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Sérgio Danilo Pena

Ciência e democracia

Quanto mais gente exercitar o pensamento crítico, melhores serão as decisões

Sérgio Danilo Pena

Membro da Academia Brasileira de Ciências

No dia 26 de junho, o periódico Science publicou um editorial sobre a ciência estar correndo perigo de perder a batalha contra “o leviatã da desinformação digital”. E inclusive citou diretamente o Brasil como um dos campos da batalha entre fato científico e ficção.

Vivemos um momento crucial, com a sobrevivência do planeta sendo ameaçada pelo aquecimento global e pela degradação ambiental, e a sobrevivência da humanidade, pela pandemia da Covid-19. Mais do que nunca, precisamos da ciência, mas estamos sendo assolados pelas forças do obscurantismo, que agora se utilizam dos poderosos estratagemas de redes sociais.

O geneticista Sérgio Danilo Pena
O geneticista Sérgio Danilo Pena - Eduardo Knapp - 3.mai.2000/Folhapress

Eu gostaria de enfatizar aqui que, mais que carreira ou profissão, a ciência é uma maneira de se posicionar perante as outras pessoas e a realidade que nos cerca. Dessa forma, o método científico não é um conjunto de técnicas inacessíveis ao cidadão comum, é simplesmente constituído pela prática do pensamento crítico.

E o que vem a ser o pensamento crítico? Ele encapsula o método científico e é composto de duas fases. A primeira etapa é sempre ter a mente aberta. Todas as hipóteses e possibilidades devem ser inicialmente analisadas. Nada deve ser rechaçado sem reflexão. Isso quer então dizer que o cientista deve aceitar tudo? Não, pois há a segunda etapa do pensamento crítico, que podemos chamar de “a fase peneira”, em que vamos escrutinizar cuidadosamente cada uma dessas hipóteses e possibilidades. Neste momento, não devemos acreditar apenas na palavra de ninguém. Devemos confiar apenas em evidências concretas, nos fatos. Dessa maneira, apenas umas poucas hipóteses e possibilidades vão conseguir transpor a peneira para serem aceitas. Mas é importante que essa aceitação seja apenas provisória. Ela deverá ser avaliada de novo periodicamente no futuro.

Assim, a ciência se torna a mais poderosa ferramenta intelectual para humanizar o universo e a nossa experiência nele. Como gostava de dizer o astrônomo Carl Sagan, a ciência é uma luz que nos guia na escuridão. Uma luz que ilumina a realidade e exorciza demônios e medos.

Esse é o espírito do humanismo científico que apela à razão, e não à revelação religiosa ou à autoridade política, como o meio de nos relacionarmos com o mundo natural e estabelecermos uma base estritamente humana para a construção de nosso sistema moral. O humanismo científico acredita que, por meio do exercício da razão e do método científico, a humanidade é capaz de resolver seus problemas com sucesso e avançar seu conhecimento. Entretanto, deve sempre ser lembrado que o humanismo científico se distingue do positivismo arraigado por rejeitar a noção de que a ciência, sozinha, possa ter a resposta definitiva para todas as questões humanas. Uma filosofia humanista lastreada na ciência se concentra em perguntas que podem ser efetivamente respondidas, deixando as demais para os metafísicos.

Desta forma, a ciência não é um corpo arcano de métodos e práticas inacessíveis ao cidadão comum, mas, como já dissemos, simplesmente a prática da imaginação, com o crivo do pensamento crítico. Esse exercício, na sua acepção mais plena, constitui a base de uma cidadania responsável.

A democracia permite às pessoas fazer escolhas conscientes. Quanto maior for a parcela da população que exercitar o pensamento crítico, melhores serão as decisões tomadas. É isso que podemos chamar de democracia científica. Em um regime ideal de democracia científica, em que vigore a total liberdade de escolha, a antidemocracia, em qualquer forma que se apresente, poderá ser desbaratada. Também, conceitos errôneos e nefastos como a negação da ciência, o racismo, o machismo, a xenofobia, a homofobia e a intolerância à diversidade não terão lugar.

Vamos tocar ciência neles!

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