Escolas de samba amargam baixo interesse de patrocinadores no Rio

Agremiações do grupo especial só conseguem 2,6% do valor autorizado para captação pela Lei de Incentivo à Cultura

Michel Alecrim
Rio de Janeiro

Além de amargarem o fim da subvenção da prefeitura, as escolas de samba do Grupo Especial do Rio de Janeiro enfrentam outro desafio para fechar a conta do desfile: o baixo interesse das empresas em patrocinarem suas apresentações.

Dos R$ 20,6 milhões autorizados para captação de recursos via Lei de Incentivo à Cultura, só R$ 536 mil (2,6%) foram angariados.

O governo do Estado do Rio informou que intermediou um acordo entre a Refit (refinaria de petróleo privada de Manguinhos, Zona Norte do Rio) e a Liga Independente das Escolas de Samba (Liesa). 

O patrocínio, que teria sido costurado pela Subsecretaria de Grandes Eventos, somaria R$ 20,5 milhões. Cada agremiação ficaria com R$ 1,5 milhão.

A ideia seria fazer uma transferência direta às escolas, sem inclusão nas leis de Incentivo à cultura.  Entretanto, tanto a Liga quanto a empresa não confirmaram a informação.

Das sete agremiações que conseguiram autorização da Secretaria Especial de Cultura para a captação de patrocínio, apenas a Grande Rio, de Duque de Caxias, conseguiu dispor de verba junto à iniciativa privada.

A escola tenta seu primeiro campeonato com o enredo "Tata Londirá: O Canto do Caboclo no Quilombo de Caxias", que homenageia o pai de santo Joãozinho da Gomeia.

A Grande Rio informou que o recurso ameniza o corte da prefeitura, mas não soluciona o problema. A subvenção municipal já chegou a ser de R$ 2 milhões por escola, e estava no ano passado em R$ 500 mil. 

“Esse recurso ajuda a diminuir o prejuízo, mas não soluciona o problema, já que não é a primeira vez que captamos. Estamos na mesma situação das demais agremiações que sofreram com o corte”, informou a escola de Caxias, em nota.

Apesar de enfrentarem os mesmos problemas financeiros, a maioria das escolas prefere não comentar o tema. Salgueiro, Vila Isabel e Viradouro confirmaram a aprovação do projeto de captação sem a esperada adesão das empresas, mas não quiseram se pronunciar.

Elas tinham autorização para receber por meio de renúncia fiscal, respectivamente R$ 988.257,60, R$ 4.992.530,50 e R$ 1.717.720.

O coordenador do mestrado de Economia Criativa da ESPM-RIO, João Figueiredo, aponta várias razões para o fracasso das escolas na captação.

Segundo ele, questões políticas influenciam fortemente a decisão das empresas, que estão se afastando dos temas polêmicos do Carnaval e temeriam dificuldades no relacionamento com o poder público ao apoiarem uma festa que vem sendo atacada por governantes. 

A falta de um modelo de exibição de marca mais atraente também dificultaria a adesão. “O patrocínio às escolas já funcionou bem quando fechavam antes o enredo, mas hoje em dia eles estão cada vez mais politizados”, afirma o professor.

Ao contrário dos blocos de rua, as escolas não podem exibir marcas em seus desfiles, principalmente em fantasias e carros alegóricos. A concorrência por patrocínio, assim, tem sido cruel para as agremiações. 

Segundo a professora da Fundação Getúlio Vargas (FGV) Silvia Finguerut, especialista em projetos culturais, o Carnaval do Sambódromo, por outro lado, já é alvo de ações de marketing de grandes empresas que preferem exibir suas marcas nos anúncios da televisão. 

Segundo ela, os ensaios e outras atividades ao longo do ano poderiam ser incorporados aos projetos, mas não dariam a mesma visibilidade para os patrocinadores. 

“Uma alternativa seria um patrocínio conjunto para o desfile, que poderia ser apresentado pela Liga e dividido entre as agremiações. Mesmo assim, estaria limitado ao teto da lei”.

Atualmente, o teto de captação está em R$ 10 milhões. O carnavalesco Mauro Quintaes, que trabalha para a paulistana Dragões da Real, conta que ao longo de décadas de desfile no Rio atuou em diversos enredos patrocinados, em que tinha a preocupação de evitar um uso muito ostensivo do aspecto comercial.

“O carnaval tem um potencial muito grande de visibilidade, mas acho que houve uma perda de credibilidade. Acredito que ele deveria ser visto como outros espetáculos, como o balé, a ópera ou um show”, afirmou o carnavalesco.

Questões envolvendo a transparência das contas das escolas também podem estar afastando as empresas do patrocínio aos desfiles. Figueiredo ressalta que com a criação de departamentos de compliance (regras contra a corrupção), fica mais difícil aprovação de projetos para entidades que tradicionalmente flertaram com a contravenção do jogo do bicho.

Pendências na prestação de contas de patrocínios passados também emperram a entrada de verba nas escolas. União da Ilha, que teve problemas com a prestação de contas do carnaval de 2014, nem apresentou proposta. Procurada pela reportagem, a escola não se manifestou.

Portela também ficou de fora. Seu diretor comercial, Bruno Tenório, explica que há um desgaste político do modelo de financiamento via Lei de Incentivo, segundo ele, devido à desinformação e à radicalização ideológica presente nas redes sociais.

“A Portela contornou com uma série de ações feitas que dão visibilidade à marca das empresas, sem ferir as regras do desfile. O carnaval gera emprego e alimenta uma extensa cadeia produtiva, que normalmente não é vista. Temos que superar os preconceitos.”

A Mangueira também levou nota baixa no quesito prestação de contas pelo desfile de 2009 e sua assessoria informou que não comentaria o processo de uma gestão anterior “por não ter acesso às contas”. 

A escola confirmou que não conseguiu captar recursos, mesmo com a aprovação de R$ 2.479.867,75 para o seu desfile, através do Instituto Mangueira Esperança.

A Mocidade foi outra agremiação que procurou financiar seu carnaval usando outro CNPJ. O projeto, no valor de R$ 5.646.700,81, foi autorizado em nome da Galeria da Velha Guarda.

Não consta no sistema de consulta pública da Secretaria Especial de Cultura qualquer captação até momento para a escola da Zona Oeste do Rio. Procurada, a agremiação não respondeu os questionamentos da reportagem.

Em nota, a Riotur afirmou que a decisão da prefeitura é pelo não-repasse de verba para um evento em que há cobrança de ingressos. A empresa municipal informou que este ano está destinando R$ 3 milhões para o desfile da estrada Intendente Magalhães, na zona oeste.

“Ainda quanto aos repasses para as escolas da Liga Independente das Escolas de Samba, a Liesa, pode-se observar uma redução gradativa de 2017 a 2019. Em 2017, o repasse municipal foi de R$ 2 milhões para cada escola; em 2018, R$ 1 milhão para cada escola; em 2019, R$ 500 mil para cada escola”, diz a nota.

“É importante lembrar que a Prefeitura do Rio, com apoio do governo federal, por meio do Ministério do Turismo, fez obra com investimento de R$ 8,1 milhões. Desde a sua inauguração essa foi a maior e mais importante obra no local onde acontece os desfiles das escolas de samba da série A, Especial e Mirim, que ocorrem de sexta a terça-feira (21 a 25/2) e no sábado, dia 29, recebe o desfile das escolas Campeãs do Carnaval Carioca”, informou a a Riotur, referindo-se a investimentos no sambódromo.

O Ministério da Cidadania, que comanda a Secretaria Especial de Cultura, não respondeu os questionamentos da reportagem.

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