União Europeia não pediu retaliação ao Brasil por prisão de Lula

A deputada Catarina Martins, retratada no vídeo, disse que as imagens são montagens

Sarah Mota Resende
São Paulo

Um vídeo publicado na página do Facebook do deputado Marco Maia (PT) e difundido em outras redes sociais e em aplicativos de mensagens instantâneas mostra, sem mencionar seu nome, Catarina Martins, deputada portuguesa e coordenadora do partido Bloco de Esquerda, criticando a prisão do ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT). Nesta quarta (15), Lula foi registrado como candidato do PT à Presidência da República. 

A publicação afirma que a "Europa pede à ONU retaliação ao Brasil pela prisão ilegal do candidato que lidera as pesquisas para presidente no Brasil". Não há, no entanto, indícios de que esse pedido de retaliação da "Europa" existiu.

Como verificado pelo projeto Comprova, coalizão de 24 organizações de mídia brasileiras, dentre elas a Folha, que visa identificar, checar e combater rumores, manipulações e notícias falsas sobre as eleições de 2018, as imagens mencionadas simplesmente fazem parte da fala de uma parlamentar da esquerda de Portugal.

O ex-presidente Lula durante comemoração do 38º aniversário do PT, em fevereiro de 2018 - Miguel SCHINCARIOL/AFP

Não há registro de qualquer pedido por parte da União Europeia dirigido às Nações Unidas sobre retaliações pela prisão de Lula. Ao ser contatada pelo Comprova, a deputada Catarina Martins, retratada no vídeo, declarou que desconhece tal pedido e que as imagens são uma montagem alheia a seu mandato. O mesmo foi confirmado pelo partido Bloco de Esquerda.

O vídeo original foi gravado em 8 de abril de 2018, um dia depois de Lula ser preso. Era um evento de aniversário do Bloco de Esquerda, na cidade do Porto. A deputada e o seu partido consideram a prisão de Lula arbitrária e um golpe, posição semelhante à do PT e de outros partidos de esquerda brasileiros.

Contatada pelo Comprova, a Corte Europeia de Direitos Humanos afirmou que não conduz casos por conta própria.

Viral com informação falsa. Não há registro de que a Europa tenha pedido qualquer "retaliação ao Brasil"
Viral com informação falsa. Não há registro de que a Europa tenha pedido qualquer "retaliação ao Brasil" - Reprodução

No portal de documentação da União Europeia, foram encontrados arquivos com menção ao ex-presidente Lula, mas nenhum deles diz respeito a retaliações pela sua prisão.

Em 11 de julho, em resposta oficial a um eurodeputado, a chefe das Relações Exteriores da União Europeia, Federica Mogherini, disse que o bloco europeu acredita que o Judiciário brasileiro fará o que for necessário para lidar com esse e com outros casos envolvendo políticos, de forma “objetiva e independente”. Ou seja, o documento vai na contramão do que afirma a publicação com o vídeo. 

No dia 5 de abril, parlamentares de diferentes países assinaram uma carta de apoio a Lula. No entanto, esse documento não foi endossado por nenhum organismo internacional. À época do mandado de prisão de Lula, a defesa do ex-presidente protocolou junto à ONU um pedido para evitar que ele fosse preso, mas o recurso foi negado pelo órgão.

Após a verificação do Comprova, o vídeo publicado no Facebook do deputado Marco Maia foi apagado. Em nota, a assessoria do petista "agradeceu a investigação" do projeto. "Acreditamos no papel da imprensa neste trabalho de verificação de fake news", diz trecho do texto.

MANUAL PARA NÃO PROPAGAR FAKE NEWS

Busque a fonte original;

Faça uma busca na internet: muitos casos já foram desmentidos;

Cheque a data: a "novidade" pode ser antiga;

Leia a notícia inteira;

Cheque o histórico de quem publicou;

Se a notícia não tem fonte, não repasse. 

Participaram também da apuração deste texto os veículos AFP e O Povo, que integram o Comprova, projeto que visa identificar, checar e combater rumores, manipulações e notícias falsas sobre as eleições de 2018. É possível sugerir checagens pelo WhatsApp da iniciativa, no número (11) 97795-0022.

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