Segundo turno ao Senado na Geórgia define poder de Biden no começo do governo

Pesquisas mais recentes indicam leve favoritismo dos dois candidatos democratas

São Paulo

Mais de dois meses após o pleito que colocou Joe Biden na Casa Branca, os Estados Unidos finalmente vão encerrar o atual ciclo eleitoral nesta terça-feira (5), quando ocorre o segundo turno da disputa no estado da Geórgia para duas vagas no Senado.

A votação vai definir em grande medida como será a vida do novo presidente pelos próximos dois anos —e as últimas pesquisas apontam um leve favoritismo para os candidatos democratas.

Os dois candidatos democratas na disputa, Raphael Warnock (esq.) e Jon Ossoff, participam de evento de campanha na cidade de Augusta
Os dois candidatos democratas na disputa, Raphael Warnock (esq.) e Jon Ossoff, participam de evento de campanha na cidade de Augusta - Michael M. Santiago/Getty Images/AFP

Na eleição presidencial, Biden levou a Geórgia por pouco menos de 12 mil votos em um universo de quase 5 milhões, numa das disputas mais apertadas do pleito. Seu rival e atual presidente, Donald Trump, nunca aceitou a derrota no estado, que desde 1996 era um bastião republicano, e chegou a pedir que autoridades locais o ajudassem a virar a disputa no tapetão.

Os dois nomes republicanos na disputa pela Senado, inclusive, deram declarações em apoio às acusações —sem provas— de fraudes eleitorais feitas por Trump, o que acabou por nacionalizar o pleito desta terça.

A eleição para o Senado é importante porque, se os democratas levarem as duas vagas em disputa, Biden terá maioria nas duas Casas do Legislativo, o que deve facilitar muito seu trabalho. Mas, se os republicanos conquistarem ao menos uma das cadeiras, a sigla vai controlar o Senado —o que significa que o novo governo será obrigado a negociar com a oposição para aprovar seus projetos.

A Casa tem 100 senadores (dois por estado), sendo que atualmente 50 são republicanos e, 48, democratas (incluindo dois independentes que votam com o partido). Em caso de empate, quem tem o voto de minerva é o vice-presidente do país (que também é o presidente do Senado) —ou seja, a partir de 20 de janeiro, a democrata Kamala Harris, companheira de chapa de Biden.

Os dois candidatos republicanos, os senadores Kelly Loeffler (esq.) e David Perdue, acenam após discursarem na cidade de Milton
Os dois candidatos republicanos, os senadores Kelly Loeffler (esq.) e David Perdue, acenam após discursarem na cidade de Milton - Al Drago - 21.dez.2020/Reuters

Assim, se chegar a 50 cadeiras, o partido do novo presidente não dependerá dos republicanos e terá mais facilidade para avançar alguns pontos de sua agenda, incluindo a luta contra o aquecimento global e a retomada das negociações com o Irã.

Cabe ao Senado, ainda, confirmar as indicações do presidente para juízes de instâncias superiores e para os cargos do gabinete presidencial (o equivalente a ministros).

Dada a importância dessa eleição, tanto Biden quanto Trump visitaram a Geórgia nesta segunda (4) em um último esforço para ajudarem seus respectivos candidatos. Apesar da vantagem dos democratas nas pesquisas, analistas afirmam que a disputa segue aberta e que uma virada republicana é bem possível.

As duas vagas ao Senado em jogo serão decididas em duas eleições separadas —o candidato que concorre em uma não participa da outra.

Na eleição de 3 de novembro, além da disputa pela Casa Branca, também estavam em jogo todas as cadeiras da Câmara dos Representantes (o equivalente à Câmara dos Deputados) e 34 assentos do Senado, dos quais 32 já foram decididos —só na Geórgia haverá segundo turno, portanto.

Isso aconteceu porque nenhum dos candidatos conseguiu superar os 50% dos votos no primeiro turno. Assim, os dois mais bem colocados em cada uma das disputas vão se enfrentar nesta segunda rodada.

