Congresso comemora saída de Ernesto, mas pressiona por mudanças na política externa

Ministro pediu demissão após pressão do Legislativo, que o acusa de omissão no combate à pandemia

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Brasília

Após o Congresso ter se tornado o principal foco de atrito com o ex-chanceler Ernesto Araújo, parlamentares comemoraram nesta segunda (29) a saída do ministro. Eles sinalizaram, porém, que manterão a pressão para evitar a nomeação de um nome ideológico para o posto no Itamaraty.

Ernesto pediu demissão após pressão da cúpula do Congresso, que o acusava de omissão no combate à pandemia. Agora, o Legislativo espera que o substituto do chanceler seja um nome considerado não ideológico —o ex-ministro era admirador declarado do escritor Olavo de Carvalho, guru do bolsonarismo.

O ex-ministro das Relações Exteriores Ernesto Araújo no Palácio do Planalto
O ex-ministro das Relações Exteriores Ernesto Araújo no Palácio do Planalto - Pedro Ladeira - 10.nov.20/Folhapress

O líder da maior bancada do Senado, Eduardo Braga (MDB-AM), afirma que aguarda a manifestação oficial do governo confirmando a saída de Ernesto, mas adianta que será importante a escolha de um novo nome que retome princípios das relações exteriores brasileiras.

“Acho mais importante saber quem será o novo chanceler do que comentar a saída desse. Precisamos de um chanceler que possa fazer com que nossas relações exteriores sigam um caminho construtivo e que supere as questões relativas a vacinas”, afirmou Braga à Folha. “Em relação à questão ideológica, acho que não há espaço para essas questões em diplomacia internacional. Ernesto não tem importância. O importante é o Brasil, e não o Ernesto. E espero que o Brasil acerte na escolha do novo chanceler.”

O Senado se tornou o grande foco de atrito com Ernesto. O episódio mais recente, considerado estopim para a saída, foi uma postagem nas redes sociais do ex-ministro, na qual insinua uma ligação da Casa com o lobby chinês pelo 5G, o que, segundo ele, estaria por trás da pressão para derrubá-lo.

Ernesto já havia sido alvo de grande cobrança, como acusações de falta de capacidade e pedidos de demissão, ao participar de uma sessão do Senado na quarta-feira da semana passada. Na ocasião, nem mesmo líderes do governo no Congresso saíram em defesa dele. A saída de Ernesto, portanto, uniu membros governistas e também da oposição, em um movimento raramente visto no Congresso.

Líder do PL no Senado, bancada de apoio ao governo Bolsonaro, Carlos Portinho (PL-RJ), comemorou a saída. “Achei ótimo que ele tenha saído. Fiquei mal impressionado só de ouvi-lo no Senado. Péssima oratória. Imagino em outra língua como deve ser. Dá para ver que era um péssimo interlocutor”, afirmou.

O líder do Cidadania, Alessandro Vieira (Cidadania-SE), afirmou que Ernesto não estava preparado para ser chanceler, resultando em prejuízos para o país. “O ministro Ernesto não mostrou em nenhum momento capacidade para ocupar uma cadeira tão importante. Despreparado e com posicionamentos radicais, causou prejuízos severos para o país, em especial na disputa geopolítica pelas vacinas”, afirmou.

Embora também comemore a saída do ministro, a oposição aponta que o responsável pela “catástrofe diplomática” é também o presidente Jair Bolsonaro. “Ele chegou [para a sessão no Senado] sob fogo dos parlamentares de oposição e mesmo de alguns que votam alinhados com o governo, mas, no final, a impressão que ficou é a de que Bolsonaro está lavando as mãos e servindo a cabeça de seu ministro numa baixela de prata”, afirmou o líder da minoria, senador Jean Paul Prates (PT-RN).

“A fritura do ministro das Relações Exteriores é evidente. Ele foi escalado como culpado da hora pelo atraso e ausência de vacinas no país. Que Araújo é uma catástrofe diplomática, ninguém nega. Mas ele é o bode que colocaram na sala para que outros não paguem o pecado a ser expiado. Se o Brasil não tem vacinas, o responsável é Bolsonaro”, completou.

Em nota, o PSDB afirmou que o ex-chanceler, em vez de defender os interesses urgentes do Brasil, como a busca de vacina ou a melhora no comércio exterior, "preferiu utilizar o Ministério das Relações Exteriores como porta-voz dos desvarios ideológicos e paranoicos de parcela dos apoiadores do atual presidente".

"Na prática, sua gestão contribuiu para nos isolar dos mais relevantes países do mundo. Quis transformar o Brasil em um 'pária', mas foi além, tornou-nos uma vergonha mundial", indicou o partido.​

Na Câmara, a saída do ministro também foi celebrada. Para o deputado Fausto Pinato (PP-SP), a troca representa a vitória de uma batalha, mas não da “guerra à máquina de desinformação liderada pelo [deputado] Eduardo Bolsonaro”. “As fake news que atacam o Supremo [Tribunal Federal], a mídia e os congressistas e que levam desinformação que vem matando pessoas no Brasil e que mataram as relações diplomáticas do Brasil com outros países têm que ser brecadas, pois esse vírus olavista e extremista chega a ser mais letal que a Covid, pois mata pessoas e quer matar a democracia brasileira.”

Membro da Comissão de Relações Exteriores da Câmara, o deputado Rodrigo Agostinho (PSB-SP) afirmou que o ex-chanceler “manchou a imagem e a história da diplomacia brasileira”. “Já foi tarde e não fará falta. Que o governo não coloque outro lunático no lugar.”

O deputado Marcel Van Hattem (Novo-RS), que também faz parte do colegiado, disse esperar que o foco do novo chanceler esteja na busca por soluções para a pandemia. “Seja por meio da aquisição de vacinas de outros países, seja por meio da liberação para que municípios e estados também possam fazer compras, coisa que estão tendo dificuldades neste momento”, disse.

Ele defendeu uma relação mais próxima do Ministério das Relações Exteriores com o Ministério da Saúde para “avaliar esses casos e liberar essas compras, porque quanto mais pessoas forem vacinadas, melhor”.

Além disso, Van Hattem também quer que o ministro ajude a defender a vacinação por meio de compras da própria iniciativa privada. “Acho que no âmbito da pandemia esse é o principal que o ministro pode fazer, sem descuidar também das outras áreas”, complementou. “Manter relações diplomáticas estáveis e frutíferas com todos os países do mundo, em especial aqueles que têm grandes relações comerciais com o Brasil, e, onde não tiver, defender o máximo possível a abertura de mercado e liberdade comercial.”

O deputado Reinhold Stephanes Junior (PSD-PR), também da comissão, avalia que a decisão de deixar o Itamaraty foi “um ato nobre do ministro”. “Porque ele tinha o apoio do presidente, e, a meu ver, fazia um bom trabalho. A questão foi de não criar embaraço para o governo, já que se criou um clima contra ele.”

Para ele, o ministro que deve assumir estará alinhado com a política externa do país e será moderado. “Não será alguém com ideologia de esquerda, de trancamento de mercado, isso não voltará ao país tão cedo”, disse. “Terá uma política de abertura para comércio com as principais potências do mundo.”

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