Descrição de chapéu Folha, 98

Folha se destaca por cobertura crítica dos presidentes

Jornal apontou irregularidades de governos como Sarney, Collor, FHC, Lula, Dilma e Temer

São Paulo

Em consonância com seu projeto editorial, que prevê pluralismo, independência e apartidarismo, a Folha mantém uma postura crítica em relação aos candidatos à Presidência e aos ocupantes do Palácio do Planalto.

Com diferentes graus de veemência, tanto os mandatários quanto os aspirantes ao poder federal costumam se queixar de reportagens publicadas pelo jornal.

Em 2018, Jair Bolsonaro (PSL) não esperou ser eleito para iniciar os ataques.

Em 18 de outubro, dez dias antes do segundo turno, a Folha revelou que empresas estavam comprando pacotes de disparos em massa de mensagens contra o PT no WhatsApp. A prática é ilegal.

Três dias depois, o então candidato discursou: “Sem mentiras, sem ‘fake news’, sem Folha de S.Paulo. Nós ganharemos esta guerra. Queremos a imprensa livre, mas com responsabilidade. A Folha de S.Paulo é o maior [sic] ‘fake news’ do Brasil”.

Um dia depois da sua vitória sobre o candidato Fernando Haddad (PT), Bolsonaro retomou os ataques, desta vez em entrevista ao Jornal Nacional, da Rede Globo.

“Não quero que [a Folha] acabe. Mas, no que depender de mim, imprensa que se comportar dessa maneira indigna não terá recursos do governo federal”. Depois, completou: “Por si só esse jornal se acabou”.

Ele fazia referência a uma reportagem da Folha de janeiro de 2018. O jornal havia revelado que Bolsonaro usava verba da Câmara para pagar Walderice dos Santos da Conceição, a Wal. 

Ela figurava desde 2003 como funcionária do gabinete do deputado federal, recebendo salário de R$ 1,3 mil ao mês, mas vendia açaí em uma barraca vizinha à casa de veraneio dele em Mambucaba (RJ). Só foi exonerada em agosto.

William Bonner, apresentador do Jornal Nacional, reagiu: “A Folha é um jornal sério, um jornal que cumpre um papel importantíssimo na democracia brasileira”.

Essa relação conflituosa entre presidentes e presidenciáveis, de um lado, e a Folha, de outro, não é nova.

Na campanha de 1989, o candidato Fernando Collor de Mello (então no PRN) foi foco de reportagens sobre indícios de irregularidades em suas gestões como prefeito de Maceió e governador de Alagoas.

Em 23 de março de 1990, oito dias depois de tomar posse, Collor determinou que a Receita e a Polícia Federal invadissem o jornal, sob a alegação de uma devassa fiscal.

Quatro meses depois da invasão ao jornal, a Folha denunciou a contratação de agências de publicidade pelo governo federal sem licitação. Como consequência, o presidente processou por calúnia o diretor de Redação, Otavio Frias Filho, e outros três jornalistas da Folha. 

Depois da queda de Collor, assumiu o vice Itamar Franco, tampouco poupado pelo jornal. Em 1993, Itamar disse desejar que o seu sucessor encontrasse “uma imprensa mais compreensiva”.

O sucessor foi justamente um ministro de Itamar. Fernando Henrique Cardoso (PSDB) exerceu o poder ao longo de dois mandatos (1995-2002).

“Nenhum presidente, talvez só Getúlio, foi alvo de tanta agressividade de certos setores da mídia. Não esqueça que a Folha fez uma edição de várias páginas com argumentos para o impeachment, por causa do episódio da escuta telefônica”, afirmou à revista Veja em novembro de 2002. 

FHC referia-se à reportagem publicada pelo jornal em maio de 1999, que expôs a íntegra dos grampos ilegais no BNDES. Em um dos diálogos, o tucano admitiu o uso do seu nome para ajudar um consórcio no leilão da Telebrás.