Uma das eleições opõe o atual senador David Perdue, um republicano, ao democrata Jon Ossoff. O primeiro, um aliado de Trump, fez carreira como executivo de grandes empresas —chegou a ser vice-presidente da gigante de material esportivo Reebok— antes de entrar para a política, em 2014.

Já seu desafiante atuou como documentarista e jornalista, além de ter trabalhado como assessor. Ossoff ganhou atenção nacional em 2017, ao disputar uma vaga para a Câmara. Ele acabou perdendo a disputa, mas seu resultado foi considerado surpreendente, já que o distrito tinha maioria conservadora.

O democrata é visto como um moderado dentro de seu partido, com posições mais à esquerda do que Biden, mas mais à direita do que a ala progressista da legenda.

No primeiro turno, Perdue terminou na frente, com 49,73% dos votos, contra 47,95% de Ossoff. As pesquisas mais recentes, porém, indicam vitória do democrata, que aparece com 49,3% das intenções de votos, contra 47,9%. Os números são da média dos levantamentos calculada pelo site FiveThirtyEight.

Quem vencer a eleição conquistará um mandato tradicional de seis anos.

Já na outra corrida, o que os dois candidatos —a republicana Kelly Loeffler e o democrata Raphael Warnock— disputam é o direito de terminar o mandato do senador republicano Johnny Isakson, que renunciou ao cargo no fim de 2019 devido a problemas de saúde.

Como nos EUA não existe a figura do suplente de senador, cada estado tem uma regra sobre o que fazer nesses casos. Na Geórgia, a lei determina inicialmente que cabe ao governador, no caso o republicano Brian Kemp, indicar alguém para a vaga. A escolhida foi Loeffler, uma executiva do setor financeiro sem experiência política anterior e que assumiu o cargo em janeiro do ano passado.

A legislação estadual, porém, determina que, quando ocorresse uma eleição em nível estadual na Geórgia, deveria ser realizada uma nova votação para determinar quem ficaria no cargo até o resto do mandato, em 2022. É isto que está sendo feito agora.

Para complicar, o pleito deve seguir um modelo conhecido como disputa aberta, segundo o qual cada partido inscreve quantos candidatos quiser no primeiro turno. Na prática, isso complicou a vida de Loeffer, que teve de enfrentar um adversário de peso na disputa pelo voto republicano, o deputado Doug Collins.

Para ir ao segundo turno, a senadora novata, antes vista como moderada, decidiu se radicalizar e adotar discurso mais próximo ao de Trump. A tática deu certo inicialmente, já que terminou à frente de Collins e passou à próxima rodada contra o líder, Warnock (que não enfrentou rivais de peso entre os democratas).

O problema é que a nova versão da senadora afasta eleitores independentes, o que pode favorecer Warnock. Nas pesquisas, o democrata aparece na frente, com 49,6% das intenções de voto, contra 47,6%.

Caso os números se confirmem nas urnas, Warnock, um pastor batista, fará história. Ele será não apenas o primeiro senador negro da história da Geórgia, mas também o primeiro democrata afro-americano eleito para a Casa por um estado do Sul dos EUA. O único outro negro eleito por voto popular para o Senado na região é o republicano Tim Scott, que desde 2013 representa a Carolina do Sul.

A Geórgia tem ainda um peso simbólico nesse caso, já que é o estado de dois dos mais importantes nomes da luta contra a segregação racial na história americana: o reverendo Martin Luther King Jr. (1929-1968) e o ativista e deputado democrata John Lewis, morto no ano passado.

Até por isso, a expectativa de analistas é a de que os negros compareçam em peso para votar nesta terça.

Como aconteceu no pleito presidencial, porém, o resutado ainda pode demorar alguns dias para sair, já que os votos enviados por correspondência com antecedência podem ser decisivos outra vez.

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