Descrição de chapéu The New York Times

G. Gordon Liddy, arquiteto da invasão do edifício Watergate, morre aos 90 anos

Agente oculto da Casa Branca tramou ação que gerou o escândalo e levou à renúncia do presidente Nixon

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Robert D. McFadden
The New York Times

G. Gordon Liddy, advogado que arquitetou operações sigilosas e escusas para a Casa Branca e tramou o assalto desastrado que levou ao escândalo Watergate e à renúncia do presidente Richard Nixon em 1974, morreu nesta terça-feira (30) em Mount Vernon, na Virgínia. Ele tinha 90 anos.

Sua morte, que ocorreu na casa de sua filha Alexandra Liddy Bourne, foi confirmada por seu filho Thomas P. Liddy, que informou que o pai tinha a doença de Parkinson e estava com a saúde enfraquecida.

Décadas depois de “Watergate” entrar para o léxico comum, Liddy ainda era um enigma no meio do elenco de personagens que caiu em desgraça juntamente com o 37º presidente dos Estados Unidos.

Para alguns, ele era um patriota que foi à prisão em silêncio, recusando-se a trair seus companheiros. Outros o enxergavam como um fanático que aproveitou sua celebridade espúria para tornar-se autor e apresentador de um talk show transmitido por várias redes de TV.

G. Gordon Liddy, advogado e agente do FBI que tramou o assalto que levou ao escândalo de Watergate
G. Gordon Liddy, advogado e agente do FBI que tramou o assalto que levou ao escândalo de Watergate - Paul Hosefros - 12.jun.1992/The New York Times

Como líder da unidade dos chamados “encanadores” [agentes ocultos] da Casa Branca criada para tampar vazamentos de informação, e, mais tarde, como estrategista da campanha de reeleição do presidente, Liddy ajudou a arquitetar complôs para desacreditar os “inimigos” de Nixon e para semear confusão na Convenção Nacional Democrata de 1972. As ações que ele arquitetou foram em sua maioria de êxito improvável: sequestros bizarros, atos de sabotagem, armadilhas usando prostitutas, até um assassinato político —e nunca chegaram a ser postas em prática.

Mas Liddy, ex-agente do FBI, e Howard Hunt, ex-agente da CIA, organizaram dois assaltos à sede do Comitê Nacional Democrata no complexo de Watergate, em Washington. Em 28 de maio de 1972, com Liddy e Hunt acompanhando tudo, seis exilados cubanos e James McCord, um agente de segurança da campanha de Nixon, entraram na sede democrata, instalaram microfones ocultos, fotografaram documentos e saíram sem deixar rastros.

Algumas semanas mais tarde, em 17 de junho, quatro cubanos e McCord, usando luvas cirúrgicas e portando walkie-talkies, voltaram ao local e foram flagrados pela polícia. Liddy e Hunt, que comandavam a operação a partir de um quarto de hotel no complexo Watergate, fugiram, mas foram presos pouco depois e indiciados por roubo, grampo telefônico e conspiração.

No contexto de 1972, com a visita triunfal de Nixon à China e uma campanha presidencial que passou como um rolo compressor sobre o candidato democrata, o senador George McGovern, em um primeiro momento o caso Watergate não pareceu que teria grandes consequências. O secretário de imprensa de Nixon, Ron Ziegler, o descreveu como nada mais que “um roubo de terceira categoria”.

Mas o caso aprofundou uma operação de acobertamento lançada pela Casa Branca que começara em 1971, quando Liddy e Hunt entraram ilegalmente no consultório do psiquiatra Daniel Ellsberg, que vazou os Papéis do Pentágono ao New York Times, à procura de informações que pudessem prejudicá-lo.

Ao longo dos dois anos seguintes, a operação de acobertamento se desfez sob a pressão de investigações, julgamentos, audiências e manchetes, convertendo-se no pior escândalo político na história do país e levando à primeira renúncia de um presidente em exercício.

Diferentemente de outros réus do caso Watergate, Liddy se recusou a depor sobre suas atividades para a Casa Branca ou para o comitê de reeleição do presidente. Entre os que foram para a prisão, ele recebeu a pena mais longa. Liddy foi sentenciado pelo juiz John J. Sirica a uma pena de seis a 20 anos, mas cumpriu apenas 52 meses de prisão. Em 1977, o presidente Jimmy Carter comutou sua pena.

