Descrição de chapéu Eleições 2018

Bolsonaro é onipresente em igreja de esposa e culto de 'cabra-machos'

'Meu partido é o Brasil', disse no púlpito pastor do templo frequentado por Michelle Bolsonaro

Anna Virginia Balloussier
Rio de Janeiro

Há algo de profético no nome do congresso, Homens Vencedores, campeões como assim o seria o candidato à Presidência que a maioria absoluta dali apoia, aposta o diácono Márcio Lapedo, 51.

Desnecessário perguntar qual. O nome de Jair Bolsonaro (PSL) está na camisa de Márcio, que lidera uma igreja em Duque de Caxias (RJ), e na de muitos outros fiéis que lotam a sede da Assembleia de Deus Vitória em Cristo, sob comando do pastor Silas Malafaia, no sábado (6), véspera do dia de ir às urnas.

Diácono Márcio Lapedo, 51, que lidera uma igreja em Duque de Caxias (RJ)
Diácono Márcio Lapedo, 51, que lidera uma igreja em Duque de Caxias (RJ) - Anna Virginia Balloussier/Folhapress

Exclua a repórter e a moça que vendia camisetas da igreja, ali estão "5.000 homens cabra-macho, macho-homem, porque tem macho e fêmea, o resto é arranjo", como diz Malafaia no púlpito, uma das várias tiradas que fazem dele um pária das causas progressistas.

Pesquisas Datafolha apontam que metade dos evangélicos optariam por Bolsonaro neste pleito, considerando só os votos válidos. Em quatro igrejas que a Folha visitou no Rio, camisas com o rosto do candidato eram o segundo item mais popular, depois da Bíblia.

"Meu partido é o Brasil", diz no púlpito, neste domingo (7) de eleição, o pastor Josué Valandro Jr. Palavras associadas à campanha bolsonarista e que também estampam camisetas verde-amarelas de fiéis, com borrões vermelhos para simular a facada que o capitão reformado levou. 

Josué lidera a Batista Atitude, igreja de Michelle Bolsonaro, e não para por aí suas deferências ao marido da seguidora. 

Pastor Josué Valandro Jr, na Igreja Batista Atitude, no Rio de Janeiro - Zo Guimaraes /Folhapress

"Que hoje seja eleito um patriota, seja eleito gente honesta, que ama a nação, a família, o povo. Que hoje uma página seja virada no Brasil. [...] Que as profecias feitas sobre o Brasil venham a ser cumpridas”, afirma o pastor, que já recebeu Bolsonaro na Atitude —a lei eleitoral proíbe que candidatos façam campanha em “bens públicos de uso do povo”, e as igrejas se enquadram nessa categoria, assim como estádios e cinemas, por exemplo. 

"Você não é do PT, é?”, questiona Luiz Cláudio Almeida, 53, fiel que, ao saber que a única mulher no salão da Assembleia de Malafaia era na verdade jornalista, se desculpa. “É que petista não gosta da gente. Fizeram aquela manifestação fascista.”

A Folha pergunta por que ele classifica assim o ato de mulheres que pedia o fim do fascismo por elas atribuído a Bolsonaro. Luiz diz que havia no meio um cartaz pedindo morte aos cristãos, “vi no Facebook” —uma das várias imagens, muitas delas fake, sobre a manifestação que encharcaram as redes sociais de evangélicos, como fotos de ativistas seminuas e beijos gays.

Diácono Márcio Lapedo, 51, que lidera uma igreja em Duque de Caxias (RJ)
Diácono Márcio Lapedo, 51, na Assembleia de Deus de Silas Malafaia - Anna Virginia Balloussier/Folhapress

Deputado reeleito com a bênção (e a reboque da popularidade virtual) de Malafaia, Sóstenes Cavalcante (DEM-RJ) não tem dúvida: “O #EleNão acabou ajudando pra caramba”. Artistas que endossaram o protesto “são muito destoadas da dona de casa, do verdadeiro reflexo da mulher brasileira”, afirma.

