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Espremidos pela polarização da disputa, candidatos atacam Bolsonaro e o PT

Com papel da TV na campanha em xeque, questão é mensurar impacto da ausência do líder no debate

Igor Gielow
São Paulo

Sem espaço para manobra devido à polarização que marca a campanha, os candidatos presentes ao debate da Globo fizeram o possível: criticar a ausência de Jair Bolsonaro (PSL), cuja entrevista concedida à TV Record nesta mesma quinta (4) virou argumento contra a alegação de que o candidato líder das pesquisas não podia comparecer ao debate por ordens médicas.

Da esquerda para a direita, Meirelles, Dias, Ciro, Boulos, Alckmin, Marina e Haddad
Da esquerda para a direita, Meirelles, Dias, Ciro, Boulos, Alckmin, Marina e Haddad - Daniel Ramalho/AFP

Numa corrida em que o papel do horário gratuito de rádio e televisão foi colocado em xeque, dado o desempenho anêmico na disputa do líder no quesito, Geraldo Alckmin (PSDB), a questão central é mensurar o impacto da ausência sobre a onda de apoio a Bolsonaro registrada nesta semana pelo Datafolha.

O deputado se recupera de uma facada levada no mês passado em ato de campanha. Sua entrevista à Record, num movimento calculado de disputa por audiência, durou 25 minutos e foi veiculada no mesmo horário do começo do debate.

A linha de ataque a Bolsonaro foi dupla. A ausência em si, que Marina classificou de "amarelada", foi explorada em duas perguntas sequenciais entre Ciro Gomes (PDT) e Henrique Meirelles (MDB). A sequência de contradições na equipe de campanha do deputado, como a desautorização das falas do seu vice, Hamilton Mourão, foram lembradas.

Guilherme Boulos (PSOL), que registrou 0% no Datafolha mas estava presente pela linha de corte de seu partido no Congresso, pregou a convertidos ao fazer um discurso sobre o temor da volta da ditadura caso Bolsonaro vença. Fez em vários momentos dobradinha com Fernando Haddad, o candidato do PT que está isolado em segundo lugar nas pesquisas e hoje iria ao segundo turno contra Bolsonaro.

Não sem significado, o presidenciável do PSL foi poupado apenas por Alvaro Dias (Podemos), que segundo especulações irá se alinhar a Bolsonaro num segundo turno. Franco-atirador, Dias protagonizou, contudo, a principal altercação do debate.

Foi quando, ao questionar Haddad, acusou o PT de ser um partido de ladrões, citando o petrolão, e provocou pessoalmente o candidato ao dar-lhe um bilhete com uma pergunta para ele levar ao ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva na cadeia. Afinal, disse o senador, Haddad só estava lá como "representante" de Lula, algo que nem o próprio candidato conseguiu rebater.

Demonstrando mais contrariedade do que indignação, Haddad cobrou "compostura" de Dias. Como no debate da Folha, UOL e SBT na semana passada, o petista teve dificuldade em esconder o nervosismo em linguagem corporal ao ser inquirido. Contra Marina, que cobrou autocrítica do PT, elevou o tom da voz quase ao ponto do grito.

Teve momentos melhores, como quando trocou amenidades com Ciro, de olho no eleitorado do pedetista no eventual segundo turno. Acenando aos evangélicos cujas lideranças vêm se alinhando a Bolsonaro, despediu-se dizendo ser "neto de líder religioso". Sem Cabo Daciolo e sua Bíblia no palco, coube também à evangélica Marina Silva introduzir mais Deus na noite, lembrado "en passant" por Alckmin, nas suas considerações finais.

Como seria previsível devido à ausência de Bolsonaro, não houve nenhum embate entre presidenciáveis que derrubasse adversário. Houve uma série de discussões programáticas que, a essa altura de uma campanha marcada pela disputa entre petismo e antipetismo, se tornam truísmos.

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