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Xi traça os planos para a ascensão da China pós-Covid e aponta EUA como maior ameaça

Pequim busca equilíbrio entre confiança e cautela enquanto Ocidente ainda tem dificuldades em lidar com a pandemia

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The New York Times

Xi Jinping está adotando postura confiante enquanto procura assegurar a prosperidade e o poder da China num mundo pós-Covid, dizendo que o país está ingressando num período cheio de oportunidades no qual “o Oriente está em ascensão e o Ocidente, em declínio”.

A portas fechadas, contudo, o líder do Partido Comunista chinês advertiu os líderes chineses diretamente: não descartem nossos concorrentes, sobretudo não os Estados Unidos.

“A maior fonte de caos no mundo atual é os Estados Unidos”, disse Xi, relatou um funcionário de um condado no noroeste da China, em discurso publicado semana passada num site do governo. Segundo ele, Xi teria dito: “Os Estados Unidos são a maior ameaça ao desenvolvimento e segurança de nosso país”.

Reiterado em declarações públicas recentes de funcionários seniores próximos a Xi, o aviso reforça o equilíbrio entre confiança e cautela que Xi procura atingir neste momento em que a China avança enquanto outros países continuam a ter dificuldades em lidar com a pandemia.

A 4ª sessão do 13º Comitê Nacional da Conferência Consultiva Política do Povo Chinês é inaugurada no Grande Salão do Povo em Pequim; ao centro, o líder Xi Jinping
A 4ª sessão do 13º Comitê Nacional da Conferência Consultiva Política do Povo Chinês é inaugurada no Grande Salão do Povo em Pequim; ao centro, o líder Xi Jinping - Ju Peng - 4.mar.2021/Xinhua

Os pronunciamentos ambíguos de Xi refletem um esforço para conservar a China em guarda –isso porque, não obstante seu sucesso em casa, o país continua a ser visto com desconfiança profunda por parte de Washington e outras capitais ocidentais.

Funcionários chineses disseram em discursos divulgados recentemente em sites locais do Partido Comunista que, segundo Xi, apesar de o país estar se fortalecendo, “o Ocidente ainda é forte e o Oriente ainda é fraco” sob muitos aspectos.

Xi vai anunciar um novo plano de longo prazo para o país se orientar neste novo ambiente global. O anúncio será feito durante a reunião do Congresso Nacional do Povo, a legislatura controlada pelo Partido Comunista, que começará nesta sexta-feira (5) e deve durar uma semana.

“Xi Jinping me parece incansável, mas cauteloso no esforço para construir um legado pessoal durável”, comentou o sinólogo Dimitar Gueorguiev, professor assistente de ciência política na Universidade Syracuse.

Xi e outros líderes chineses recentemente descreveram desafios de curto e longo prazo que podem dificultar a realização de suas ambições. A administração Biden assinalou que quer pressionar a China na questão dos direitos humanos e competir com ela em matéria de avanços tecnológicos e influência regional na Ásia.

Em casa, a China enfrenta uma população em processo de envelhecimento e está tentando reformar um motor de crescimento econômico que usa investimentos e energia demais para obter poucos ganhos e causar muita poluição.

Pequim também enxerga uma ameaça em Hong Kong, onde em 2019 a resistência ao controle crescente do Partido Comunista desencadeou protestos antigoverno que continuaram por meses. Ressaltando a linha dura seguida por Xi contra qualquer oposição política, a legislatura chinesa parece estar se posicionando para apoiar planos de reescrever drasticamente as regras eleitorais para Hong Kong, acabando com os últimos vestígios de democracia local na antiga colônia britânica.

A China também está de olho em sua próxima grande troca de liderança, em 2022. Parece provável que Xi, 67, reivindique um terceiro mandato de cinco anos no poder, passando por cima das limitações aos mandatos instauradas para restringir os líderes do país depois de Mao Tsetung e Deng Xiaoping.