A repórteres após sua soltura Liddy, homem baixo, bem vestido, calvo e bigodudo, disse: “Vivi como acreditei que deveria viver”. Ele disse que não se lamentava de nada e que faria tudo outra vez se fosse preciso. “Quando o príncipe procura seu tenente, a resposta correta do tenente é ‘fiat voluntas tua’” (em latim, “seja feita a vossa vontade”, da oração do Pai Nosso).

G. Gordon Liddy, acompanhado da esposa e dos filhos, durante entrevista coletiva depois de ter sido solto da prisão
G. Gordon Liddy, acompanhado da esposa e dos filhos, durante entrevista coletiva depois de ter sido solto da prisão - Teresa Zabala - 8.set.77/The New York Times

Proibido de trabalhar novamente como advogado e com dívidas de US$ 300 mil (R$ 1,7 milhão, na cotação atual), principalmente de honorários advocatícios, Liddy começou carreira nova como escritor.

Seu primeiro livro, “Out of Control” (1979), foi um thriller de espionagem. Ele escreveria outro romance, “The Monkey Handlers” (1990), e um livro de não ficção, “When I Was a Kid, This Was a Free Country” (2002). Foi coautor de um manual de combate ao terrorismo, “Fight Back! Tackling Terrorism, Liddy Style” (2006), e escreveu numerosos artigos sobre política, impostos, saúde e outros temas.

Liddy rompeu seu silêncio sobre Watergate em 1980 com sua autobiografia, “Will”. As reações críticas foram ambíguas, mas o livro virou best-seller. Após anos de revelações feitas por outros conspiradores de Watergate, o livro continha poucas informações novas sobre o escândalo, mas críticos disseram que o relato que Liddy fez da vida na prisão foi explícito. Em 1982, a NBC exibiu um filme baseado no livro.

Liddy virou figura requisitada no circuito das palestras em universidades. Em 1982 ele se juntou a Timothy Leary, o guru do LSD nos anos 1960, para promover debates em universidades que foram editados para formar um documentário, “Return Engagement”. O título aludia a uma ocasião em 1966 quando Liddy, então promotor público em Dutchess County, estado de Nova York, participou de uma blitz contra uma seita envolvendo drogas, operação na qual Leary foi detido.

Na década de 1980, aventurou-se a trabalhar como ator, aparecendo em “Miami Vice” e fazendo outros papéis na TV e no cinema. Mas ficou mais conhecido mais tarde como apresentador de talk show com uma agenda de direita. “The G. Gordon Liddy Show” começou em 1992 e era transmitido por centenas de estações pela Viacom e mais tarde pela Radio America, incluindo canais via satélite e internet streaming.

O programa continuou até que Liddy se aposentou, em 2012. Ele vivia em Fort Washington, em Maryland.

George Gordon Battle Liddy nasceu em 30 de novembro de 1930, no Brooklyn (Nova York), filho de Sylvester J. e Maria Liddy, cujo sobrenome de solteira era Abbaticchio. Passou sua infância em Hoboken, em Nova Jersey. Era um menino medroso, com problemas respiratórios, que aprendeu a fortalecer-se submetendo-se a provas de força de vontade. Ele levantava pesos, corria e, segundo recordou, colocava a mão em cima de uma chama, como ato de autodisciplina.

Liddy contou que certa vez comeu um rato para dominar sua própria repulsa e que decapitou frangos para um vizinho até aprender a matar como um soldado, “eficientemente e sem emoção ou pensar duas vezes”.

Como seu pai, que era advogado, G. Gordon Liddy estudou no colégio masculino St. Benedict’s Prep School, em Newark, e na Universidade Fordham, no Bronx. Depois de se formar pela Fordham em 1952, entrou para o Exército como oficial na esperança de poder combater na Coreia, mas em vez disso teve que trabalhar numa unidade de radar antiaéreo no Brooklyn.

Em 1954, ele retornou à Fordham, e, três anos mais tarde, diplomou-se em direito pela universidade.

Ele se casou com Frances Ann Purcell em 1957. O casal teve cinco filhos. Ao lado de seus filhos Thomas e Alexandra, Liddy deixa outra filha, Grace Liddy; dois outros filhos, James Liddy e Raymond J. Liddy; uma irmã, Margaret McDermott, 12 netos e dois bisnetos. Sua esposa morreu em 2010.

Tradução de Clara Allain 

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