Descrição de chapéu Eleições 2018

Campanha de Marina Silva reforça tom conciliador e vê Bolsonaro no 2º turno

Equipe da candidata acredita que Haddad e Ciro devem se tornar principais adversários dela

Joelmir Tavares
São Paulo

A campanha de Marina Silva continuará pregando a conciliação na eleição mais acirrada da história recente, mas se prepara para ver o clima se conflagrar em seu território, com um enfrentamento mais duro com Fernando Haddad (PT) e Ciro Gomes (PDT).

Após o ataque a Jair Bolsonaro (PSL), nesta quinta-feira (6), a candidata da Rede, que já vinha redesenhando sua estratégia na tentativa de fortalecer sua musculatura para avançar ao segundo turno, terá que fazer novas mudanças de rota.

Os principais coordenadores da campanha, reunidos nesta sexta-feira (7), concordam com a ideia de que a facada em Bolsonaro e a consequente mobilização em torno do presidenciável líder das pesquisas colocam o deputado mais perto do segundo turno.

Nesse cenário, a briga pela segunda vaga deve levar a uma ofensiva sobre a ex-senadora, que hoje aparece em segundo lugar nos levantamentos de intenção de voto. Haddad e Ciro devem tentar avançar sobre os eleitores que hoje tendem a votar em Marina e disputar fatias com ela principalmente no Nordeste.

Como a coluna Mônica Bergamo publicou nesta sexta, o ex-prefeito de São Paulo —que, com Lula (PT) barrado, deve virar cabeça de chapa nos próximos dias— pode se beneficiar ao buscar os votos dos indecisos e dos apoiadores da ex-senadora. Ela herda votos de Lula em cenários sem o ex-presidente.

A posição de Marina em relação a Bolsonaro, por ora, não muda. Ela ganhou relevância na corrida eleitoral ao rivalizar com ele no debate da RedeTV!, em agosto, quando o confrontou para defender igualdade salarial entre homens e mulheres.

Em outras ocasiões, fez mais críticas ao candidato do PSL, em geral sem citá-lo nominalmente. Fiel ao estilo apaziguador que busca exibir nesta campanha, a ex-senadora preferiu rebater ideias e propostas do militar reformado sem partir para o embate, como costuma definir o bate-boca eleitoral.

O mote pacificador deverá ser mantido por Marina, e até ampliado. A líder da Rede se coloca como a candidata que poderá unir o país, superando os radicalismos e a polarização.

Mesmo com Bolsonaro convalescente, ela poderá repetir reações negativas a ele, segundo um assessor, caso sinta necessidade de se manifestar diante de alguma declaração ou iniciativa do rival.

Como o deputado nunca foi alvo prioritário —a equipe de Marina considera difícil que ela atraia eleitores dele—, a facada sofrida pelo presidenciável afeta pouco a linha de comunicação da Rede. A ex-senadora tem direcionado mensagens para mulheres e jovens e levantado bandeiras de gênero e raça.

Marina, curiosamente, passou por situação semelhante em 2014, quando virou candidata à Presidência por causa da morte de Eduardo Campos (PSB), de quem era vice. A comoção pública acabou beneficiando seu nome e ela ficou perto de passar ao segundo turno, mas foi parada por agressiva campanha oriunda principalmente do PT de Dilma Rousseff.

A presidenciável telefonou nesta quinta para a mulher de Bolsonaro, Michelle, para expressar solidariedade. Disse a ela que estava em oração pela recuperação do parlamentar. Em vídeo nas redes sociais, a candidata afirmou que rogava a Deus pela vida dele e pediu calma aos brasileiros.

Marina, que cancelou sua agenda de campanha nesta sexta em respeito ao adversário, manteve atividade que já era prevista para este sábado (8) em São Paulo: uma caminhada na rua 25 de Março.

Por causa do ataque ao presidenciável, o ato foi batizado de "Caminhada pela Paz". A assessoria divulgou o evento mencionando "o grave momento em que vivemos", numa referência à radicalização do debate.

A candidata deverá caminhar por 200 m, perto do meio-dia, na região de comércio popular que fica no centro da capital.

O esquema de segurança, até segunda ordem, deverá seguir o padrão das últimas semanas. A ex-senadora conta com a escolta da Polícia Federal oferecida a todos os candidatos ao Planalto, embora, pessoalmente, tenha resistência a uma guarda ostensiva. Dispensa, por exemplo, o carro da PF em seus deslocamentos.

A coordenação da campanha participará da reunião que a PF terá com representantes de todas as candidaturas para rediscutir a vigilância dos presidenciáveis após a agressão a Bolsonaro. Novas orientações devem ser passadas pela corporação.

Nas palavras de um colaborador de Marina, não é possível se rebaixar ao medo e virar refém dele. O histórico até agora mostra que ela geralmente é bem recebida em locais públicos. Sua equipe não registrou nenhum fato que representasse risco grave à segurança dela.

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