Descrição de chapéu Eleições 2018

PT tem menos votos do que em 2014 em 69% das cidades brasileiras

Maior perda foi em Belford Roxo (RJ), onde discurso de combate à violência de Bolsonaro atraiu a população

Santinhos espalhados pelo chão em frente a escola em Belford Roxo, quarto maior colégio eleitoral do estado do Rio. Cidade vive realidade violenta e aderiu a Bolsonaro neste ano
Santinhos espalhados pelo chão em frente a escola em Belford Roxo, quarto maior colégio eleitoral do estado do Rio. Cidade vive realidade violenta e aderiu a Bolsonaro neste ano - Ricardo Borges - 2.out.2016/Folhapress
Rio de Janeiro , Salvador e São Paulo

A violenta Belford Roxo, município na Baixada Fluminense (RJ) com população estimada em 508 mil habitantes, foi a cidade brasileira onde o PT teve a maior queda percentual na votação para presidente entre as eleições de 2018 e 2014.

Segundo levantamento da Folha, no pleito passado, a então candidata Dilma Rousseff (PT), obteve 74,82% dos votos válidos. Já na disputa deste ano Fernando Haddad teve apenas 31,12% dos votos válidos —numa queda de 43,7 pontos percentuais.

Sem pisar na cidade durante a campanha eleitoral, o presidente eleito Jair Bolsonaro (PSL) foi a escolha de 68,88% do eleitorado local.

A situação não é diferente no restante do país. Ao todo, o PT teve menos votos que em 2014 em 3.829 cidades brasileiras –68,7% total– e teve mais votos do que na última eleição em outros 1.737 municípios.

Em 4 cidades, a votação do partido foi rigorosamente igual à de quatro anos atrás.

Em Belford Roxo, o discurso de combate à violência e o desejo pela mudança na política foram os motivos que levaram à população a optar pelo capitão da reserva em detrimento do candidato do PT, mesmo com um legado de investimentos sociais.

A cidade tinha, em outubro deste ano, 48 mil famílias beneficiárias do Bolsa Família, cerca de 24% da população local. Na última década, cinco condomínios do Minha Casa Minha Vida foram erguidos na cidade.

Em contrapartida, a taxa de homicídios em setembro esteve em 33 casos por 100 mil habitantes, acima da média do estado do Rio como um todo, de 23 homicídios na mesma base comparativa.

Folha visitou o município nesta terça-feira (30) e foi orientada pelas autoridades locais a não circular nos bairros da periferia da cidade.

Belford Roxo viveu na última década um êxodo de criminosos expulsos de comunidades do Rio com as UPPs (Unidades de Polícia Pacificadora). Estão presentes na cidade as três principais facções de tráfico e meia dúzia de grupos milicianos.

Na cidade, os sinais de que a violência tem lugar cativo são visíveis. A sede da Delegacia de Homicídios da Baixada Fluminense, por exemplo, fica separada por uma rua da boca de fumo da favela do Castelar, uma das mais violentas da região.

Em março, o secretário de Defesa Civil da cidade, Marcos Wander Silva de Oliveira, 43, foi morto a tiros numa tentativa de assalto dias depois de uma professora da rede pública do município ser baleada em um arrastão. 

A 35 quilômetros do centro do Rio, a cidade é dormitório para trabalhadores da capital, mas não tem muitas opções de educação, cultura e lazer.

Segundo moradores, Bolsonaro despertou a esperança de que a violência daria uma trégua na região, algo que disseram não ter ouvido de seu principal adversário na disputa eleitoral.

Nascido e criado na cidade, o camelô Rafael Antônio da Silva, 26, explicou que o legado social do PT não se sustentou no voto porque a sensação geral, com a crise econômica e a violência, é de passo atrás.

"O filho do pobre aqui realmente fez faculdade, curso técnico, mas foi trabalhar no Uber porque o país quebrou e não tem emprego na área. O soberano às vezes perde a mão", disse ele, que deu voto em Bolsonaro, tendo optado por Dilma na eleição passada.

Já para o vendedor Vitor Souza, 24, "as opções eram mais do mesmo", o que favoreceu a escolha por aquele que apresentou o discurso mais forte contra a criminalidade.

O resultado eleitoral em Belford Roxo foi similar em diversos outros locais da Baixada Fluminense, como Queimados, Japeri, Duque de Caxias e Nova Iguaçu. Das 15 cidades que tiveram a maior queda de votação no PT entre 2014 e 2018, 14 ficam no estado do Rio.

Além do Rio de Janeiro, cidades de Minas Gerais, Santa Catarina e Rondônia estão entre as que o PT mais perdeu votos entre 2014 e 2018.

Na avaliação do sociólogo Jorge Alexandre Neves, professor da UFMG (Universidade Federal de Minas Gerais), a recessão fez com que a população de cidades com maior nível socioeconômico se desencantasse com o PT e migrasse para Jair Bolsonaro.

“A parte mais rica de Minas abandonou o PT. São pessoas ascenderam socialmente, mas hoje enfrentam problemas como desemprego e queda na qualidade de vida”, explica.

Segundo o professor, mesmo tendo um perfil mais conservador, as pequenas cidades mineiras votam de forma pragmática. “Não é um voto ideológico”, afirma o professor.

Entre as capitais, Manaus foi a qual o PT perdeu mais votos nos últimos quatro anos. Em 2014, Dilma teve 56,43% dos votos enquanto Haddad teve apenas 34,28% este ano.

“O PT nunca foi forte no Amazonas, quem era forte era o Lula. Mas há algum tempo que essa liderança vem caindo, se perdendo”, afirma o prefeito de Manaus Arthur Virgílio Neto (PSDB).

As 1.737 cidades onde o PT ampliou a votação para a Presidência da República da eleição deste ano concentram-se no Nordeste e do Norte.

Foi em Jacareacanga, cidade de cerca de 40 mil habitantes do sudoeste do Pará, onde o PT teve o seu maior crescimento. Em 2014, Dilma havia conquistado apenas 37,95% dos votos enquanto Haddad chegou a 75,49%.

Para o deputado federal eleito Airton Faleiro (PT), que tem base eleitoral na cidade, a resposta para tamanho crescimento pode estar associada ao perfil demográfico da cidade, que tem cerca de metade da população de origem indígena.“

Os Munduruku são muito ativos politicamente na região. Ficaram atemorizados com as propostas de Bolsonaro para os povos indígenas”, afirma.

Lucas Vettorazzo, João Pedro Pitombo e Daniel Mariani
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