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Tarcisio Eloy de Pessoa Barros Filho, Eloisa Bonfá e Antonio José Rodrigues Pereira

Modelo SUS de hierarquização é essencial para o cuidado da Covid-19

Não é viável que a mesma unidade atenda casos graves e leves da doença

Tarcisio Eloy de Pessoa Barros Filho Eloisa Bonfá Antonio José Rodrigues Pereira

A chegada do coronavírus e suas consequências demonstram de forma clara que a hierarquização do sistema de saúde é cláusula pétrea para o bom atendimento dos pacientes. Não é viável que unidades que atendem os casos mais graves da Covid-19 atendam também os casos leves. Vale para o coronavírus, vale para todas as doenças e traumatismos.

Criado pela Constituição de 1988, o SUS é um ambicioso projeto de acesso universal da população à saúde. De sua organização e bom funcionamento dependem, hoje, cerca de 75% da população brasileira. Diante da evidente impossibilidade de todas as unidades de saúde realizarem todo e qualquer tipo de atendimento, o SUS foi desenhado em três níveis: a atenção básica, a secundária e a alta complexidade.

Entrada do Hospital das Clínicas da Faculdade de Medicina da USP, em São Paulo - Rivaldo Gomes - 4.jul.19/Folhapress

É por meio da atenção básica que os brasileiros acessam o SUS. Lá serão avaliados e assistidos os casos mais simples. Os mais complexos, que dependem de alta especialização médica, equipes e equipamentos, são encaminhados para os hospitais terciários, preparados para lidar com o paciente grave, com risco de morrer.

É esse o papel que cabe ao Hospital das Clínicas da Faculdade de Medicina da USP (HC-FMUSP). Sua rotina permanente é atender os casos mais graves que chegam à rede pública. Salvar vidas, todos os dias. O respeito a esse desenho, endossado e defendido pelos maiores especialistas em saúde pública, dentro e fora do Brasil, permite que pessoas que sofreram graves acidentes de carro, pessoas com câncer, infartadas e tantas outras que precisam do que de melhor e mais sofisticado a medicina possa oferecer encontrem no HC-FMUSP sua garantia de um atendimento de excelência.

O mesmo se repete em outras unidades de alta complexidade da rede, como hospitais universitários. E é porque funcionam assim que agora essas unidades, com destaque para o HC-FMUSP, poderão atender os pacientes que desenvolverem a forma mais grave da Covid-19, aqueles que precisarão de UTIs especializadas e atendimento de alta complexidade com equipe multidisciplinar.

O Hospital das Clínicas já colocou em ação, desde janeiro, seu comitê de crise para se preparar e se antecipar às necessidades decorrentes do aumento do número de casos de coronavírus e de pacientes graves que precisarem ser atendidos nas UTIs do hospital. São mais de cem leitos de UTIs reservadas desde já para esses pacientes, podendo aumentar de acordo com a evolução da crise.

O Plano de Desastres do HC-FMUSP já foi utilizado com sucesso em eventos extremos em anos passados, como no atendimento às vítimas do atentado à escola de Suzano (SP), quando jovens baleados chegaram ao mesmo tempo de helicóptero ao hospital; no atendimento simultâneo a bombeiros intoxicados após um incêndio no Memorial da América Latina; e no acolhimento a pacientes graves com febre amarela. Muitos foram salvos.

Em todas essas situações, o atendimento de alta complexidade, realizado imediatamente quando da chegada dos pacientes, só foi possível porque o Hospital das Clínicas recebe apenas referenciados. Os pacientes com quadros leves dentro de hospitais de alta complexidade competem com capacidade instalada, equipamentos e recursos humanos com os pacientes em quadros graves. Isso prejudica a ambos, pois o quadro leve não será priorizado no atendimento, levando a uma insatisfação.

Além disso, muitas vezes é ele próprio fonte de disseminação —ou será contaminado, por exemplo, por uma condição respiratória numa sala de espera, como ocorreu em muitos países com a Covid-19. Para o paciente grave, a superlotação leva à escassez de material e a atraso na realização de exames e liberação de sala cirúrgicas, que são muitas vezes diferenciais numa condição de urgência/emergência entre a vida e a morte.

A defesa desse modelo é, portanto, a defesa do SUS, de seu funcionamento no mais alto nível. A chegada do novo coronavírus evidencia o quão importante esse conceito é para o bom funcionamento do SUS. Sem um sistema organizado, que respeite os diferentes níveis de complexidade, nenhum dos agentes poderá exercer corretamente seu papel. Em defesa do SUS, em defesa da vida.

Tarcisio Eloy de Pessoa Barros Filho

Diretor da Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo e presidente do Conselho Deliberativo do Hospital das Clínicas - FMUSP

Eloisa Bonfá

Diretora clínica do HC-FMUSP

Antonio José Rodrigues Pereira

Superintendente do HC-FMUSP

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