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O que a Folha pensa

Anvisa sob pressão

Cabe ao fabricante da Sputnik apresentar evidências, não retórica ameaçadora

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Dose da Sputnik V sendo preparada na Macedônia - Robert Atanasovski/AFP

A Agência Nacional de Vigilância Sanitária teve sua reputação abalada quando o presidente, Antonio Barra Torres, médico e contra-almirante, acompanhou sem máscara o presidente Jair Bolsonaro em manifestação de março de 2020.

Depois houve a suspensão de ensaio clínico com a Coronavac por efeito adverso grave não relacionado à vacina do Butantan.

As suspeitas de interferência política esmaeceram quando a agência chancelou o uso emergencial da Coronavac e da Covishield, do consórcio AstraZeneca/Oxford.

A apresentação minuciosa de dados e razões, na sessão de 17 de janeiro, evidenciou a ação técnica e escorreita de um órgão de Estado.

O prestígio reconquistado pela Anvisa se submete a novo teste com sua recusa a aprovar a vacina Sputnik V, do Instituto Gamaleya de Moscou. A decisão unânime da diretoria desencadeou despropositada reação de Kirill Dmitriev, diretor do fundo soberano russo que bancou o desenvolvimento do imunizante.

Dmitriev acusou a agência de ceder a demandas geopolíticas provenientes dos Estados Unidos, segundo ele de maneira antiprofissional e mentirosa. A seguir, ameaçou processá-la por difamação, ao supostamente espalhar informações falsas e imprecisas, de modo intencional, sobre o produto.

Entende-se que a dezena de governadores interessados em reforçar a prevenção com a Sputnik, diante da inépcia federal, fiquem frustrados com o parecer negativo. Mais obscuras são as pressões nos bastidores brasilienses.

Tal movimentação não pode criar atalhos para contornar os obstáculos levantados pela Anvisa. A agência apresentou argumentos sólidos, segundo especialistas, para não concluir a análise antes que o fabricante demonstre de maneira cabal a segurança do imunizante.

Houve várias inconformidades e informações deficientes apontadas. Chamou a atenção, acima de tudo, a questão da presença de adenovírus ativos entre os vetores empregados na vacina, que deveriam ser inativados.

Cumpre ao Gamaleya e a Dmitriev comprovar com evidências, e não arroubos retóricos, que esse risco fica dentro de limites estipulados soberanamente.

Como qualquer órgão estatal, a Anvisa não está acima de críticas. Entretanto estas têm de ser fundadas na ciência e nas melhores práticas, não na truculência descabida de partes interessadas.

editoriais@grupofolha.com.br

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