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Em velório, jornalistas destacam aprendizado e personalidade de Alberto Dines

Criador do Observatório da Imprensa que morreu nesta terça (22) aos 86 anos foi lembrado por sua generosidade

Géssica Brandino
Embu das Artes

Histórias vindas de diferentes Redações foram contadas nesta quarta-feira (23) no velório de Alberto Dines, no Cemitério Israelita de Embu das Artes (SP). Jornalista desde 1952, Dines —que morreu nesta terça-feira (22), aos 86 anos— foi lembrado pelos colegas de profissão e amigos pelo legado para a imprensa e por sua generosidade.

O jornalista Carlos Eduardo Lins da Silva, que foi secretário de Redação da Folha e hoje é professor do Instituto de Relações Internacionais da USP, conta que conheceu Dines há 35 anos, quando o convidou para palestrar na universidade. Desde então, a amizade cresceu. “A coisa que mais me impressionava nele sempre foi a juventude. Tão mais idoso que eu, tinha sempre mais entusiasmo. Um otimismo inquebrantável: sempre achando que as coisas dariam certo”, afirmou. 

O articulista da revista Veja Roberto Pompeu de Toledo falou a contribuição na crítica à mídia, fazendo proliferar a função de ombudsman, além de estudos sobre a imprensa na academia. “Tem poucos jornalistas brasileiros com uma trajetória tão abrangente e completa quanto o Alberto Dines. Primeiro, como homem de Redação mesmo. Depois essa última fase da vida dele que foi de um grande pioneirismo e contribuição, que foi da imprensa refletir sobre si própria. Um serviço inestimável que deixou”, afirmou.

O jornalista e professor Caio Túlio Costa, que foi o primeiro ombudsman da Folha, afirmou que num cenário de proliferação de fake news, Dines fará falta. “Agora que temos desafios enormes em relação à veracidade das informações, uma cabeça como a dele vai fazer muita falta”, disse. 

O jornalista Luiz Egypto conheceu Dines nos anos 90 e trabalhou com ele no Observatório da Imprensa, que ele criou em 1996. “Dines era um erudito absolutamente sem arrogância. Sempre muito bom estar com ele. Você sempre saía com algo a mais. Era um cara que aos 80 trabalhava como se tivesse 40. Muito ativo, produtivo e relevante”, afirmou.

Luciano Martins Costa, ex-diretor do Observatório, disse que Dines era uma rara unanimidade. Nas reuniões, mantinha uma postura de escuta, para depois opinar. “Estimulava as pessoas a prestar atenção no valor histórico de fazer jornalismo diariamente: a notícia de hoje é a história de amanhã, se for bem feita”, afirmou. 

A diretora do Projor (Instituto para o Desenvolvimento de Jornalismo), Angela Pimenta, conta que o Observatório da Imprensa continuará, assim como outros inspirados em ideias de Dines: cartas na mesa, com jornalistas protagonistas discutindo temas atuais, e a segunda fase do atlas da notícia, com o mapeamento do jornalismo local. Ela também falou do legado do jornalista.

“Primeiro: o reconhecimento de que aquilo que se produz tem que estar sob o escrutínio de quem nos lê e nos assiste. Segundo, que tem espaço para aprimorar o jornalismo brasileiro. E o terceiro é a questão da liberdade de expressão: como direito de que todo mundo fale pública e civilizadamente, numa forma de combater o discurso do ódio e a intolerância”, disse.

O ex-ministro Celso Lafer também prestou sua homenagem a Dines. “Era um homem de coragem e de firmeza. Nesse momento no nosso país em que há tanta fragmentação, a voz dele fará falta, porque era a voz da lucidez, da ética e do empenho por um país melhor e mais justo”, afirmou. 

TRAJETÓRIA NO JB

Discípulos da Redação do Jornal do Brasil nos anos 60 também compareceram para se despedir do antigo mestre. Bernardo Lerner falou sobre como Dines instigava o novo jornalismo na Redação, ensinando aos repórteres um novo jeito de contar uma história. A coragem durante a ditadura não ficou marcada exclusivamente nas duas capas icônicas do jornal —com a previsão do tempo após o decreto do AI-5 e com o texto sem manchete sobre a deposição do presidente chileno Salvador Allende— notícia proibida pela censura. “Ele permitiu que afrontássemos a ditadura”, conta.

“Ele sempre foi muito solidário com as pessoas. Sempre apoiou aqueles que tiveram problemas durante a ditadura”, contou Luiz Antônio Maciel, ex-chefe de reportagem.

O ex-correspondente Mário Chimanovich recorda que foi uma honra trabalhar com Dines na Redação do jornal. “Impossível não reconhecer que esse é um grande jornalistas brasileiros. Tive a honra de trabalhar sobre as ordens dele. Foi uma pessoa de coragem e extremamente talentosa.”

DESPEDIDA ​

Aos pés do caixão de Dines, sua mulher, a jornalista Norma Couri, leu uma carta em que destacou o compromisso com o jornalismo e a saudade deixada por ele, a quem nunca viu desanimar, mesmo em meio às dificuldades enfrentadas na profissão. 

“Era generoso, iluminado e único. Há pessoas que não deveriam morrer antes dos cem anos. Você não deveria ter morrido antes dos 200. Eu não pensei que você fosse morrer, deixando projetos que chegam até os anos 3000. Você múltiplo vai fazer falta em muitas áreas e pra muita gente, mas ninguém imagina a falta que você vai fazer pra mim e você sabe disso”, declarou.

Na cerimônia, orações em iídiche falavam sobre os dias longos, como os vividos por ele. No sepultamento, o convite para que os amigos ajudassem depositando uma pá de terra, num ritual que simboliza uma nova vida que é plantada. O kadish, tradicional oração do luto judaico, finalizou as homenagens.

Nachman Falbel, amigo de juventude de Dines, relembrou os tempos no grupo libertário dror —que significa andorinha— e fez um pedido para que conste em sua lápide aquilo que resumiu a vida do jornalista: “Amou a verdade”.

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