Descrição de chapéu Governo Biden

Enviado de Biden cobra 'ações imediatas' de Bolsonaro sobre o clima

John Kerry diz que compromisso assumido pelo Brasil precisa 'gerar resultados tangíveis'

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Washington

O governo Joe Biden reconheceu publicamente pela primeira vez nesta sexta-feira (16) a importância do compromisso do presidente Jair Bolsonaro em acabar com o desmatamento ilegal até 2030 no Brasil, mas pediu "ações imediatas" e "engajamento com as populações indígenas e sociedade civil" para que a promessa possa gerar resultados que os americanos classificam como tangíveis.

O porta-voz do recado foi o enviado especial para o clima de Biden, John Kerry, que escreveu em seu Twitter uma mensagem marcando Bolsonaro.

John Kerry conversa com jornalistas na Casa Branca, em Washington - Kevin Lamarque - 27.jan.21/Reuters

"O novo compromisso do presidente Jair Bolsonaro de eliminar o desmatamento ilegal é importante. Esperamos ações imediatas e engajamento com as populações indígenas e sociedade civil para que seu anúncio possa gerar resultados tangíveis."

Em carta enviada a Biden na quarta-feira (14), Bolsonaro se comprometeu a acabar com o desmatamento ilegal em território brasileiro até 2030 e ponderou que a meta "exigirá recursos vultosos e políticas públicas abrangentes".

Até agora, integrantes do Departamento de Estado americano e funcionários da Casa Branca comentavam o conteúdo do texto apenas nos bastidores, celebrando a promessa, mas pressionando por resultados ainda neste ano e medidas concretas que mostrassem o caminho para atingir a meta.

Zerar o desmatamento até 2030 foi um compromisso feito pelo Brasil em 2015, no âmbito do Acordo de Paris, mas essa foi a primeira vez que Bolsonaro se comprometeu com o número, em promessa considerada de alto nível diplomático, feita diretamente a Biden.

Bolsonaro é um dos 40 líderes convidados pelo presidente americano para participar da Cúpula do Clima organizada por Washington nos dias 22 e 23 de abril. O presidente brasileiro deve falar na sessão de abertura, ao lado de EUA e China, dedicada aos países que são maiores emissores ou têm credenciais ambientais importantes.

Segundo auxiliares, o presidente brasileiro deve repetir as promessas que fez na carta a Biden, destacando, inclusive, sua disposição em trabalhar com o terceiro setor e indígenas, assim como pediu Kerry nesta sexta.

"Queremos ouvir as entidades do terceiro setor, indígenas, comunidades tradicionais e todos aqueles que estejam dispostos a contribuir para um debate construtivo e realmente comprometido com a solução dos problemas", escreveu Bolsonaro na carta enviada à Casa Branca.

A política ambiental de Bolsonaro é considerada negligente por ambientalistas e coleciona recordes de desmatamento, queimadas e sucateamento de órgãos fiscalizadores. Em seus dois primeiros anos de mandato, o presidente brasileiro acusou governantes estrangeiros de questionarem a soberania brasileira sobre a Amazônia, atacou ONGs e criticou líderes indígenas.

A carta, portanto, foi considerada por autoridades americanas uma mudança de tom, mas a pressão de que é preciso ver resultados para além de promessas continua.

No mesmo dia da declaração de Kerry, senadores democratas enviaram uma carta a Biden pedindo que a Casa Branca só libere fundos ao Brasil para a ajudar na preservação da Amazônia se houver um compromisso sério do governo Bolsonaro com a redução do desmatamento e punição a crimes ambientais.

Como mostrou a Folha, Bolsonaro avalia anunciar, durante a cúpula da semana que vem, aumento da verba para o Ministério do Meio Ambiente, principalmente para as agências como Ibama e ICMBio, na tentativa de fazer essa sinalização de ações concretas que pedem os EUA.

O financiamento para a preservação da Amazônia se tornou um dos grandes pontos de tensão nas negociações entre EUA e Brasil na preparação para a Cúpula do Clima.

Desde o fim do mês passado, Casa Branca e Departamento de Estado pedem um plano ambicioso e real sobre mudanças climáticas por parte do Brasil, mas condicionam qualquer tipo de ajuda financeira a resultados concretos.

O ministro do Meio Ambiente, Ricardo Salles, por sua vez, insiste na ideia de que o Brasil vai se comprometer com números apenas se receber dinheiro antecipado de países estrangeiros, o que desagrada aos americanos.

O ministro chegou a pedir US$ 1 bilhão até 2021 em reunião com autoridades dos EUA para ajudar na preservação da Amazônia e, como revelou a Folha, mostrou uma imagem de um cachorro abanando o rabo em frente de frangos assados para ilustrar o que chamou de "expectativa de pagamento".

Salles avalia que o Brasil também precisa receber recursos de compensação de preservações já feitas, como a redução de 7,8 bilhões de toneladas de carbono de 2006 a 2017.

Na carta a Biden, Bolsonaro escreve que alcançar a meta de zerar o desmatamento ilegal até 2030 "exigirá recursos vultosos e políticas públicas abrangentes", mas auxiliares do presidente brasileiro dizem saber que essa ajuda virá "à medida que concretizarmos compromissos assumidos."

Auxiliares de Bolsonaro viram a mensagem de Kerry com otimismo, desconsiderando as cobranças e focando apenas a primeira parte da declaração do enviado de Biden, que disse que a promessa do Brasil de zerar o desmatamento ilegal até 2030 "é importante".

O embaixador dos EUA no Brasil, Todd Chapman, também ressaltou esse trecho da declaração de Kerry em seu Twitter e disse que o Brasil "é um parceiro-chave nos esforços para preservar o meio ambiente e construir um futuro sustentável".

No domingo (11), porém, a postura de Chapman havia sido mais agressiva. Como revelou a Folha, durante reunião com políticos, diplomatas e empresários brasileiros, o embaixador disse que a cúpula era a última chance de o Brasil mostrar preocupação ambiental para recuperar a confiança dos americanos e ampliar as relações com a Casa Branca.

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