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Roberto Dumas

Feliz 2020?

China, Rússia e terrorismo ganham impulso com ações dos EUA no Oriente Médio

Roberto Dumas

Que início de ano! Parece que 2020 será de enormes tensões vindas lá do Oriente Médio e dos Estados Unidos. Após os EUA matarem Qassem Soleimani, comandante da Guarda Revolucionária do Irã, os iranianos, como esperado, prontamente responderam ao assassinato do seu líder mais influente.

Já na segunda-feira (6) o Irã lançou mais de dez mísseis e foguetes contra duas bases norte-americanas no Iraque. Além da retaliação clara e direta, tanto as milícias iraquianas xiitas quanto os iranianos não desejam mais a presença de militares norte-americanos no Iraque.

O professor Roberto Dumas, especialista em economia internacional e chinesa - Reinaldo Canato - 11.mai.18/Folhapress

Perigo enorme, pois desde a ocupação do Iraque pelos Estados Unidos e a deposição do líder Saddam Hussein, as tropas norte-americanas são as principais asseguradoras do não ressurgimento do Estado Islâmico no país. Este último, nascido do vácuo de poder deixado pelo fim do governo de Hussein e da fraqueza da existente coalizão parlamentar iraquiana.

Como deverão os EUA responder a esses ataques? Depende. Donald Trump já declarou que “está tudo bem”. Isso porque parece não ter ocorrido casualidades fatais pelo lado dos norte-americanos, o que certamente pautaria Trump a responder a esse ataque e à sua intensidade. Aliás, o Irã já mencionou que poderia terceirizar as ofensivas recrutando o braço armado do Hezbollah para lançar ataques contra Dubai e a cidade de Haifa, em Israel.

Se essa linha estabelecida por Trump for cruzada, com a morte de cidadãos norte-americanos, a tensão se escalará, e o mundo tenderá a sofrer as consequências de um crescimento econômico ainda menor, dadas as incertezas geopolíticas e os efeitos psicológicos que uma guerra suscita nos agentes econômicos.

Senão, Trump poderia parar com a retaliação e sairia vencedor com a morte do comandante Soleimani, sem nenhuma baixa entre os norte-americanos e sem uma oposição ferrenha dos democratas em casa. Apesar de a saída das tropas norte-americanas do Iraque parecer apenas uma questão de tempo.

Quem aproveita a bola largada na quadra é a China, que já se comprometeu a ajudar os iraquianos a combater um eventual ressurgimento do Estado Islâmico no Iraque. Quanto à Rússia, após a saída dos norte-americanos do nordeste da Síria, abandonando seus aliados curdos no combate ao Estado Islâmico na região, ajudou a favorecer ainda mais a presença das forças de Putin, dando também carta branca para a Turquia no combate aos curdos. Pena dos novos refugiados, que certamente continuarão buscando cada vez mais portos seguros em países europeus.

Mais para o lado de cá, vem o primeiro-ministro do Reino Unido, Boris Johnson, que enfrenta agora seu maior desafio de política externa. Por ser os olhos dos EUA na Europa, é bem provável que Trump peça o suporte do país em suas ações bélicas na região, mas isso coloca seus aliados Alemanha e França, que lutam pela sobrevivência do acordo nuclear com o Irã e pelo aliviamento das tensões, em um momento delicado.

Uma escolha de Sofia: se o Reino Unido precisa ficar mais próximo dos EUA e quiser fechar um acordo de livre-comércio com os norte-americanos pós-Brexit, Boris Johnson terá de se posicionar rapidamente sob o risco de sofrer pressões incômodas de Trump.

Como desejar um feliz ano novo com um barulho desses? Tentemos. Feliz 2020.

Roberto Dumas

Professor do Insper

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