Mianmar tem greve geral e grandes protestos contra golpe mesmo após ameaças do governo

Ao menos quatro ativistas morreram durante os protestos no país desde sexta (19)

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Rangoon (Mianmar) | AFP e Reuters

Uma greve geral contra o golpe militar em Mianmar fechou empresas nesta segunda (22) e grandes multidões protestaram em várias partes do país. Os atos foram realizados mesmo após a junta militar advertir que os ativistas correm risco de morte ao irem a manifestações.

Nesta segunda, centenas de milhares de pessoas se reuniram em várias cidades. Os protestos foram os maiores desde o golpe, em 1º de fevereiro, segundo o jornal The Washington Post.

A data foi escolhida para grandes atos por ter cinco números dois: "22/2/2021". Ativistas viram relação disso com "8/8/1988", dia de grandes protestos contra outro regime militar que dominou o país, quase 33 anos atrás.

Manifestantes protestam na cidade de Mandalay, em Mianmar - AFP

As autoridades militares voltaram a cortar o acesso à internet na madrugada de segunda-feira, pela oitava noite consecutiva, segundo a NetBlocks, entidade com sede no Reino Unido.

Na capital, Naypiytaw, canhões de água disparados pela polícia interromperam uma marcha de manifestantes. Os jatos jogaram muitos deles ao chão.

Em Rangoon, maior cidade do país. milhares de pessoas se reuniram. Em um dos atos, manifestantes sentaram no chão e exibiram bandeiras de apoio à chefe de governo deposta, Aung San Suu Kyi, que está detida desde 1º de fevereiro em um local não divulgado.

Muitos mercados e outros estabelecimentos comerciais permaneceram fechados em solidariedade ao movimento pró-democracia. Também foram registradas manifestações nas cidades de Myitkyina (norte) e Dawei (sul).

"Estamos aqui para participar na manifestação, para lutar até a vitória", disse à Reuters o estudante Kyaw Kyaw, 23, em Rangoon. "Nada vai acontecer se meu salário for cortado, mas se ficarmos sob uma ditadura militar, vamos ser escravos."

"O Exército tomou o poder injustamente do governo civil eleito", afirmou um manifestante de 29 anos, que pediu anonimato. "Lutaremos até obter nossa liberdade, democracia e justiça."

No domingo (21) à noite, as autoridades advertiram que "os manifestantes estão incitando as pessoas, sobretudo os adolescentes e jovens exaltados, a seguir o caminho do confronto no qual morrerão", segundo um comunicado lido no canal de televisão estatal MRTV, com legendas em inglês.

No domingo, ativistas prestaram homenagem à primeira vítima da repressão, uma jovem que se tornou ícone da resistência. O funeral de Mya Thwate Thwate Khaing, atingida por um tiro na cabeça e que faleceu após dez dias de internação, reuniu milhares de pessoas na periferia de Naypyidaw.

No sábado morreram duas pessoas em Mandalay e uma terceira em Rangoon, vítimas da repressão policial. De acordo com a associação de ajuda aos presos políticos, 640 pessoas foram detidas desde o golpe.

A preocupação da comunidade internacional é cada vez maior. O secretário-geral da ONU, António Guterres, condenou nesta segunda-feira a "força brutal" utilizada pelos militares. "Peço ao Exército de Mianmar que pare a repressão imediatamente, liberte os prisioneiros, acabe com a violência e respeite os direitos humanos e a vontade do povo expressada nas recentes eleições", afirmou Guterres, na abertura da 46ª sessão do Conselho de Direitos Humanos das Nações Unidas.

Também nesta segunda, os ministros das Relações Exteriores da União Europeia advertiram que estão dispostos a adotar sanções contra os militares, depois que Estados Unidos, Reino Unido e Canadá tomaram decisões nesse sentido.

O Ministério das Relações Exteriores de Mianmar classificou as medidas estrangeiras de "interferência flagrante" nas questões internas do país. "Apesar das manifestações ilegais, as incitações aos distúrbios e a violência, as autoridades dão mostras de grande contenção, recorrendo o mínimo possível à força para enfrentar as perturbações", afirmou o ministério em um comunicado.

O Exército vem tentando usar supostas acusações de fraude no pleito como justificativa para a tomada de poder. Os militares também acrescentaram à narrativa o argumento de que a comissão eleitoral do país usou a pandemia de coronavírus como pretexto para impedir a realização de uma campanha justa. Dizem ainda que agiram de acordo com a Constituição e que a maior parte da população apoia sua conduta, acusando manifestantes de incitarem a violência.

O general Min Aung Hlaing, que assumiu o controle do país com o golpe, decretou em 1º de fevereiro um estado de emergência que deve durar um ano. “Colocaremos em operação uma verdadeira democracia multipartidária”, declarou o novo regime, acrescentando que o poder será transferido após “a realização de eleições gerais livres e justas”. A promessa, apesar de reiterada, é encarada com ceticismo pelos mianmarenses opositores e por observadores internacionais.

A LND, partido de Suu Kyi que comanda o país desde 2015, obteve 83% dos votos e conquistou 396 dos 476 assentos no Parlamento nas últimas eleições, realizadas em novembro do ano passado. A legenda, entretanto, foi impedida de assumir quando o golpe foi aplicado no dia da posse da nova legislatura. O Partido da União Solidária e Desenvolvimento, apoiado pelos militares, obteve apenas 33 cadeiras. ​

Mianmar tem um violento histórico de reações a protestos. Na revolta de 1988, mais de 3.000 manifestantes foram mortos pelas forças de segurança do país durante atos contra o regime militar —o país viveu sob uma ditadura de 1962 a 2011. ​


CRONOLOGIA DA HISTÓRIA POLÍTICA DE MIANMAR

  • 1948: Ex-colônia britânica, Mianmar se torna um país independente
  • 1962: General Ne Win abole a Constituição de 1947 e instaura um regime militar
  • 1974: Começa a vigorar a primeira Constituição pós-independência
  • 1988: Repressão violenta a protestos contra o regime militar gera críticas internacionais
  • 1990: Liga Nacional pela Democracia (LND), de oposição ao regime, vence primeira eleição multipartidária em 30 anos e é impedida de assumir o poder
  • 1991: Aung San Suu Kyi, da LND, ganha o Nobel da Paz
  • 1997: EUA e UE impõe sanções contra Mianmar por violações de direitos humanos e desrespeito aos resultados das eleições
  • 2008: Assembleia aprova nova Constituição
  • 2011: Thein Sein, general reformado, é eleito presidente e o regime militar é dissolvido
  • 2015: LND conquista maioria nas duas Casas do Parlamento
  • 2016: Htin Kyaw é eleito o primeiro presidente civil desde o golpe de 1962 e Suu Kyi assume como Conselheira de Estado, cargo equivalente ao de primeiro-ministro
  • 2018: Kyaw renuncia e Win Myint assume a Presidência
  • 2020: Em eleições parlamentares, LND recebe 83% dos votos e derrota partido pró-militar
  • 2021: Militares alegam fraude no pleito, prendem lideranças da LND, e assumem o poder com novo golpe de Estado
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