Descrição de chapéu Lava Jato

Enteado de Pezão é investigado por contratos com fornecedoras do RJ

Escritório de advocacia de Roberto Horta Jardim representou empresas com vínculos com o governo

Italo Nogueira
Rio de Janeiro

O enteado do governador afastado Luiz Fernando Pezão (MDB), preso na última quinta (29), é investigado sob suspeita de participar do esquema de arrecadação de propina no estado.

Roberto Horta Jardim é sócio de um escritório de advocacia que representa "mais de 50 construtoras e outras empresas contratantes com o estado", diz a Procuradoria-Geral da República. Ele foi alvo de busca e apreensão na Operação Boca de Lobo, que prendeu Pezão.

A suspeita é de que o enteado tenha estruturado um esquema de recebimento de propina e lavagem de dinheiro semelhante ao atribuído pela ex-primeira-dama Adriana Ancelmo. Ela já foi condenada em quatro ações penais vinculadas ao caso por ter emitido notas fiscais de seu escritório sem a prestação de serviço para justificar o repasse de dinheiro ilícito para o marido, o ex-governador Sérgio Cabral (MDB).

Entre os clientes da banca de advocacia de Horta Jardim está a JRO Pavimentação, cujos sócios Cláudio Vidal e Luiz Alberto Gomes Gonçalves também foram presos na operação. Eles são suspeitos de serem um dos responsáveis por receber parte da suposta mesada de R$ 150 mil pagas em dinheiro por Cabral a Pezão entre 2007 e 2014.

Relatório do Coaf (Conselho de Controle das Atividades Financeiras) apontam uma sequência de operações financeiras suspeitas da JRO que se intensificam a partir de 2015.

De acordo com o órgão, R$ 381,2 milhões foram movimentados de forma suspeita entre 2015 e 2018 em contas das empresas ou de pessoas vinculadas a ela. Entre 2004 e 2016, houve comunicação de saques em espécie de R$ 14,7 milhões.

Vidal e Gonçalves são amigos de Pezão. A JRO, fundada em 1997 em Juiz de Fora (MG), transferiu sua sede para Piraí, cidade do governador afastado, após a aproximação entre o trio. A empresa aumentou o número de contratos com o estado a partir da gestão Cabral.

Outro cliente do escritório Horta Jardim Advogados Associados é a Metalúrgica Valença, do empresário Ronald Carvalho. A firma atuou na montagem de UPAs (Unidades de Pronto Atendimento) ao longo da gestão Cabral. De acordo com o economista Carlos Miranda, gerente da propina do ex-governador, o empresário pagou vantagens indevidas ao grupo do emedebista.

Também já esteve no rol dos clientes da firma a Delta Construções, do empresário Fernando Cavendish. Ele foi condenado por lavar R$ 370 milhões para distribuir propina a políticos, entre eles Cabral.

A atuação do escritório se mistura com a atividade política de Pezão em 2014, quando Flávio Cautiero Horta Jardim Jr., sócio do enteado do governador afastado, se torna tesoureiro da campanha de reeleição em 2014.

A PGR vincula o grupo de Pezão ao de Cabral em razão de um email enviado por Luiz Carlos Bezerra, "homem da mala" de Miranda, ao empresário Cesar de Amorim, dono da empresa High End. A firma foi a responsável por instalar um sistema de som na casa de Pezão a mando de Cabral e recebeu entre 2007 e 2014 cerca de R$ 3 milhões dos operadores financeiros do ex-governador.

Na mensagem de Bezerra a Amorim, enviada em novembro de 2011, consta apenas um email de Flávio, sem qualquer outra informação. "Necessário, nesse contexto, o aprofundamento das investigações para conhecer a real intenção da indicação do escritório por Carlos Bezerra a César de Amorim", afirma PGR.

A atuação profissional do filho de Pezão é conhecida desde 2014. Ele chegou a ser questionado sobre o tema durante a campanha ao governo.

Ele defendeu o enteado, afirmou que o advogado não atuava em causas contra o Estado e que as empresas representavam só 2% do faturamento do escritório. Pezão também se disse orgulhoso por não ter de buscar emprego público para o enteado se sustentar.

Em 2015, ele foi nomeado como subprefeito pelo então prefeito Eduardo Paes, à época no MDB.

Outro lado

O advogado Flávio Horta Jardim Jr. negou que o escritório represente "mais de 50 construtoras", como afirma o Ministério Público Federal.

"A afirmação não é verdadeira e nem próxima de ser. Temos a relação de nossos clientes, que me arrisco a dizer que nunca passaram de dez, incluindo empresas do ramo de cosméticos, editoriais, planos de saúde, sendo que em nenhum caso tivemos qualquer atuação em processo que figurasse o estado como interessado", disse o advogado.

Ele repudiou a suspeita da Procuradoria de que o escritório emitiu notas fiscais sem a prestação de serviços.

Em relação à JRO, ele afirmou que a firma recebeui R$ 2.000 por mês entre 2010 e 2012 para atuar em processo trabalhistas. Já a Delta, disse Horta Jardim Jr., pagou R$ 70 por processo trabalhista acompanhado pela banca. Negou ainda que a Metalúrgica Valença seja cliente do escritório.

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