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Conforto em dólar

Pelo lado das contas externas, país parece se diferenciar de emergentes em situação crítica

Dívida externa pública e privada é inferior ao volume de reservas em moeda forte acumuladas pelo Banco Central
Dívida externa pública e privada é inferior ao volume de reservas em moeda forte acumuladas pelo Banco Central - Gabriel Cabral/Folhapress

Há um contraste notável entre a situação econômica doméstica, desanimadora, e os resultados confortáveis das transações do Brasil com o restante do mundo. Os indicadores podem motivar tanto um tímido otimismo como um alerta.

A atividade produtiva permanece praticamente estagnada em nível muito baixo, e o endividamento do governo avança sem limite. Já pelo lado das contas externas, o país parece se diferenciar de emergentes em situação crítica, como a Argentina e a Turquia.

Desde o fim da primeira década deste século, observou-se uma mudança estrutural nessa seara.

A dívida externa pública e privada, na casa dos US$ 300 bilhões, é inferior ao volume de reservas em moeda forte acumuladas pelo Banco Central (cerca de US$ 380 bilhões). Com isso, a economia brasileira fica razoavelmente protegida das oscilações nos movimentos internacionais de capital.

Ainda assim, poderia ter havido deterioração recente nesse quadro em geral benigno. Afinal, vivemos situação política incerta, as finanças públicas estão arruinadas e a economia não cresce. De resto, o cenário global provoca tensões em razão da alta dos juros nos Estados Unidos, que dificulta o acesso a financiamentos em dólar.

No entanto a situação parece sob controle. Mesmo a alta das cotações da moeda americana, significativa, é menor do que a verificada no turbulento ano eleitoral de 2002 —o da primeira eleição de Luiz Inácio Lula da Silva (PT).

Não há fuga de capitais. Ao contrário, o influxo se mostra positivo, ainda que longe da bonança dos anos anteriores à recessão. A taxa de rolagem da dívida externa continua em níveis confortáveis.

O investimento estrangeiro, na forma de novos negócios ou empréstimos entre filial e matriz, segue em patamares elevados —superiores ao do historicamente baixo déficit em transações correntes (a diferença entre exportação e importação de bens e serviços).

Os dados passam a impressão de que os não residentes desconfiam menos da economia do que os brasileiros desanimados por cinco anos de crise. Ou, também, de que o país tem um potencial que não foi esgotado mesmo neste desarranjo de raridade secular.

É certo, porém, que esse ambiente pode se alterar em questão de meses, na hipótese de descrédito definitivo na recuperação das contas públicas. Nesse caso, corre-se o risco de uma desvalorização da moeda capaz de afetar os balanços das empresas, a inflação e os juros.

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