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Brasil busca vaga no Conselho de Segurança da ONU sob desgaste de Bolsonaro no exterior

País é até o momento candidato único da América Latina para a vaga e aparece como favorito na busca por 11ª participação em órgão responsável pela paz

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Brasília

O Brasil está em campanha para ser eleito pela 11ª ​vez membro rotativo do Conselho de Segurança da ONU (Organização das Nações Unidas), numa ação para consolidar o país como um dos mais frequentes participantes da entidade responsável por zelar pela paz na arena global.

Apesar de diplomatas preverem que o Brasil caminha para alcançar os dois terços de votos necessários entre os estados-membros da ONU, o país atravessa o pleito sob a sombra da imagem internacional desgastada do presidente Jair Bolsonaro.

Desde o início de seu governo, o brasileiro acumulou confrontos com países europeus, o mundo árabe, a China e, mais recentemente, os Estados Unidos liderados pelo presidente Joe Biden.

Reunião virtual do Conselho de Segurança da ONU realizada em julho de 2020 discute situação do Oriente Médio
Reunião virtual do Conselho de Segurança da ONU realizada em julho de 2020 discute situação do Oriente Médio - Eskinder Debebe - 15.jul.20/ONU/AFP

A eleição está agendada para junho. O Conselho de Segurança é composto por cinco integrantes permanentes com direito a veto —Estados Unidos, China, Rússia, Reino Unido e França— e dez membros rotativos, que cumprem mandatos de dois anos cada.

A renovação de metade dos participantes não permanentes ocorre anualmente.

O principal trunfo do governo brasileiro é um robusto histórico de participações na entidade —ao lado do Japão, é o país que mais mandatos temporários cumpriu—​ e o fato de ser até o momento candidato único no grupo da América Latina e Caribe.

A última vez que o Brasil participou do órgão foi em 2011, ainda na gestão de Dilma Rousseff (PT). Caso seja eleito agora, o país assumirá a vaga em 2022 para um mandato de dois anos.

As vagas no conselho são definidas por áreas geográficas. Os latino-americanos tradicionalmente cumprem um acordo de rodízio para não lançar mais do que um candidato.

Diplomatas que trabalham com o tema no Itamaraty têm monitorado se há disposição de algum outro governo latino-americano para lançar uma postulação concorrente à brasileira, mas relatam que até o momento não há indicativo de que isso vá ocorrer.

Além do mais, na mais recente ocasião em que houve disputa interna no grupo da América Latina, o país que tinha a vaga prometida não encontrou problemas em se eleger.

Em 2019, El Salvador tentou de última hora disputar o posto com São Vicente e Granadinas, mas obteve o apoio de apenas seis países. O pequeno estado insular, por outro lado, recebeu 185 votos.

De acordo com diplomatas consultados pela Folha, o tamanho e a importância do Brasil para a América Latina desencorajam a apresentação de candidaturas alternativas, embora a possibilidade não possa ser descartada até o final do processo.

Muitos países vizinhos endossam ainda a demanda histórica do Brasil de, em uma reforma da ONU, conseguir um assento permanente —sem direito a veto— no conselho, por considerarem que a América Latina está sub-representada da entidade.

Embora o Brasil seja considerado um candidato sólido na disputa para o mandato temporário, diplomatas avaliam que a guinada conservadora na política externa brasileira pode gerar alguma resistência à postulação do país.

O chanceler brasileiro, Ernesto Araújo, está à frente da agenda bolsonarista. O país já tem enfrentado problemas diplomáticos em razão de posicionamentos da ala ideológica do governo.

Antes considerado um interlocutor com condições de transitar entre países adversários, o Brasil de Bolsonaro tem rompido posicionamentos históricos e entrou em rota de colisão com parceiros tradicionais.

Interlocutores que acompanham o tema destacam principalmente o alinhamento do Brasil com Israel em temas relacionados ao conflito com os palestinos, o que gera animosidade entre países árabes e o mundo islâmico.

A falta de engajamento do governo Bolsonaro com a África e a decisão de apoiar os Estados Unidos na votação na ONU sobre o embargo em Cuba também são apontadas como ações que causam desconfiança de outras nações.

O ex-chanceler Celso Amorim —que presidiu os trabalhos do Conselho de Segurança em 1999— opina que dificilmente o Brasil não será eleito. Mas destaca que as posições adotadas por Bolsonaro podem levar o país a ter uma votação abaixo de performances anteriores.

"Sem outro candidato [do grupo latino-americano] é difícil não ser eleito. Agora, o Brasil pode ter uma votação baixa que seja desmoralizante. O Brasil era eleito praticamente com a unanimidade dos votos. Às vezes um ou dois [países] não votavam no Brasil, mas era para mostrar mais insatisfação com o sistema de escolha do que com o Brasil", diz.

"Eu vejo uma perda de prestígio do Brasil, que no fundo afeta a capacidade de atuação no Conselho."

Procurado, o Itamaraty disse que tem "buscado angariar o mais amplo apoio possível ao pleito" brasileiro.

O ministério afirmou ainda que a candidatura do Brasil está ancorada em compromissos históricos do país com a "paz e a segurança internacionais e com a defesa e proteção dos direitos humanos, das liberdades fundamentais e da dignidade humana”.

"O governo brasileiro continuará a defender o papel do Conselho de Segurança na prevenção e resolução de ameaças à paz e à segurança internacionais, sempre de acordo com os propósitos e princípios estabelecidos na Carta das Nações Unidas e em respeito à soberania de todas as nações", afirmou.

"Ademais, [o governo] compromete-se a manter, na medida de suas capacidades, contribuição efetiva para missões de paz das Nações Unidas", disse a chancelaria.

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