Descrição de chapéu O que a Folha Pensa

Terra do berimbau

Cultura e esporte são fundamentais para a formação da juventude, têm expressiva presença na economia e desempenham papel relevante no que resta do soft power do país no exterior

De todas as fusões ministeriais encaminhadas pela equipe do presidente eleito, Jair Bolsonaro (PSL), a mais esdrúxula parece ser a que resultou na pasta da Cidadania.

Enquanto o superministério econômico, por exemplo, abriga em seu guarda-chuva áreas com afinidades mais claras entre si, reuniram-se na Cidadania atividades tão díspares quanto o programa Bolsa Família, a política sobre drogas, o esporte e a cultura.

O maestro escolhido para tentar harmonizar as dissonâncias é o conservador Osmar Terra, médico e deputado pelo MDB gaúcho, que comandou o Desenvolvimento Social e Agrário na gestão do também emedebista Michel Temer.

O futuro ministro da Cidadania, Osmar Terra (MDB)
O futuro ministro da Cidadania, Osmar Terra (MDB) - Sergio Lima/AFP

Notabilizou-se por ser, no tocante às drogas, um proibicionista radical, adversário ferrenho de políticas de redução de danos e da descriminalização do consumo. Embora admita que a estratégia repressiva tenha dado parcos resultados até aqui, insiste que essa é a linha de ação mais adequada. 

Em entrevista à Rádio Guaíba, de seu estado de origem, Terra reconheceu as dificuldades que terá pela frente e declarou, numa simplória tentativa de mostrar conexão entre os diversos setores de sua pasta, que pretende “avançar no combate às drogas, usando muita cultura e esportes”.

Embora não seja imprescindível que áreas como essas contem com ministérios exclusivos, seria um equívoco tratá-las como desimportantes, deixando-as à margem das preocupações governamentais.

Cultura e esporte são fundamentais para a formação da juventude, têm expressiva presença na economia e —não é demais lembrar— desempenham papel relevante no que resta do “soft power” do país no exterior, tão maltratado nos últimos anos.

No que tange, em particular, à cultura, a decisão de acomodar a pasta no saco de gatos da Cidadania, sob a supervisão de um ministro estranho ao meio, tem potencial de gerar reações e focos de atritos para o novo governo.

Terra já declarou que em matéria cultural limita-se a tocar berimbau. Caso seja fato, estamos diante de uma proeza elogiável, dadas as peculiaridades do instrumento de origem africana. Se apenas uma tirada jocosa, é de lamentar.

Em qualquer hipótese, melhor levar a sério uma atividade que responde, segundo cálculos governamentais, por 4% da renda nacional e é caudatária de tradição secular.

Que Terra tenha a sabedoria de nomear um executivo afeito ao setor que consiga dedicar-se a outros assuntos —e possa, quem sabe, tocar em paz seu berimbau.

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