Os líderes chineses estão utilizando o sucesso do país em eliminar as infecções por coronavírus como argumento para justificar o governo de cima para baixo de Xi Jinping. Tendo emergido triunfante da pandemia, Xi vai querer centralizar seu poder ainda mais, disse Lynette H. Ong, cientista política na Universidade de Toronto.

Xi tem dito que a cada ano que passa a China chega mais perto de retomar seu status histórico de grande potência. Enquanto isso, segundo ele, as potências estabelecidas estão divididas e disfuncionais.

No final do ano passado ele incentivou líderes chineses a “captar claramente a grande tendência de que o Oriente está ascendendo enquanto o Ocidente está em declínio”, disse recentemente o funcionário partidário Zhou Ye numa reunião na Universidade Fudan, em Xangai, segundo um relato online. “Há um contraste marcante entre a ordem da China e o caos do Ocidente.”

Há anos Xi e outros líderes chineses ocasionalmente usam um discurso agressivo, opondo o Oriente ao Ocidente. Mas essas frases vêm sendo empregadas com muito mais frequência nos últimos meses, destacando a confiança –ou, segundo críticos, a arrogância—que emana do governo chinês.

A saúde da economia será crucial para a sobrevivência dessa confiança. Assessores do governo sugerem que, se tudo correr bem, o crescimento médio da economia pode chegar a 5% ou mais nos próximos cinco anos.

Mas, dizem assessores econômicos em Pequim, o país talvez não consiga manter esse nível de crescimento se não se tornar mais inovador e reduzir sua dependência dos investimentos em infraestrutura e indústria pesada.

A China também enfrenta desafios demográficos sérios. O país se beneficia há décadas de uma força de trabalho jovem que lotou suas fábricas e cidades. Mas o envelhecimento da população vai elevar a pressão sobre aposentadorias, o setor de saúde e as poupanças acumuladas.

Essas pressões econômicas podem acabar corroendo o apoio público ao Partido Comunista nos anos vindouros, disse Andrew G. Walder, professor da Universidade Stanford que contribuiu para um livro, “Fateful Decisions”, sobre as decisões difíceis que o país tem pela frente. “Não devemos nos deixar enganar pela estabilidade da aprovação pública da atuação do Partido Comunista”, ele disse.

Os líderes de Pequim parecem estar com a atenção muito mais voltada aos Estados Unidos, que, para eles, continuam determinados a dificultar a ascensão da China, independentemente de quem ocupa a Casa Branca.

Os legisladores chineses ficaram alarmados quando a administração Trump revogou o acesso de empresas chinesas à tecnologia americana. Muitos dizem que os EUA vão continuar tentando restringir a China, limitando seu acesso a tecnologias como semicondutores avançados e as máquinas para produzi-las.

“A contenção e a opressão dos Estados Unidos é um perigo importante”, disse Chen Yixin, funcionário de segurança que foi executor da política de Xi em Wuhan, onde o coronavírus emergiu. Em janeiro, quando discursou para funcionários do governo sobre as ideias de Xi Jinping, Chen empregou linguagem militar para enfatizar os perigos: “Isto é um confronto não planejado e também uma guerra prolongada”.

Em 2018 Xi forçou a adoção de uma emenda constitucional abolindo limites aos mandatos presidenciais. Com isso, abriu o caminho para sua permanência no poder por mais de uma década como presidente e também líder do partido. É provável que as elites políticas e econômicas chinesas fiquem cada vez mais apreensivas sobre quando e como Xi vai promover um potencial sucessor ou grupo de sucessores.

Ele pode continuar a dominar por anos ainda, o que tornará suas decisões, ou seus julgamentos equivocados, ainda mais significativos.

“Hoje existem poucas fontes de oposição interna, ou mesmo nenhuma”, disse o historiador Xiao Gongqin, de Xangai. “Por isso é importante que o líder possa continuar estável e bem equilibrado.”

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