Descrição de chapéu Eleições 2018

'Mitinho', caçula de Bolsonaro cria gosto por política e galinhas

Renan Bolsonaro, 20, estuda direito e é o mais discreto dos filhos homens do presidenciável

Anna Virginia Balloussier
Resende (RJ)

Ele cria galinhas, oito delas, que batiza com letras do alfabeto: A, B, C etc. Tem também um galo e seis aquários —é “um apaixonado por bicho”, conta sua mãe. 

Um colega do curso de direito na faculdade Estácio de Sá o descreve como um pacato cidadão, alguém que se dá bem “com todos e é bem reservado nessas questões políticas, nunca vi bater boca”.

Universitário, foi dispensado do serviço militar obrigatório ao qual o pai tem tanto apego.

Seria um rapaz de 20 anos como tantos outros, não fosse ele Jair Renan Bolsonaro, filho de um presidenciável ao qual o Brasil se acostumou a amar ou odiar, sem muito espaço para meios termos. 

O filho do candidato do PSL a presidência da república, Jair Bolsonaro, Jair Renan Bolsonaro, durante ato pró-Bolsonaro, nas ruas de Resende, interior do estado do Rio de Janeiro
O filho do candidato do PSL a presidência da república, Jair Bolsonaro, Jair Renan Bolsonaro, durante ato pró-Bolsonaro, nas ruas de Resende, interior do estado do Rio de Janeiro - Eduardo Anizelli - 17.set.18/Folhapress

Renan é o mais discreto dos filhos homens de Jair Messias Bolsonaro, 63, que usa números, à moda militar, para se referir à sua prole (zero-um e por aí vai). Pois zero-quatro agora ensaia sair do casulo. 

“Não sou de aparecer na mídia, mas me senti à vontade para fazer este vídeo”, diz o jovem franzino que dias depois, nas redes sociais de amigos, seria chamado de #mitinho da #famíliabolsokid.

Mas guerra é guerra. “A partir de hoje estou nesta luta junto com meus pais, junto com meus irmãos, junto com o Brasil”, anunciou Renan em vídeo postado no Twitter uma semana após o “atentado terrorista” contra seu pai. 

Renan é o caçula dos filhos homens do presidenciável do do PSL —tem ainda Laura, 7, a menina que Bolsonaro teve após dar “uma fraquejada” depois de quatro herdeiros machos, piada que soltou numa palestra em 2017 e que até hoje o indispõe com boa parte do eleitorado feminino.

Os irmãos mais velhos, filhos da primeira mulher de Bolsonaro, estão todos na política: Flávio, 37, é candidato ao Senado no Rio, Carlos, 35, está no quinto mandato como vereador da capital fluminense, e Eduardo,  34, é colega do pai na Câmara dos Deputados, representando São Paulo. 

E não tenha dúvidas de que Renan enveredará pelo mesmo caminho. Sua mãe, ao menos, parece confiante nisso. “Com certeza! Tá no sangue dele”, diz Ana Cristina Valle, 51, segunda esposa de Bolsonaro. 

Em agosto, mãe e filho foram à formatura de cadetes da Aman (Academia Militar das Agulhas Negras), que nos anos 1970 deu a Bolsonaro o diploma das Forças Armadas. De terno azul celeste, Renan acompanhava de longe o pai, em típico dia de campanha.

Filmou com o celular quando Bolsonaro falou a jornalistas que o Brasil sairia da “ONU comunista” se ele assumisse o Planalto.  A Folha tentou abordar Renan, presença bissexta em atos paternos. Seu irmão Eduardo pediu rindo que o irmão fosse deixado em paz. “Dá dois anos para ele falar.”

Em dois anos o país terá nova eleição, a municipal, lembrou a reportagem. Renan ensaiará a via política? O caçula riu e acenou, sem mais dizer. A idade mínima para ser vereador é 18; para deputado, 21.

