Descrição de chapéu Portugal

Português brasileiro rende nota menor e discriminação em escolas e universidades de Portugal

Pesquisa mostra resultados piores de estudantes do Brasil e de alguns países africanos

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Lisboa

Apesar de diferentes sotaques e variações regionais, Portugal e Brasil têm o mesmo idioma oficial. Na prática, no entanto, escolas e universidades portuguesas apontam as diferenças, e alunos e responsáveis relatam episódios de notas mais baixas e de discriminação devido ao português brasileiro.

Com a filha em aulas online devido à pandemia, a psicóloga goiana Adriana Campos presenciou um diálogo entre a jovem e a professora de português. Na conversa, a estudante questionava o motivo de ter tirado uma nota menor do que a colega portuguesa com quem fizera um trabalho em dupla.

“A professora falou que o trabalho estava excelente, elogiou a criatividade das duas, mas disse para a minha filha: 'Só que você, infelizmente, ainda fala esse português inapropriado, esse português brasileiro. E você precisa aprender a falar direito'. Eu não conseguia acreditar”, afirmou.

Guias turísticos na Praça do Comércio em Lisboa
Guias turísticos na Praça do Comércio em Lisboa - Rafael Marchante - 13.jul.2020/Reuters

Segundo ela, a mesma professora já havia protagonizado, meses antes, um outro episódio de discriminação linguística com a adolescente, quando ridicularizou seu sotaque. “A professora estava fazendo algumas perguntas para os alunos. Quando chegou a vez da minha filha, ela disse que a dicção dela estava muito ruim, que ela não sabia falar bem. Mas o problema não era a dicção, era o sotaque. A professora mandou a minha filha colocar um lápis na boca para treinar e ‘aprender a falar melhor’.”

Segundo Adriana, a jovem de 17 anos ficou constrangida e disse que faria o exercício em casa, mas a professora insistiu. “A professora ainda fez graça, colocou um lápis na própria boca para debochar. A minha filha foi ficando tão envergonhada que saiu da sala chorando”, completa.

Aluna de doutorado em psicologia na Universidade de Coimbra, Adriana diz ter procurado a escola nas duas ocasiões, mas que a professora se limitou a justificar seu comportamento com base em alegadas orientações do Ministério da Educação, sem especificar detalhes.

Em busca de orientações, Adriana relatou o caso em um grupo de apoio a mulheres brasileiras em Portugal. Ela diz que a quantidade de relatos de imigrantes que passaram pela mesma situação foi uma surpresa —são pelo menos 20 depoimentos públicos até agora.

“Fiquei espantada com a quantidade de mães que entraram nos comentários, falando que isso aconteceu com o filho delas também. Ou seja, não é um fato isolado”, avalia.

A mineira Ana Abrantes conta que o filho, de sete anos de idade, foi tão repreendido pelo sotaque que desenvolveu pânico de ir à escola. “Meu filho sempre foi um menino alegre, que gostava de ir à escola. Agora, chora antes de sair. Ele tem um coleguinha de turma que também veio do Brasil há pouco tempo, mas já assimilou o sotaque português. Há nitidamente um tratamento diferente para os dois”, relata.

Ironicamente, o sucesso de youtubers brasileiros entre crianças e adolescentes portugueses fez com que algumas gírias, expressões e até um pouco do sotaque do Brasil acabassem pegando entre os jovens lusitanos. Mas o fenômeno, que é confirmado por educadores, não parece ter sido suficiente para mudar o tratamento de inferiorização do português do Brasil relatado em algumas escolas.

Há entre algumas famílias, inclusive, o temor de que o uso do português brasileiro possa diminuir as notas dos alunos portugueses.

Embora o tema do preconceito linguístico seja tema de conversas recorrentes entre brasileiros no país, incluindo em associações de direitos dos imigrantes e relatos nas redes sociais, não há registro de queixas oficiais. Segundo a Inspeção-Geral de Educação e Ciência, o órgão não recebeu nenhuma denúncia do tipo. Responsáveis e alunos frequentemente se queixam de que é difícil dar seguimento às reclamações feitas às escolas. Como estrangeiros, muitos dizem não saber a quem recorrer.

A recomendação do ministério é apresentar a reclamação na própria instituição de ensino ou procurar diretamente a pasta. Em nota, o secretário de Estado da Educação de Portugal, João Costa, criticou a existência de qualquer segregação ou discriminação por diferenças no uso do idioma.

Segundo ele, os documentos orientadores para o ensino da língua portuguesa “preveem o domínio do português europeu padrão, integrando também a consciência da diversidade de registros e de características das variantes faladas pelo mundo”.

“Estou secretário de Estado, mas sou linguista. Não posso deixar de comentar que uma imposição dessas [avaliações mais baixas devido ao português do Brasil] não passa de preconceito linguístico, que denota uma grande falta de conhecimento sobre a própria língua. As diferenças entre variantes dialetais também são grandes dentro de Portugal. O português é uma língua pluricêntrica, e isso não pode ser ignorado na planificação do seu ensino”, afirma.

