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Ricardo Abramovay

O liberalismo miliciano de pires na mão em Washington

Querem legitimar atividades destrutivas como virtudes do empreendedorismo

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Ricardo Abramovay

Professor sênior do Instituto de Energia e Ambiente da USP, é autor de ‘Amazônia - Por uma economia do conhecimento da natureza’ (ed. Elefante)

Tontura, olhos pesados, sono profundo —e você só acorda no dia seguinte. Aí percebe que está num mundo novo. Não é mais possível qualquer atividade que conduza à emissão de gases de efeito estufa.

O cidadão norte-americano, canadense ou chinês não pode tirar o carro da garagem. Luz elétrica ou internet, só algumas poucas horas por dia, já que a matriz energética desses países (e da maior parte dos outros) depende da queima de combustíveis fósseis. Se a vida não parar, o colapso do sistema climático, as secas, os incêndios, os furacões e a subida no nível do mar vão se tornar ainda mais destrutivos.

A pandemia de Covid-19 ofereceu uma versão suave desse cenário apocalíptico. Em média, durante 2020, as emissões de gases de efeito estufa tiveram, globalmente, retração inédita de 7%. Tal declínio só foi alcançado com uma redução brutal das atividades econômicas e da interação social.

O ritmo de queda da dependência humana dos combustíveis fósseis é muito mais lento do que o necessário para evitar a intensificação dos eventos climáticos extremos. Por isso, Estados Unidos e União Europeia comprometem-se a reduzir pela metade suas emissões nos próximos dez anos. E, claro, não querem fazer isso paralisando a vida econômica.

O caminho, então, é duplo: em primeiro lugar, enfrentar interesses poderosos que ajudam a perenizar nossa dependência dos combustíveis fósseis. O mais importante, porém, é que essas metas só serão alcançadas caso melhorem muito as tecnologias ligadas às energias renováveis modernas, e sua armazenagem, para contrabalançar a intermitência da solar e da eólica.

Nos EUA serão introduzidos 50 milhões de automóveis elétricos e 3 milhões de pontos de abastecimento dos veículos com energia elétrica até 2030. A siderurgia, a produção de cimento e outros setores altamente dependentes de emissões terão que ser transformados, e muito rapidamente. A agropecuária também terá que emitir muito menos que hoje.

São transformações que vão exigir investimentos altíssimos, mudanças de hábitos, novos padrões de produção e de consumo. E tudo isso só será possível se a ciência avançar e abrir caminho a tecnologias que tornem viáveis esses novos padrões. Em outras palavras, o que os especialistas chamam de “​descarbonização profunda” (que terá de ocorrer nos próximos dez anos) atinge diretamente a vida cotidiana dos cidadãos e a oferta de bens e serviços. Tudo isso supõe pesquisa de ponta.

E nós? O dado mais importante para a reunião climática, convocada pelo presidente Joe Biden, é que, entre os dez maiores emissores globais, o Brasil é hoje o único (junto com a Indonésia) em que quase metade das emissões de gases de efeito estufa vem do desmatamento. Ora, zerar o desmatamento não depende de ciência e tecnologia, não exige novos hábitos —nem de produção nem de consumo.

Se você é o cidadão que caiu em sono profundo e acordou num mundo de desmatamento zero, sua comida não ficará mais cara, seus hábitos de consumo não serão modificados nem serão necessárias transformações estruturais na vida econômica e social de seu país. Haverá, é verdade, alguma redução na renda gerada pelo desmatamento, vinculada frequentemente a trabalho escravo e à menor compra de equipamentos para a ocupação de áreas públicas, invasão de terras indígenas e para a mineração ilegal.

Hoje, se o desmatamento cresce e se o governo federal tenta fazer crer ao mundo que zerar a destruição é tão difícil quanto descarbonizar a matriz dos transportes e da energia, isso se deve a uma razão: a retórica e a prática do Planalto e da Esplanada dos Ministérios tentam legitimar uma espécie de liberalismo miliciano em que atividades sabidamente criminosas e destrutivas buscam aparecer como se fossem a expressão máxima das virtudes do empreendedorismo.

É essa gente, que depende politicamente da apologia ao crime e da tentativa de sua legalização, que vai agora alegremente a Washington de pires na mão. E voltarão de mãos abanando, dizendo, ferozes, que os outros fazem pouco para combater a crise climática.

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