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Sérgio Silva: Palavras que valem um tiro

Bala de borracha cegou meu olho esquerdo há 5 anos

O fotógrafo Sérgio Silva, que ficou cego após ser atingido por bala de borracha durante os protestos de junho de 2013, posa para foto em 2014
O fotógrafo Sérgio Silva, que ficou cego após ser atingido por bala de borracha durante os protestos de junho de 2013, posa para foto em 2014 - 24.jan.14 - Arquivo pessoal

Há exatos cinco anos, esta Folha amanheceu com o editorial "Retomar a Paulista", em que pintou os manifestantes que pediam redução da tarifa de ônibus, trem e metrô em São Paulo como vândalos, e decretou: "É hora de pôr um ponto final nisso".

O Estado de S. Paulo expressou opinião semelhante com o texto "Chegou a hora do basta", em que pedia: "Espera-se que [...] a PM aja com o máximo rigor para conter a fúria dos manifestantes, antes que ela tome conta da cidade".

O apoio explícito da grande mídia legitimaria a brutalidade da PM algumas horas depois.

Como resultado, centenas de pessoas —manifestantes, transeuntes e jornalistas— foram feridas e presas. Eu tomei um tiro de bala de borracha no olho esquerdo.

Meu nome é Sérgio Silva. Tenho 37 anos. Nasci e cresci na periferia de São Paulo. Desde 2011, sou fotógrafo profissional. Sou, não deixei de ser, mesmo depois de ter perdido um dos órgãos que me permitiam enxergar perfeitamente.

Minha mutilação não se deve a uma mera fatalidade. Fui atingido por uma das 506 balas de borracha que a PM reconhece haver disparado naquela noite.

Era uma manifestação contundente, porém pacífica, como reconheceu o coronel Ben Hur Junqueira Neto segundos antes de seus comandados lançarem a primeira bomba. O que se assistiu depois está muito bem documentado.

As imagens que produzi naquela noite —as últimas fotos que tirei quando ainda tinha dois olhos— demonstram que eu estava me protegendo do ataque policial. Ainda assim, um soldado que atirava na cabeça das pessoas conseguiu explodir minha visão.

Diferentemente do que ocorreu com outras vítimas da PM naquele e em outros protestos, não existem imagens minhas logo após ter sido alvejado. Tampouco pensei em fazer um autorretrato na rua, enquanto meu olho sangrava e eu sentia uma dor indizível. Ainda assim, há indícios de sobra para apontar a responsabilidade da PM. 

Apesar disso, a Justiça negou em primeira e segunda instâncias meu pedido de indenização. Em 2016, o juiz Olavo Zampol Júnior escreveu que a culpa foi minha, só minha, já que me coloquei voluntariamente na "linha de tiro".

Em 2017, os desembargadores Rebouças de Carvalho, Décio Notarangeli e Oswaldo Palu reconheceram minha mutilação, mas disseram que não há nenhum indício de que foi uma bala de borracha disparada pela PM que me cegou: pode ter sido qualquer coisa, qualquer pessoa, alegaram.

Eu repito: não existe nenhuma possibilidade de eu ter sido atingido por nada além de uma bala de borracha, nem por ninguém que não fosse um policial militar. Basta querer ver.

A Justiça não é cega. O juiz e os desembargadores estavam com os olhos bem abertos quando julgaram meu caso. Usaram a anacrônica presença de black blocs, tão demonizados ao longo de 2013 e 2014, mas não em junho, para justificar a truculência policial; e citaram como exemplo de civilidade as manifestações verde-amarelas, realizadas aos domingos de 2015 e 2016, com cobertura ao vivo na Globo.

Sou um profissional de imprensa. Estava cobrindo o protesto de 13 de junho de 2013 como freelancer para a agência Futura Press.

Perdi um olho em um ato absurdo de violência, que continua se manifestando em minha vida, agora em papel timbrado. Tive uma série de direitos violados. E não posso querer nada além de justiça.

Sérgio Silva

Fotógrafo, cinegrafista, autor do ensaio "Piratas Urbanos" e coautor dos livros "Sangria" (2017), com Luiza Romão, e "Memória Ocular: Cenas de um Estado que Cega" (2018), com Tadeu Breda

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