O secretário também ressaltou que Portugal tem um longo histórico de políticas de acolhimento, inclusive com uma disciplina obrigatória que trabalha o domínio da interculturalidade e dos direitos humanos. “Nossa rede de bibliotecas escolares e o Plano Nacional de Leitura têm promovido a leitura de autores de todos os países de língua portuguesa e a leitura em voz alta em vários sotaques.”

Pelos dados mais recentes da Direção-Geral de Estatísticas da Educação e Ciência, referentes ao período letivo de 2018 e 2019, Portugal tinha 129.534 estudantes estrangeiros (incluindo ensino básico, secundário e superior), dos quais 47.682 (36,8%) são brasileiros.

Embora já componham uma comunidade expressiva, os brasileiros estão sub-representados. Não entram nessa soma aqueles que têm dupla-cidadania portuguesa ou de outro país da União Europeia.

A integração de alunos imigrantes representa desafios para todos os países europeus, e Portugal não é exceção. Uma diferença do cenário português, no entanto, é que a língua portuguesa não parece ser um elemento facilitador para os estrangeiros lusófonos em geral.

Levantamento publicado em abril analisou o desempenho dos estudantes estrangeiros nas escolas do país, a partir das estatísticas oficiais dos alunos do 3º ciclo em 2016-2017. Em um universo de 404 escolas analisadas, mais de um terço segregava os estudantes migrantes em turmas com muito mais alunos estrangeiros.

Enquanto praticamente não havia diferença de desempenho entre portugueses e alunos vindos da União Europeia, os que vêm do Leste europeu tinham resultados levemente inferiores. Já estudantes do Brasil e dos Palop (Países Africanos de Língua Oficial Portuguesa) tinham notas bem mais baixas. Brasileiros e africanos também foram mais reprovados ao longo do percurso acadêmico.

Na avaliação de Luís Catela Nunes, professor da Nova School of Business and Economics e um dos coordenadores do trabalho, a segregação está muito ligada ao costume de criar turmas de alunos repetentes ou de estudantes com dificuldades de aprendizado. Essas classes mais “problemáticas”, com o tempo, acabam ficando para trás.

O pesquisador chama a atenção para o fato de a UE e o Leste europeu terem, em muitos casos, uma educação de base mais forte. Enquanto isso, o Brasil apresenta desempenho bastante inferior em avaliações internacionais, como o Pisa.

“A minha opinião é que não é discriminação, é que a segregação vem mais do fato de eles [imigrantes] já virem com más notas do passado. Qual a conclusão? As escolas precisam ter mais atenção, muito cedo, à diferença de desempenho dos alunos”, diz.

UNIVERSIDADES

As queixas não se restringem às escolas. Estudantes universitários também reclamam de notas mais baixas e discriminação devido ao idioma.

Aluna de licenciatura em línguas e relações internacionais, Carime Costa, 23, conta que se mudou para Portugal em 2018 com o objetivo de concluir a faculdade e continuar a morar no país.

“No primeiro ano, eu tive duas disciplinas de português e, nas provas, alguns professores diziam que, se nós não escrevêssemos em português europeu, seríamos descontados. E foi isso o que aconteceu. Muitos de nós tivemos de entrar com recursos para não sermos reprovados.” A jovem diz que a falta de acolhimento da universidade portuguesa e a discriminação de alguns professores a fizeram abandonar o país. No começo do ano, voltou para São Paulo e vai concluir o curso a distância.

Associações de estudantes internacionais no país apontam que há muitas queixas similares.

Para driblar a discriminação com o idioma, há brasileiros, por exemplo, que preferem entregar os trabalhos em inglês. Isso é possível porque, devido ao programa do Erasmus, que promove a mobilidade acadêmica entre diferentes países europeus, é comum que as universidades portuguesas aceitem que alunos apresentem trabalhos escritos em inglês.

Para a linguista e lexicógrafa brasileira Débora Ribeiro, que vive em Portugal desde 2008, as universidades portuguesas ainda têm bastante preconceito linguístico, mesmo com os professores de português do Brasil. “Você não espera que isso vá acontecer em um ambiente acadêmico, em uma faculdade de Letras, entre professores de português. Você espera isso de uma pessoa ignorante na rua. Só que, infelizmente, ainda acontece muito”, lamenta.

Ela critica ainda o fato de os europeus dizerem que no Brasil se fala outra língua —o brasileiro. A professora avalia que, embora haja algumas pequenas diferenças estruturais e ortográficas entre o português dos dois países, dizer que são idiomas separados não faz o menor sentido.

“Língua é uma questão de identificação. Quando eles nos colocam falando brasileiro, eles deixam claro que nós não falamos a mesma língua deles. É uma tentativa de inferiorização.”

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