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Morte de príncipe Philip acelera planos de transição na monarquia britânica

Rainha Elizabeth 2ª deve reduzir atividades, enquanto Charles se consolida como patriarca

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Mark Landler
Londres | The New York Times

A rainha Elizabeth 2ª completou 95 anos na semana passada, quatro dias depois de sepultar seu marido, o príncipe Philip, e junto com ele a parceria que conduziu a família real britânica por quase 70 anos.

Agora, enquanto a rainha enfrenta o futuro sozinha, seu filho e herdeiro, o príncipe Charles, está remodelando a família para levar a monarquia adiante depois de Elizabeth. A morte de Philip acrescentou urgência a uma transição que já está em curso na Casa de Windsor. Com o reinado de Elizabeth se aproximando do fim, Charles vem tomando medidas para enxugar a família real e redistribuir seus deveres.

É um processo imposto pela perda de figuras leais e confiáveis como Philip, além da saída rancorosa do príncipe Harry e sua esposa, Meghan, e do exílio interno nada harmonioso do príncipe Andrew.

Da esq. para a dir., a rainha Elizabeth, o príncipe Charles, sua mulher, Camilla, o príncipe William e sua mulher, Kate, em evento em Londres
Da esq. para a dir., a rainha Elizabeth, o príncipe Charles, sua mulher, Camilla, o príncipe William e sua mulher, Kate, em evento em Londres - Phil Harris - mar.20/AFP

O Palácio de Buckingham faz uma avaliação posterior da cerimônia fúnebre de Philip, segundo pessoas informadas sobre o tema, aplicando lições tiradas dela à Operação London Bridge, um plano minucioso traçado há muito tempo de como vão transcorrer os dias e as semanas depois de a rainha morrer.

Ao que consta, Elizabeth está bem de saúde, tendo como única queixa uma rigidez nos joelhos devido à qual tem dificuldade em subir escadas. Observadores reais ressaltam que a mãe dela viveu até os 101 anos. O Palácio de Buckingham está ocupado planejando seu jubileu de platina, uma celebração que terá lugar ao longo de quatro dias em junho de 2022 para marcar os 70 anos desde sua ascensão ao trono.

Mas a imagem comovente da rainha idosa e isolada, chorando a morte de seu marido sozinha na capela de St. George durante o funeral de Philip devido às restrições impostas pelo distanciamento social, transmitiu a muitas pessoas uma impressão de sua fragilidade e vulnerabilidade. E levou pessoas a questionar até que ponto Elizabeth continuará ativa, mesmo depois que a pandemia perder força.

“Basicamente, o que vai acontecer é que a rainha vai sair de cena pouco a pouco, com dignidade”, disse Peter Hunt, ex-correspondente da BBC que cobria a família real. “A Covid ajudou de certa forma, na medida em que acelerou o que qualquer senhora sensata de 95 anos prefere fazer: não passar o dia todo em pé.”

Como sempre é o caso com a família real, os detalhes sobre suas deliberações internas são difíceis de apurar e envoltos em especulação. Rumores de que Charles e William promoveriam uma reunião de cúpula para discutir a transição são descartados por pessoas que têm vínculos com o palácio.

Hunt destacou que a família real raramente difunde esses momentos, levando pessoas de fora a tentar interpretar sinais e indícios. Mas algumas coisas já parecem estar claras. Embora a rainha tenha voltado ao trabalho desde a morte de Philip, ela nunca vai voltar à programação agitada de reuniões, recepções e festas sociais que cumpriu durante décadas. Segundo pessoas informadas, ela pode voltar ao Palácio de Buckingham apenas dois dias por semana para participar de reuniões, preferindo ficar mais tempo no castelo de Windsor, onde ela e Philip fizeram quarentena durante a pandemia.

Nos últimos 12 meses a rainha conduziu muitas reuniões por videoconferência, demonstrando um humor espirituoso em alguns desses encontros virtuais. Como outras pessoas que trabalham de casa, ela se adaptou ao novo ambiente, disse uma pessoa com vínculos com o palácio, e não pretende necessariamente voltar a trabalhar em seu gabinete apenas porque ele está reabrindo as portas.

Como príncipe de Gales, Charles já assumiu algumas das responsabilidades de sua mãe, incluindo viagens ao exterior e cerimônias de investidura, nas quais o título de “sir” é outorgado a pessoas selecionadas.

Charles acompanha Elizabeth às aberturas da sessão anual do Parlamento; a próxima está prevista para maio. E ele falou publicamente após o furor provocado pelos vínculos de seu irmão Andrew com o empresário Jeffrey Epstein, fazendo pressão para que Andrew fosse proibido de cumprir deveres públicos.

O maior desafio para Charles é conciliar a carga de trabalho da família real com suas fileiras reduzidas. Não é de hoje que ele defende uma monarquia enxuta, centrada nele e sua mulher, Camilla; no príncipe William e a esposa dele, Kate, e em Harry e sua mulher, Meghan. A princesa Anne, irmã mais nova de Charles, também é membro em tempo integral da família real.

