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Uma escolha infeliz

Título do editorial mereceu críticas, para as quais a Folha deu espaço

Sérgio Dávila
Sérgio Dávila

Diretor de Redação

No dia 21 de agosto, a Folha publicou editorial no qual defendia que, se seguir adiante na proposta econômica dos desenvolvimentistas de seu governo, de elevar déficit e desrespeitar teto de gastos, Jair Bolsonaro corre o risco de ter resultado parecido ao obtido por sua antecessora Dilma Rousseff: popularidade momentânea e país quebrado no médio prazo.

O texto era intitulado “Jair Rousseff”, uma escolha infeliz que tentava resumir a pertinente comparação econômica sem levar em conta que colocava na mesma expressão o sobrenome de uma democrata que foi torturada pela ditadura militar e o prenome de um político apologista da tortura, que defende não só aquele regime como suas práticas vis e sanguinolentas.

A ex-presidente Dilma Rousseff em entrevista em seu apartamento, em Porto Alegre (RS); Dilma posa em frente a uma estante de livros, com o rosto virado para a esquerda; ela usa uma blusa azul e um colar fino, está bem penteado, com cabelos curtos, e maquiada
A ex-presidente Dilma Rousseff em entrevista em seu apartamento, em Porto Alegre (RS) - Lucas Lima/UOL

Desde então, centenas de leitores e vários colunistas tiveram seus comentários com críticas ao texto publicados no próprio jornal, em prática que é pilar do Projeto Folha tal como imaginado por Octavio Frias de Oliveira (1912-2007) e seus filhos Otavio Frias Filho (1957-2018) e Luiz Frias: liberdade de expressão, pluralidade de opiniões e abrigo do contraditório.

A ex-presidente teve a íntegra de seu protesto publicada no jornal. Nelson Barbosa, ex-ministro da Fazenda de Dilma, escreveu fora de sua coluna o texto “A Folha da Faria Lima”. Cristina Serra chamou a fusão dos dois nomes de “ultraje”. Outros colunistas se manifestaram veementemente, o que valeu definição de Juca Kfouri, intitulada “A Folha é Assim”:

“Capaz do pecado de um título insultuoso à ex-presidente Dilma Rousseff [...], esta Folha é capaz, também, de publicar muito mais críticas que elogios de seus leitores ao deslize. Melhor: mantém espaço para seus colunistas manifestarem a discordância. E isso tem nome num país pouco habituado ao contraponto civilizado: liberdade de expressão”.

Janio de Freitas, por sua vez, em sua coluna mais recente, não apenas discorda do publicado com argumentos, mas aproveita para fazer acusações infundadas que merecem resposta, algumas delas a pessoas que infelizmente já não estão mais aqui para se defenderem.

Num texto por vezes labiríntico, o colunista reclama tanto da preocupação (que chama de “ilusória”) com audiência por parte do jornal, hoje com leitura recorde em seus quase cem anos, como do pouco espaço que segundo ele sua coluna tem merecido na Primeira Página.

Mas é ao “romper um tabu”, como escreve, que comete injustiça: ao dizer que a Folha teria emprestado veículos à repressão na ditadura, no que chama de “tinta pegajosa e indelével”. A seguir afirma que nunca houve explicação satisfatória para o suposto episódio.

Não é verdade. Em 2018, meses antes de morrer, Otavio Frias Filho, então diretor de Redação da Folha, enviou o seguinte texto para o blog de Fernando Morais:

“Em nota recente que envolvia meu nome, seu blog fez menção às acusações de que veículos da então Folha da Tarde, pertencente ao Grupo Folha, teriam sido usados pela repressão à guerrilha no começo dos anos 70.

Em 2011, solicitei que uma pesquisa exaustiva fosse realizada para esclarecer o episódio. Seus resultados constam do livro ‘Folha Explica a Folha’ (2012; págs. 49 a 61), da jornalista Ana Estela de Sousa Pinto.

Não foram encontrados registros que comprovem essa utilização nem nos arquivos da ditadura, nem nos jornais clandestinos mantidos pela luta armada na época. A acusação se baseia no depoimento de dois militantes presos que afirmaram ter visto veículos do jornal no prédio do DOI-Codi (Vila Mariana, SP). Os atentados terroristas contra veículos da Folha, praticados pelo grupo ALN, ocorreram quatro dias depois da morte pela repressão do guerrilheiro Carlos Lamarca no interior da Bahia, sugerindo que o motivo do ataque foi a cobertura, bastante hostil, que a Folha da Tarde fez daquele fato.

A Folha sempre afirmou que, se a cessão de veículos ocorreu, foi de forma episódica e sem conhecimento nem autorização de sua direção”.

Mais adiante, Janio ressuscita o episódio “ditabranda”, outro termo infeliz utilizado pelo jornal em editorial de 2009 para dizer que o regime de exceção brasileiro foi menos mortal que o dos vizinhos argentino e chileno. Aqui, de novo o colunista defende patrões e culpa colegas, sugerindo que Otavio Frias Filho guardou silêncio e assumiu responsabilidade alheia.

No entanto, o próprio Otavio escreveu naquele mesmo ano nas páginas do jornal:

“O uso da expressão [...] foi um erro. O termo tem uma conotação leviana que não se presta à gravidade do assunto. Todas as ditaduras são igualmente abomináveis”.

Otavio então reforçava o contexto histórico da comparação e reprovava a reação de alguns intelectuais, que pediam que os responsáveis pelo editorial fossem forçados, “de joelhos”, a uma autocrítica em praça pública.

“Para se arvorar em tutores do comportamento democrático alheio, falta a esses democratas de fachada mostrar que repudiam, com o mesmo furor inquisitorial, os métodos de ditaduras de esquerda com as quais simpatizam.” As palavras seguem atuais.

Janio de Freitas é um ícone do jornalismo brasileiro. Suas reportagens do passado e suas colunas sempre foram referência na cobertura política, mas nem ele está a salvo de cometer injustiças e incorrer em erros facilmente evitáveis com um mínimo de apuração prévia.

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