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Livro exibido por Bolsonaro nunca foi adotado pelo MEC, diz editora

Em agenda em Porto Alegre, candidato acusou o ministério de mentir sobre distribuição da obra

São Paulo e Porto Alegre

Exibido pelo presidenciável Jair Bolsonaro (PSL) em entrevista ao Jornal Nacional na noite de terça (28), o livro infantojuvenil “Aparelho Sexual e Cia.”, editado pela Cia. das Letras, nunca foi distribuído em escolas pelo MEC (Ministério da Educação).

A Fundação Biblioteca Nacional, ligada ao Ministério da Cultura, comprou, em 2011, 28 exemplares do título, que foram distribuídos em bibliotecas públicas —não nas escolas. “O pai que tenha filho na sala agora, retira o filho da sala, para ele não ver isso aqui [o livro]. Se bem que na biblioteca das escolas públicas tem”, disse o candidato na TV.

O MEC, em 2016, já havia negado que tivesse adquirido exemplares desse título. 

Em Porto Alegre, na quarta (28), Bolsonaro rebateu do ministério. “O MEC tá mentindo, são uns canalhas. O livro é sim para ser distribuído nas bibliotecas como foi distribuído há mais de dois anos”, afirmou o capitão reformado.

O candidato à Presidência Jair Bolsonaro (PSL) em entrevista ao Jornal Nacional
O candidato à Presidência Jair Bolsonaro (PSL) em entrevista ao Jornal Nacional - 28.ago.2018 - Reprodução/TV Globo

Em nota, a Companhia das Letras disse que o título nunca foi adquirido pelo MEC ou fez parte do suposto  “kit gay”. 

“O conteúdo da obra nada tem de pornográfico, uma vez que, formar e informar as crianças sobre sexualidade com responsabilidade é, inclusive, preocupação manifestada pelo próprio Estado, por meio de sua Secretaria de Cultura do Ministério da Educação que criou, dentre os Parâmetros Curriculares Nacionais (PCN), um específico à ‘Orientação Sexual’ para crianças, jovens e adolescentes”, pronunciou-se a empresa.

Lançado em 2007, o título  é indicado para alunos de 11 a 15 anos, do 6º ao 9º ano do Ensino Fundamental. 

“Aparelho Sexual e Cia.” foi escrito por Zep (pseudônimo do autor suíço Philippe Chappuis) e traduzido para mais de dez idiomas, com mais de 1,5 milhão de exemplares vendidos. Atualmente, está fora de catálogo no Brasil.

Dividido em seis capítulos, é um guia que utiliza toques de humor e linguagem de histórias em quadrinhos para falar sobre sexualidade, amor e relacionamento para o público infantojuvenil.

O primeiro capítulo fala de relacionamentos. O que é estar apaixonado? O que é sair com alguém? Como é beijar? O seguinte discorre sobre a puberdade e as mudanças corporais sofridas por garotos e garotas: mudanças na voz, crescimento dos seios, surgimento de pelos, acentuação dos odores etc.

Em seguida, vem a parte do sexo. Com linguagem didática, perguntas diretas e respostas claras, a obra explica o que é transar, o que é uma ereção, como funciona o orgasmo e a anatomia dos órgãos sexuais. 
O quarto capítulo aborda a maternidade e a corrida dos espermatozoides rumo ao óvulo, mesclando ciência com linguagem de tirinhas de jornal. Depois é a vez de falar sobre contracepção e higiene. Por fim, há um serviço completo sobre quem procurar em casos de abuso ou pedofilia.

Durante todo o livro, o personagem principal interage com o universo da sexualidade procurando gerar um efeito cômico. Ele se beija no espelho para treinar, não entende muito bem como funciona uma relação sexual e, muitas vezes, imagina as coisas da maneira mais literal possível.

Em vídeo publicado em suas redes sociais em 2016, Bolsonaro afirma que o título “é uma porta aberta para a pedofilia” e que “todo ele é uma coletânea de absurdos que estimula precocemente as crianças a se interessarem por sexo”.

Não é a primeira vez que a obra causa polêmica no Brasil. A Promotoria do Distrito Federal já havia pedido esclarecimentos sobre o livro à Companhia das Letras em 2015. Na época, pais questionaram o conteúdo de “Aparelho Sexual e Cia.”, adotado por um colégio.

A Unesco, ligada às Nações Unidas, lançou em 2014 um guia para os professores brasileiros sobre como abordar a educação sexual com alunos. Além disso, já declarou no Brasil que a educação sexual e de gênero nas escolas pode ajudar a prevenir a violência contra as mulheres.


 

Géssica Brandino , Gabriela Sá Pessoa , Fernanda Wenzel e BRUNO MOLINERO
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