Mas a decisão de Harry e Meghan de se afastar dos deveres reais e se mudar para a Califórnia detonou esses planos. Não houve sinal de qualquer mudança de posição por parte de Harry, nem sequer de muita esperança de uma reconciliação entre ele e William quando Harry assistiu ao funeral do avô. Os irmãos conversaram rapidamente na saída da cerimônia, mas Harry embarcou de volta aos EUA antes do aniversário da rainha.

Também há poucas perspectivas de Andrew algum dia voltar a cumprir funções reais. Em vez disso, o palácio se prepara para encarar mais revelações constrangedoras em julho, quando Ghislaine Maxwell, amiga de Andrew, for a julgamento em Nova York, acusada de ter traficado meninas menores de idade em benefício de seu empregador, Epstein. Andrew foi acusado de erro de conduta sexual por uma das vítimas do empresário. Ele nega a acusação.

“Não veremos pessoas disputando espaço no balcão do Palácio de Buckingham”, disse Andrew Morton, cronista da família real cujo livro mais recente, “Elizabeth & Margaret”, trata do relacionamento entre a rainha e sua irmã. “Haverá apenas um punhado de pessoas.”

Membros da família real participam de mais de 2.000 eventos oficiais por ano, muitos dos quais envolvem entidades beneficentes. Cerca de 3.000 organizações filantrópicas identificam um membro da família real como seu patrono ou presidente, segundo o palácio. Membros da família real também participam de dezenas de cerimônias militares e diplomáticas todos os anos.

Com tantos eventos e menos membros da família trabalhando, disse Andrew Morton à Associação de Imprensa Estrangeira, a família será obrigada a ser seletiva. Em vista de seu compromisso com as Forças Armadas, fato evidenciado pela participação de militares no funeral de Philip, e de suas responsabilidades diplomáticas, Morton previu que a família vai reduzir seu trabalho com entidades filantrópicas.

Mas isso pode criar um conjunto diferente de problemas. Especialistas dizem que a família real britânica de hoje se definiu e justificou o apoio que recebe dos contribuintes em grande parte por suas obras públicas. Philip, o duque de Edimburgo, manteve vínculos com centenas de entidades beneficentes até se aposentar de seus deveres oficiais, aos 96 anos de idade.

“A mudança fundamental ocorrida na monarquia no século 20 foi o surgimento da monarquia de bem-estar social. Sem esse ingrediente a monarquia não sobreviveria”, disse Vernon Bogdanor, professor no King’s College Londres que já escreveu sobre o papel da monarquia no sistema constitucional britânico.

Para pessoas que têm laços com o palácio, a solução imediata para o problema da carga de trabalho excessivo consiste em elevar outro casal real, o príncipe Edward e sua esposa, Sophie, também conhecidos como o conde e a condessa de Wessex.

Edward, 57, é o filho mais jovem da rainha. Ele e sua esposa emergiram como figuras destacadas após a morte de Philip, falando publicamente sobre o legado deste e de como a família está lidando com o luto.

De acordo com observadores da família real, Charles viu sua estatura crescer com o funeral. Algumas pessoas apontaram para a dignidade com que ele se conduziu à frente da procissão que seguiu o caixão de Philip. Outros chamaram a atenção para a naturalidade com que ele manifestou sua dor.

Aos 72 anos, disseram, Charles finalmente emergiu da sombra comprida de seu pai, com quem tivera um relacionamento complicado, para tornar-se o patriarca da família. “Charles está parecendo muito mais autoconfiante, mais feliz na própria pele”, comentou a historiadora real Penny Junor. “Ele agora é o patriarca da família. Isso significa que ele tem novos papéis e responsabilidades.”

Mas Charles também precisa levar em conta seu filho mais velho, William, 38, que deve sucedê-lo como rei. Observadores reais disseram que William tem opiniões próprias definidas sobre a estrutura da família e como seus deveres devem ser distribuídos.

E, afirmaram, William e seu pai têm visões divergentes sobre como fazer filantropia. Enquanto Charles formou um portfólio grande de causas beneficentes que apóia, William prefere dedicar seu tempo a algumas poucas causas que o favorecem. Como presidente da Football Association, na semana passada ele se manifestou contra um plano impopular de criar uma superliga de elite do futebol, que teria atraído vários dos maiores clubes britânicos.

“Há uma diferença entre o modo como Charles visualiza as coisas e como William as vê”, comentou Valentine Low, correspondente real do Times. Mas, acrescentou, “Charles reconhece e até vê com bons olhos a participação de William nessas discussões."

Tradução de Clara Allain

Erramos: o texto foi alterado

Por erro de tradução, a princesa Anne foi incorretamente identificada como irmã mais nova da rainha Elizabeth. Ela é, na verdade, irmã mais nova do príncipe Charles.

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