Descrição de chapéu

Centrão expandido

Avanço de siglas do grupo dá sinal a Bolsonaro em 2022, mas arranjo é precário

Parlamentares homens posicionados lado a lado com o presidente no meio
O presidente Jair Bolsonaro com deputados da bancada do PP - Reprodução/Twitter

Os sinais emitidos pelas urnas no primeiro turno das eleições municipais ainda estão sendo decodificados, mas uma constatação parece clara: o avanço das siglas do centrão fisiológico e seu entorno se deu num diapasão governista em espírito, por assim dizer.

Levantamento feito pela Folha mostrou, por exemplo, uma correlação direta entre um desempenho superior desses partidos em cidades que demandaram mais o auxílio emergencial da pandemia.

Nos 200 municípios com maior adesão à ajuda federal, Progressistas, Republicanos, PL, PSD e MDB angariaram 57% das vitórias. No conjunto das cidades brasileiras com eleição decidida em primeiro turno, o índice foi de 49%.

Com efeito, a esquerda, PT à frente, viu seu espaço sendo reduzido nesses locais mais necessitados.
Isso mostra o caráter governista de parte do voto brasileiro, reforçado neste pleito pelo índice de reeleições até aqui: 68% nas cidades que receberam mais auxílio, ante 63% no total dos municípios.

Isso não é exatamente uma boa notícia para Jair Bolsonaro.

O arranjo de poder montado em torno do presidente sugere mais a ação parasitária em relação ao poder dos partidos ligados ao Planalto —e aqui o MDB não se encaixa na definição precisa apesar de ter o líder do governo no Congresso— do que um mutualismo político.

A inexistência de uma agenda congressual do Planalto, que vê o ex-rei do centrão Rodrigo Maia (DEM-RJ) pautar o dia a dia na Câmara dos Deputados, exemplifica a falta de coordenação entre o governo e seus apoiadores nominais.

Com o apontado aumento da rejeição a Bolsonaro nas capitais, que sugere o que pode acontecer quando o auxílio acabar, e com o potencial recrudescimento da crise econômica, é plausível antever as siglas deixando os despojos que ora varejam para seu benefício.

Essa é uma chave para entender as chances de Bolsonaro na disputa da reeleição, em 2022.
Se atravessar o ano que vem de forma claudicante, cada vez mais amparado no binômio apoplexia pública e catatonia política, o centrão e suas adjacências tenderão a olhar para alternativas no que se convencionou chamar de centro e de centro-direita no país.

Mas se a economia não desandar e houver alguma racionalidade no esperado processo de saída da pandemia, hoje uma proposição algo panglossiana, Bolsonaro sempre terá consigo a máquina e seu poder de atração enquanto sacia o sistema político com migalhas.

Sob esse aspecto, as derrotas do presidente nos principais pleitos em que se envolveu parecem menos definitivas, embora revelem o humor de um eleitorado que, neste 2020, rejeitou o bolsonarismo.

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