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Marcos Fernandes G. da Silva

O impeachment e a economia

Não há o que temer: saída de Bolsonaro pode trazer ganhos no curto prazo

Marcos Fernandes G. da Silva

Professor de economia da FGV/Eaesp e pesquisador do FGV/Ethics

Um eventual impeachment do presidente Jair Bolsonaro pode ter impacto positivo sobre a economia, independentemente do mérito político e moral do processo.

Tão logo o tema dominou as redes, apareceram algumas análises precipitadas indicando um suposto risco da destituição constitucional causar instabilidade econômica.

Da literatura de ciência política e economia política disponível não podemos inferir que impedimentos causem ou não causem instabilidade econômica. Sabemos que pode provocar instabilidade política, mas há debates (sugiro aqui "Presidential Impeachment and the New Political Instability in Latin America", Cambridge University Press, de Aníbal Pérez-Liñán). Contudo, não há causalidade demonstrada entre ela e a econômica. Adicionalmente, a experiência que temos no Brasil aponta o contrário.

O impeachment de Collor, por exemplo, abriu espaço para o Plano Real. Claro que há o acaso e, evidentemente, lideranças importam e se formam na conjuntura, mas isso é evidência de que um impedimento pode desembocar em inflexões virtuosas na política econômica.

No caso da destituição de Dilma, observamos a formação de um cenário para reformas, sem entrar no mérito, como a sindical, a trabalhista e a previdenciária —esta somente não foi aprovada à época devido às consequências daquela gravação denunciada pela Procuradoria-Geral da República.

Posta a literatura sobre o tema e nossa experiência histórica, podemos inferir que é precipitado crer que o impedimento de Bolsonaro geraria instabilidade econômica, mesmo no longo prazo.

Há a possibilidade, ainda neste ano, de a economia global voltar a crescer para valer, dados os efeitos da política econômica da nova administração estadunidense e da vacinação massiva nos países mais desenvolvidos e na China. Poderemos ver um aquecimento no mercado de commodities e no comércio.

Mas o Brasil pode ficar de fora dessa recuperação, seja pelo processo atabalhoado de vacinação (e o trato flagicioso da crise sanitária), seja porque reformas, como a tributária, por exemplo, não são abraçadas pelo próprio Executivo.

Sem vacinação não há como o setor que mais emprega, o de serviços, voltar a crescer com robustez. Análise feita pelo Monitor do PIB da FGV, na divulgação dos dados do terceiro trimestre de 2020, mostra que ele emperra a recuperação. Sabemos que quanto mais rápido for esse processo, que já começou torto, por incompetência e delinquência negacionista, melhor para a vida e para a economia. Para tal precisamos de liderança.

Do ponto de vista das reformas, por exemplo, a tributária, que está no Congresso (PEC-45) e é apoiada por 10 entre 10 economistas que cursaram Finanças Públicas 01, é boicotada pelo Executivo.

Não há o que temer, do ponto de vista econômico, com o impeachment de Bolsonaro: podemos ter ganhos no curto prazo. Mesmo no longo prazo, ele pode ser um sinal de solidez institucional e, deixando de lado a economia, um salto civilizatório.

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