educação para dar a seu filho, o que retroalimenta o sistema. Essa é a principal mudança que se quer, uma mudança básica, civilizatória.

Em seu livro sobre a ditadura, o senhor fala da campanha de desinformação que havia na época de Pinochet, por meio da qual muitos chilenos acreditavam que o general tinha "livrado o Chile de virar Cuba". Era parecido com a desinformação de hoje, que diz mais ou menos o mesmo sobre a Constituição? Sim, claro. Porque em ambos os casos se jogou com o medo das pessoas. Antes era o medo ao regime, a não dar o passo em falso, agora é o medo de perder o que se tem, de perder empregos etc. E o medo cancela a racionalidade. Quando um grupo é capaz de levar medo a outro, as respostas são irracionais. Por isso temo que essa propaganda de desinformação possa ter efeito no resultado da eleição para a Assembleia Constituinte. Temos a mensagem do medo em nossas veias, devido à nossa história.

Por que a imagem de Pinochet sobreviveu mais que a de outros ditadores latino-americanos? A ditadura da Argentina matou mais pessoas, mas seus líderes não são tão conhecidos no mundo. Pinochet, por outro lado, ainda tem camisetas com sua imagem sendo vendidas na Amazon e é evocado nas manifestações pró-Trump, por exemplo. Sim, nesse sentido, poderia ter sido pintado por Andy Warhol, porque acabou se transformando num ícone. É um personagem obscuro que tem algumas semelhanças com Hitler. Ambos eram sujeitos medíocres no que tentaram fazer antes, que tiveram muitos problemas de autoestima em sua juventude, e, quando puderam, avançaram com crueldade sobre suas vítimas.

No caso de Pinochet, sua crueldade não se resume ao número de mortos da ditadura chilena [cerca de 3.000], que é bem menor que o da ditadura argentina [cerca de 30 mil]. A gravidade do fenômeno Pinochet foi que ele conseguiu passar a ideia de um poder que somente podia emanar dele, ele centralizou o que em outros países foi realizado por juntas militares ou por um rodízio no poder. Além disso, sua crueldade vai além dos mortos justamente por ele ter desenhado esse modelo político e econômico que existe até hoje no país. Por isso está levando tanto tempo para que estejamos livres dele. Quando Pinochet saiu, nós nos livramos do regime político, não do modelo. Livramo-nos do Pinochet ditador, mas não do pinochetismo econômico, que ficou gravado na Constituição.

Na comparação com Hitler, ele ao menos foi desconstruído, enquanto há políticos no Chile hoje que se dizem abertamente "pinochetistas". Sim, imagine se no Parlamento alemão haverá o caso de reivindicadores abertos do suposto legado de Hitler. Não, mas aqui sim. Mas isso também tem a ver com a história. Na Segunda Guerra, os Aliados fizeram questão de arrasar com qualquer símbolo, de ir buscar Hitler no bunker. Aqui não. Pinochet não foi derrotado, ele entregou o poder, por isso muita gente se sente à vontade para evocar seu legado, para defendê-lo, até o dia de hoje. Na transição, não houve uma derrota de Pinochet. Ele permaneceu protegido por seus cargos e morreu tranquilamente em sua casa. Ao não haver derrota, portanto, há espaço para que ele seja reivindicado.


Jorge Baradit, 51

Nascido em Valparaíso, o escritor é formado em design gráfico e chegou a ter uma banda de punk; sua obra mais conhecida é a trilogia de não-ficção “Historia Secreta de Chile”,que vendeu mais de 200 mil cópias, mas também é autor de diversos romances

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