Logo depois de FHC, Luiz Inácio Lula da Silva (PT) também cumpriu dois mandatos (2003-2010). Um dos períodos de maior tensão do seu governo se deu em decorrência da entrevista de Roberto Jefferson à Folha. O então deputado federal disse que o PT pagava um mensalão de R$ 30 mil a parlamentares em troca de apoio no Congresso.

Quando comparado a FHC, Lula questionou menos a Folha publicamente. No entanto, ao final do segundo mandato, em 2010, o petista recordou magoado um almoço de oito anos antes, no jornal.

“O diretor da Folha perguntou para mim: ‘Escuta aqui, candidato, o senhor fala inglês?’”, afirmou, referindo-se a Otavio Frias Filho. “Eles achavam que o [Bill] Clinton não tinha obrigação de falar português. Era eu, o subalterno, o país colonizado, que tinha que falar inglês. Peguei o elevador e fui embora.”

O diretor de Redação replicou à época que Lula “não foi interpelado sobre falar ou não inglês, mas sobre o fato de ostentar desprezo pelo estudo”. Em entrevista em agosto de 2018, dias antes de morrer, Otavio lembrou o episódio, mantendo a discordância, e contou ter visitado o ex-presidente no ano retrasado após a morte de sua mulher, Marisa.

Em outubro de 2017, ainda em liberdade, o já ex-presidente reclamou de pesquisa do Datafolha que questionou eleitores sobre sua prisão.

Em suas críticas à imprensa, Dilma Rousseff (PT) evitava nomear os veículos aos quais se referia. Em algumas situações, divulgou notas para “repudiar fatos inverídicos”.

Esse tom mais moderado foi mantido por Michel Temer (MDB), que assumiu após o impeachment de Dilma.

Embora seu governo tenha sido afetado por denúncias, como a que levou à queda do ministro Geddel Vieira Lima, em 2016, Temer evitou, de modo geral, ataques públicos aos veículos de comunicação. 

10 escândalos revelados pela Folha

Sarney 1985-1990
1987 - Folha revela que concorrência da ferrovia Norte-Sul foi fraudada. Antes do anúncio da licitação, jornal publicou a lista das 18 empreiteiras vencedoras

Collor 1990-1992
1990 - Jornal mostra que governo havia contratado agências de publicidade sem licitação para fazer a propaganda oficial

Itamar 1992-1994
1994 - Planalto atropela estudos técnicos da Caixa e libera financiamento para venda de cerca de 300 mil casas populares com fins eleitorais

FHC 1995-2002
1997 - Gravações obtidas pela Folha revelam que deputados federais venderam seus votos por R$ 200 mil para apoiar emenda que permitia a reeleição de FHC 

1999 - Jornal publica íntegra dos grampos ilegais do BNDES. Num diálogo, FHC admite o uso de seu nome para ajudar um consórcio no leilão da Telebras

Lula 2003-2010
2005 - Roberto Jefferson diz à Folha que o PT pagava um mensalão de R$ 30 mil a deputados em troca de apoio no Congresso. Revelação provoca queda de José Dirceu e de toda a cúpula do partido

2009 - Jornal revela que governo atrasou pagamento da restituição do IR a milhões de brasileiros para compensar queda na arrecadação

Dilma 2011-2016
2014 - Reportagem mostra que governo adiou divulgação de dados sobre educação e arrecadação de impostos para evitar danos à campanha de reeleição da petista

Temer 2016-2018
2016 - Marcelo Callero, ex-ministro da Cultura, acusa Geddel Vieira Lima, braço direito de Temer, de tê-lo pressionado a liberar projeto imobiliário. Furo leva à queda de Geddel 

Bolsonaro 2019
2019 - Folha revela existência de esquema de candidaturas laranjas do PSL, partido presidido por Gustavo Bebianno entre janeiro e outubro de 2018. Dias depois, Bolsonaro demite Bebianno

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