Descrição de chapéu Governo Bolsonaro

Apesar da rigidez militar, transição de Bolsonaro dá sensação de improviso

Reunida desde novembro, equipe do presidente eleito trabalha em ambiente restrito, com rotina intensa e, por vezes, desorganizada

Marina Dias Thais Bilenky
Brasília

Os passos são apressados no corredor do primeiro andar do prédio que abriga o governo de transição de Jair Bolsonaro (PSL), em Brasília.

Entre saudações a coronéis e generais —habitués no surrado carpete azul em que circula a equipe do presidente eleito—, assessores de Onyx Lorenzoni (Casa Civil) e Sergio Moro (Justiça) precisam ser criativos para despachar questões internas com os chefes.

O presidente eleito, Jair Bolsonaro, em reunião com seus futuros ministros
O presidente eleito, Jair Bolsonaro, ao fundo, em reunião com seus futuros ministros - Rafael Carvalho - 19.dez.2018/Governo de transição

Aproveitam as escapadas dos futuros ministros até o banheiro, durante os intervalos das reuniões, para falar com eles sobre possíveis agendas e assuntos burocráticos.

O acesso é restrito até mesmo aos auxiliares mais próximos. Desde 5 de novembro, encontros a portas fechadas têm consumido quase 15 horas por dia dos nomes definidos para compor a linha de frente da nova Esplanada.

Mesmo em um governo sob rigidez militar, a sensação de arremedo tem dominado a transição de Bolsonaro.

Com todos os gabinetes funcionando no mesmo lugar, os futuros ministros se cruzam diariamente no corredor e cumprem uma dinâmica em ritmo muito mais intenso do que aquele que será estabelecido depois da posse —quando cada um terá sua própria estrutura ministerial.

Disperso e hiperativo, o presidente eleito não costuma se aprofundar nos assuntos de cada pasta, mas estabeleceu uma rotina de trabalho exaustiva e, muitas vezes, desorganizada para cobrar metas de seu primeiro escalão.

A principal delas: reduzir os gastos e até 30% dos cargos comissionados da União.

Onyx, Moro e Paulo Gudes (Economia) são dos mais assíduos no CCBB (Centro Cultural Banco do Brasil), onde funciona o governo de transição.

Com gabinetes próximos à área presidencial, reservada somente a quem possui crachás de cores cinza ou marrom, ficam a maior parte do tempo reunidos com suas equipes técnicas ou com o próprio Bolsonaro, que tem passado de dois a três dias por semana na capital federal.

À base mais poderosa do novo governo somam-se o vice-presidente eleito, general Hamilton Mourão (PRTB), e o general Augusto Heleno, que vai comandar o GSI (Gabinete de Segurança Institucional).

Os dois militares, porém, têm se incomodado com as movimentações e suspeitas contra Onyx, investigado no STF (Supremo Tribunal Federal) por suposto caixa dois.

Escalado para fazer a articulação política com o Congresso, o futuro chefe da Casa Civil nomeou deputados que não se reelegeram em 2018 para estabelecer a ponte com parlamentares.

Seu grupo inaugurou um novo esquema de toma lá, dá cá para fazer as nomeações do segundo e terceiro escalão do governo, que dispensa as tratativas diretas com presidentes e líderes dos partidos e negocia individualmente com deputados e senadores.

Mourão já expôs publicamente seu desconforto quando disse, no início deste mês, que Onyx terá que deixar o cargo se for comprovada qualquer ilicitude contra ele.

Heleno, por sua vez, é mais discreto, mas já comentou com pessoas próximas que está atento ao curral do ministro gaúcho.

Além dos núcleos militar e político há o familiar, formado pelos três filhos de Bolsonaro. 

Reeleito deputado federal pelo PSL, Eduardo é quem mais frequenta a transição.

Circula bem entre os funcionários e tem influenciado em decisões de política externa, como a escolha do futuro chanceler, Ernesto Araújo.

Flávio, que ocupará uma cadeira no Senado a partir de 2019, aparece menos, e Carlos, vereador no Rio, foi ao CCBB duas vezes desde novembro.

Quando estão no prédio, os filhos participam do almoço coletivo que Bolsonaro costuma fazer na sala de reunião.

Gosta de comer arroz, feijão, salada e bife e tenta aplacar o cansaço acumulado pela insônia com cochilos em seu gabinete, logo após frutas ou pudim de sobremesa.

O presidente eleito parece não se incomodar com o assédio dos técnicos e assessores da transição.

De tempos em tempos, sai da sala para cumprimentar os funcionários.

Quem reclama da falta de atenção são alguns dos deputados que aparecem no CCBB.

Dizem que não são recebidos ou, quando entram no gabinete, não ganham nem um aperto de mão de Bolsonaro.

Os mais experientes têm tomado cuidado extra com o que falam dentro nas salas, por medo de serem gravados.

Moro se incomoda com as abordagens. O ex-juiz da Lava Jato não deixa de atender aos pedidos de selfies pelos corredores mas, certa vez, alertou a um dos tietes: "Se ficar tirando foto, eu não trabalho".

Os pedidos ao futuro ministro da Justiça diminuíram, mas ele passou a realizar reuniões com sua equipe no térreo, em uma das três salas mais amplas usadas para entrevistas coletivas e encontro com bancadas partidárias.

Há duas semanas, o ex-juiz levou um susto ao entrar no espaço e não encontrar nenhuma cadeira.

Elas tinham sido levadas para o ambiente ao lado, onde a futura primeira-dama, Michelle, recebia pessoas com deficiência.

Moro é um dos poucos ministros que ainda almoça no restaurante do CCBB, aberto ao público. Sempre que assessores percebem a aproximação de um estranho ou tentativas de fotografá-lo, um auxiliar entra, literalmente, na frente para impedir a ação.

O núcleo duro da equipe de Bolsonaro, por sua vez, já quase não aparece publicamente. Entram e saem do CCBB de carro e, se almoçam fora do gabinete, optam por restaurantes como o Le Jardin, a poucos minutos dali.

No início da transição, não era assim. O presidente eleito falava com a imprensa —às vezes em mais de uma ocasião por dia. Onyx atendia a jornalistas e fazia anúncios quase que diários. E Guedes, ainda que não desse entrevista, tampouco era inacessível.

Com a proximidade da posse e as revelações sobre a movimentação bancária atípica de um ex-assessor do filho Flávio, como apontado pelo Coaf (Conselho de Controle de Atividades Financeiras), órgão hoje ligado à pasta da Fazenda, Bolsonaro submergiu, enquanto a equipe sob seu comando cresceu no período.

Logo após o segundo turno, eram 25 pessoas nomeadas na transição e 50 voluntários, que arcavam com despesas diárias e estadias.

Agora, são 50 comissionados e mais de 200 voluntários. A partir de janeiro, serão milhares.

Colaborou Daniel Carvalho

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