Descrição de chapéu Eleições 2018

Amoêdo busca espaço para o Novo na direita

Ex-banqueiro disputa Presidência enquanto tenta conter flerte de seguidores com Bolsonaro

Ricardo Balthazar
São Paulo

João Amoêdo entrou na corrida presidencial para dar impulso a um novo partido e sua plataforma liberal. Na reta final da campanha, sua maior preocupação era encontrar um lugar longe da sombra de Jair Bolsonaro.

Com 3% das intenções de voto nas pesquisas eleitorais, o candidato do Partido Novo foi pressionado de forma intensa por apoiadores a aderir à onda conservadora que fez o capitão reformado do Exército crescer nas últimas semanas.

Nas redes sociais, território em que Amoêdo mobilizou mais de 2 milhões de seguidores para divulgar suas ideias, tornaram-se frequentes as mensagens de eleitores que se dizem inclinados a trocá-lo por Bolsonaro para impedir a volta do PT ao poder.

Quando começaram a circular boatos sobre Amoêdo, segundo os quais estava negociando com Bolsonaro cargos no futuro governo em troca de apoio no segundo turno, o ex-banqueiro responsabilizou o adversário por espalhar o rumor e bateu boca na internet com um dos filhos do capitão.

Na terça (2), ao final de um debate, o candidato do Novo a governador de Minas Gerais, Romeu Zema, pediu votos para Bolsonaro, não só para Amoêdo. A direção da legenda o repreendeu no dia seguinte, lembrando o compromisso que seus filiados têm com a disciplina partidária.

Amoêdo acha que dificilmente a eleição será liquidada no primeiro turno e disse nesta quarta (3) que os rumos do Novo no segundo turno serão definidos pela cúpula do partido após avaliação dos programas dos candidatos que chegarem à segunda rodada.

Ele indica que só restaram ao partido duas opções, o apoio a Bolsonaro e a neutralidade. “O PT não reconhece seus erros e não merece crédito”, diz. “Mas Bolsonaro nunca contribuiu para nada em duas décadas de atividade parlamentar, e é difícil imaginar que alguma mudança venha daí.”

Em agosto, o Novo foi o autor da primeira ação movida para impedir o PT de apresentar o ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva como candidato na propaganda eleitoral, antes de sua substituição por Fernando Haddad. Na semana passada, a sigla moveu a ação que levou o ministro Luis Fux, do Supremo Tribunal Federal, a impor censura à Folha e impedir Lula de dar entrevista ao jornal na prisão.

Amoêdo, 55, decidiu entrar na política depois de acumular fortuna trabalhando no mercado financeiro e sobreviver a um câncer no sistema linfático. O tratamento da doença, em 2009, o obrigou a se afastar de suas atividades por quase um ano e, segundo os amigos, o levou a repensar a vida.

Carioca, formado em engenharia e administração de empresas, Amoêdo trabalhou por 25 anos no mercado. Começou como trainee no Citibank e fez carreira no antigo banco de investimentos BBA Creditanstalt, que depois foi incorporado pelo Itaú Unibanco. Com a criação do Novo, deixou o conselho do Itaú BBA em 2015 e se afastou do setor.

Ao registrar sua candidatura no Tribunal Superior Eleitoral, ele declarou patrimônio de R$ 425 milhões, o que fez dele o segundo candidato mais rico na campanha deste ano. Diz que já tirou R$ 4,5 milhões do bolso para financiar o Novo e pretende gastar R$ 1 milhão na própria campanha. 

“Ainda que não concorde com suas ideias mais radicais, vejo com alegria a coragem que João teve de dar tempo e dinheiro para uma tarefa tão importante para o país”, diz o banqueiro Fernão Bracher, um dos fundadores do BBA.

Fundado em 2011, o Novo só teve o registro aprovado pelo TSE em 2015. Elegeu quatro vereadores nas eleições de 2016 e participa pela primeira vez de uma disputa nacional, com cinco candidatos a governador e centenas de candidatos à Câmara dos Deputados e às Assembleias Legislativas.

A cartilha do partido segue a orientação liberal de Amoêdo e inclui propostas como o fim do voto obrigatório e do uso de recursos públicos para financiamento dos partidos políticos, a privatização dos presídios, a liberação do porte de armas e a concessão de bolsas para estudantes pobres em escolas particulares.

O Novo criou um processo seletivo para escolher seus candidatos, submetendo todos a provas, aulas e entrevistas para garantir que apenas aqueles afinados com seus princípios fossem indicados. Dos 380 que concorrem à Câmara e às Assembleias, 90% disputam sua primeira eleição.

Mas o filtro não impediu que o partido tivesse problemas. Em São Paulo, um candidato a deputado federal ilustrou com uma caixa de munição o material de campanha em que pregava “tolerância zero” contra a esquerda e a “bandidagem no campo”. A direção do partido o convenceu a recolher a peça de propaganda.

Na Paraíba, outro candidato fez campanha prometendo que os fazendeiros teriam direito a “tanques de guerra” para se proteger e defendendo o tratamento do aborto como homicídio qualificado, com penas mais duras e o fim das exceções admitidas pela lei. A direção do Novo reclamou, mas ele manteve o discurso.

Antes da campanha, o partido tentou filiar deputados para ampliar o exíguo tempo disponível para o Novo no horário de propaganda eleitoral. Mas nenhum dos políticos contatados aceitou se submeter às restrições impostas pela sigla, como limites à reeleição e ao uso de recursos públicos. 

“Os partidos tradicionais estão desacreditados e queremos trazer gente diferente para a política”, diz Amoêdo. Ele aposta que conseguirá eleger até 15 deputados federais neste ano e terá votos suficientes para ultrapassar a cláusula de barreira criada pela legislação para inibir partidos pouco representativos.

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