Renan prefere não falar com a Folha. Por WhatsApp, a mãe diz que o futuro político está nas mãos de Bolsonaro. “Kkkkkkk, muito sedo [sic] para falar nisso, está pergunta tem que ser para o pai.”

Em Resende moram Renan, Ana Cristina e o marido dela, um norueguês.  A família foi às ruas da cidade no domingo (16) para fazer um ato pelo ex-marido da candidata. Ela vestia uma camisa onde se lia “mulher inteligente vota em Bolsonaro para presidente” (em rosa). Desfilava ao lado de Vyvian Melo, 28, de quem foi madrinha de casamento.

Vyvian é trans, e a amiga aponta isso como evidência de que o clã Bolsonaro não é homofóbico, como dizem por aí.

“Ela não gosta da arminha, mas eu faço”, Ana Cristina afirma e simula com as mãos uma pistola, gesto popular de Bolsonaro que Vyvian, embora o apoie, dispensa —por ver como uma “apologia ao crime”. A amiga não tem uma arma, mas diz que, se o porte for liberado ela comprará uma e aposentará o taco de beisebol que preserva ao lado da cama, para se sentir segura.

Chefe de gabinete de um vereador em Resende, Ana Cristina conheceu Bolsonaro  quando trabalhava no gabinete de outro deputado em Brasília. Tiveram uma união estável, se separaram há 11 anos, e hoje o capitão reformado está no casado com Michelle.

Ela é especialista em direito militar, área na qual se aprofundou “para ajudar Bolsonaro”, quando os dois eram um casal, conta. É também candidata a deputada federal pelo Podemos, ao qual se filiou a convite de Romário. Nome de urna: Cristina Bolsonaro.  

“Minha filha, esse negócio vicia igual droga”, ela diz à Folha. Fala de política, assunto que começa a fazer a cabeça do filho, “o mais alto dos Bolsonaros” (tem 1,91 m, seis centímetros a mais que o pai).

Renan inicia a caminhada distante do carro de som de onde a mãe discursa. Marcha de forma tímida, sem entoar nenhum dos gritos de guerra da multidão, nem o coro de “mito!” onipresente entre simpatizantes de Bolsonaro. 

Veste uma camisa branca com o rosto do pai e, quando enfim alguém o reconhece, já era: dezenas se aproximam em busca de uma selfie com o “mitinho”.  Seus seguidores no Twitter vêm aumentando exponencialmente: menos de mil antes do atentado para cerca de 8.400 até terça (18).

É contido na rede social. Só tuitou 16 vezes e curtiu 34 posts, a maioria relacionada de alguma forma à família. Em 2016, reproduziu um tuíte do irmão Carlos: “Já que imagem de celular não dá pra fumar, mostre isso a um amigo maconheiro que tem o hábito de usá-la e questione-o”. Seguia uma ilustração de Che Guevara, que “matou centenas de civis”,  “assassinava sexuais” e virou coqueluche da esquerda.

Em 2017, Renan foi citado numa troca de mensagens entre Jair e Eduardo durante a votação para a presidência da Câmara. E não de forma lisonjeira. Bolsonaro pai dá uma bronca no filho parlamentar, ausente na sessão. 

“Papel de filho da puta que você está fazendo comigo. Tens moral para falar do Renan? Irresponsável.” E Eduardo: “Quer me dar esporro tudo bem. Vacilo foi meu. Achei que a eleição só fosse semana que vem. Me comparar com o merda do seu filho, calma lá”.

Eduardo não atendeu a Folha para falar do caso, e Ana Cristina orientou: “É melhor você ver o que o Jair respondeu sobre isso, mas posso lhe falar que ele tem uma ótima relação com os irmãos”. 

E está disposto a se unir a eles para ajudar a eleger o pai, acamado após a facada. “Soldado que vai à guerra e tem medo de morrer é um covarde!”, diz o filho do capitão.
 

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