"A declaração sobre a filha, mesmo em tom de brincadeira, não foi recheada de felicidade”, diz sobre a palestra no clube Hebraica em que Bolsonaro culpou uma “fraquejada” pela única filha mulher que teve, depois de quatro rapazes. Mas dos males o menor. 

Um complemento ao raciocínio de Luiz Cláudio. Minutos antes, o fiel contava que as mulheres que conhece no Irajá, periferia carioca, “estão mais preocupadas se os filhos são ameaçados pela ideologia do gênero”, se o Joãozinho vai virar Mariazinha “na marra”.

Sóstenes, que é membro da bancada evangélica na Câmara, conta que participa de “mais de 500 grupos de direita” no WhatsApp, e é deles que tira esta certeza: o PT está de parabéns, pois “conseguiu um feito que nem Jesus conseguiu, unir todos os evangélicos”.

Isso por ter dado destaque, sobretudo no governo Dilma, a questões de gênero. E, se em algum momento sonhou com o voto evangélico, o partido fez uma grande lambança ao escolher justo Fernando Haddad como seu presidenciável, segundo Malafaia.

"Haddad foi o autor do ‘kit gay’, e aí nós deitamos e rolamos, jantamos o Haddad no mundo evangélico.” Refere-se ao pacote encomendado em 2011 pelo Ministério da Educação, então sob guarda do petista, para orientar professores a combater a homofobia em sala de aula.

Malafaia lembra que no passado foi “Lula lá”, e, veja só, “reincidente”. Já televangelista famoso, em 1989 apoiou Leonel Brizola e, no segundo turno, o PT, enquanto colegas como Edir Macedo foram de Fernando Collor.

Em 2002, conta, apareceu no horário eleitoral do petista: ele rodeado de pastores numa churrascaria da Tijuca (zona norte do Rio). Mas o partido decepcionou pela corrupção e por forçar temas morais, diz. Não pegou bem com a “família brasileira”.

E, se Bolsonaro cresceu, pode mandar um cartão de “obrigado” à imprensa, diz. Ela deu “um atestado de imbecilidade ao povo brasileiro” ao pegar pesado com ele, afirma Malafaia —que prega “na morada de Deus, sua igreja. Ironiza: estamos no “Minha Casa, Minha Vida”, e é melhor aquele que crê ocupar logo, ou já sabe: “Habitai, ou o MST toma”.

O pastor acusa a mídia de agir como ativista. Faltaria a ela entender que o “monopólio da informação” já era, “e eles não estão entendendo isso”. Aponta para celulares dos fiéis. Reproduziria no dia seguinte, em seu Twitter, desconfianças de fraude eleitoral e, consolidado o primeiro lugar de Bolsonaro, escreveria: “As redes sociais derrotaram a imprensa parcial. kkkkkkkkk muito”. 

Para o pastor Josué, o militar reformado chegou onde chegou porque "uma esquerda desrespeitosa” decidiu “nos tratar como se fossemos ignorantes que aceitam o que fazem com pessoas de bem".

Esqueceu, diz à Folha, "que a igreja tira muito mais gente do tráfico do que o governo” e chega em rincões que nada lembram as bolhas progressistas da zona sul carioca. "Meu Brasil é muito maior do que a  bandeira vermelha. Em manifestações de esquerda eles não cantam o Hino Nacional."

As apologias ao regime militar que salpicam a oratória bolsonarista, como homenagens ao coronel Brilhante Ustra, chefe da repressão, não o assustam. "Ninguém quer a volta da ditadura. Agora, [Nicolas] Maduro é o que? E Cuba? Não terem um sabonete lá? Como a esquerda se diz mais inteligente e progressista?"

Uma fiel chega e diz que vai da igreja direto para a zona eleitoral. "Adivinha em quem vou votar?" Josué ri. "Acho que já sei." 

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