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Perigosos e inábeis

Revelação de que Trump sabia dos riscos do vírus mostra inaptidão de populistas

O presidente dos EUA, Donald Trump, na sexta-feira (11)
O presidente dos EUA, Donald Trump, na sexta-feira (11) - Andrew Caballero-Reynolds/AFP

A ascensão de líderes populistas em democracias mundo afora sempre teve em Donald Trump um ícone. O americano personifica o chamado populismo cultural, usualmente à direita, e serve até hoje de modelo declarado a governantes como o brasileiro Jair Bolsonaro.

Entre tantos traços em comum, os populistas do século 21 bebem nos manuais fascistas e comunistas de outrora: crise boa é crise inventada, por manipulável.

Assim como os inimigos imaginários, sejam imigrantes viciosos nos EUA ou marxistas culturais no Brasil, as emergências também têm de ser engendradas para maximizar os ganhos do mandatário.

Confrontados com uma emergência real na figura da pandemia de 2020, a reação instintiva de parte da turma foi a de buscar ignorá-la.

A revelação feita pelo lendário jornalista Bob Woodward de que Trump sabia desde o começo da crise que o novo coronavírus era mortal e perigoso, e ainda assim preferiu minimizá-lo, prova o dano que esse comportamento gera.

Pelo relato de Woodward, que por si enseja questionamentos éticos sobre o interesse pelo qual ele escondeu por meses informação vital ao seu país, Trump alegava querer poupar o público do pânico.

Tal afronta soa familiar ao que aconteceu no Brasil de Bolsonaro e sua interminável ladainha sobre a Covid-19, ora gripezinha, ora invenção da mídia, agora uma certa ameaça para a qual a vacina pode ou não pode ser uma solução.

Em ambos os países, dificuldades econômicas e sociais se empilham junto aos cadáveres, demonstrando que a inabilidade gerencial também marca essa cepa populista.

Enquanto buscam objetivos de manutenção de poder, empurram sem norte os problemas, seja a China lá ou medidas anticrise, aqui.

O mesmo se vê no México de López Obrador e no Reino Unido de Boris Johnson, ambos negacionistas que amainaram o discurso.

O britânico, temendo uma segunda onda da Covid-19, tem dificuldade em convencer a população a aderir a restrições que ele criticava. De quebra, reativou a disputa com a União Europeia ao mudar os termos do divórcio com o bloco.

Como uma hidra, o populismo tem várias cabeças. O centro do ex-premiê britânico Tony Blair conta 17 populistas à frente de democracias plenas. Desses, 12 levaram a crise a sério, com respostas diversas. Trump e Bolsonaro estão no outro grupo, com no mínimo dolo indireto no caso do americano.

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