A desinformação online e a polarização política estão infectando o debate democrático em todo o mundo. No Brasil, a intensidade da polarização pode vir a atrapalhar a busca por soluções para o fenômeno das notícias falsas.

Na semana passada, o Facebook lançou no país sua ferramenta de verificação de notícias. Seus parceiros —Agência Lupa e Aos Fatos— têm acesso a uma plataforma onde são agregados links duvidosos indicados pelos usuários e pela rede social. Para cada verificação feita, é preciso que os checadores ofereçam uma reportagem com evidências públicas sobre suas conclusões.

Mas esse anúncio positivo foi recebido com intensas críticas. Ataques pessoais têm sido feitos contra os checadores e seus familiares. Um dos cofundadores de Aos Fatos foi criticado por apoiar publicamente a igualdade racial. Outros checadores que mantêm perfis fechados nas redes sociais foram acusados de estarem escondendo algo grave.

Tenho acompanhado esses ataques com preocupação. Minha organização, a IFCN (International Fact-Checking Network), tem um processo de auditoria longo e cuidadoso. Ele é feito por especialistas de vários países e, anualmente, analisa 12 critérios de cada um dos veículos que integram a rede.

Entre os critérios estão transparência de financiamento, metodologia e fontes. Lupa e Aos Fatos já passaram por esse processo duas vezes. O resultado é público e está disponível em nosso site.

Não é surpreendente que algumas das ofensas também demandem checagem. Um dos tuiteiros raivosos (com 20 mil seguidores e identidade oculta) descobriu que uma das minhas colegas usa a hashtag #LeftyLivesMatter. Achou que se tratava de um posicionamento político e a classificou como uma "ativista política de esquerda escancarada". Ela é apenas canhota.

Muitos críticos acusam os checadores de censores. Mas estes apenas avaliam o conteúdo dos posts e apontam o que é falso. É o Facebook que depois reduz o alcance desse material. Nada é removido em função do trabalho do checador.

Ironicamente, aqueles vídeos e textos que falam em censura do Facebook e dos checadores também são feitos... no Facebook! Seria o mesmo que usar este artigo para acusar a Folha de silenciar minha voz.

Os cidadãos estão certos ao vigiarem o direito à liberdade de expressão e o poder do Facebook. É por isso que tenho pedido publicamente que a empresa compartilhe dados sobre os resultados desse projeto em nível mundial. Todos os membros da IFCN entendem que seu material precisa ser alvo de escrutínio tão rigoroso como o que usam para analisar o discurso público.

É por isso que ambos, Aos Fatos e Lupa, têm políticas públicas de correção. Se cometerem algum erro dentro do projeto do Facebook, poderão ser acionados. A ferramenta prevê isso. Aos Fatos e Agência Lupa são iniciativas de fact-checking responsáveis e idôneas. Desde 2015, analisam o que é dito por todos os lados do espectro político brasileiro.

Esses ataques têm mais como alvo a iniciativa de checar fatos do que efetivamente o resultado desse trabalho. Um dos grupos que agora acusam os checadores de serem de esquerda atacou outra plataforma, o Truco, da Agência Pública, em 2017.

Após serem questionados a respeito da fonte de uma informação publicada em suas páginas, seus integrantes enviaram a foto de um pênis e um pedido para que a reportagem checasse a sua veracidade.

Uma campanha organizada para tirar a credibilidade desse trabalho é equivocada e diminui a capacidade da sociedade de distinguir as verdades das mentiras. Isso tem bem menos a ver com os checadores em si. Tem a ver com os fatos. E os fatos importam —e nós precisamos defendê-los.

Alexios Mantzarlis

Jornalista e diretor da IFCN (International Fact-Checking Network) desde 2015

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