Descrição de chapéu Folha, 98

Folha organiza mesas com colunistas e recebe leitores

Eventos abordam temas atuais e também discutem a atuação do jornal

São Paulo

Na semana em que completou 98 anos, a Folha organizou uma série de debates diários com colunistas, a partir da segunda-feira (18), e promoveu um Encontro com Leitores, na terça (19), dia do aniversário, seguido de visita à Redação. 

“A nossa ideia é aproximar os leitores, os colunistas e a nossa Redação”, disse Maria Cristina Frias, diretora de Redação da Folha, na abertura do primeiro dia de eventos.

Na conversa com leitores,  Clóvis Rossi e Mônica Bergamo, com mediação de Sérgio Dávila, editor-executivo do jornal, falaram da relação do jornal com seu público e responderam a perguntas.

Rossi lembrou que Octavio Frias de Oliveira (1912-2007), publisher da Folha, referia-se ao leitor como “Sua Excelência”:  “Ele ficava em cima e várias vezes pegava textos, embatucava num pedaço e dizia, ‘Será que Sua Excelência vai entender o que você está tentando dizer?’”.

Questionado se via uma “guinada à esquerda” do conteúdo editorial,  Dávila respondeu: “As críticas ao jornalismo que temos feito em relação ao governo Bolsonaro já ouvimos em relação a Lula, Dilma e FHC. Fazemos jornalismo crítico, revelando o que é relevante, seja positivo ou negativo”.

No primeiro debate, na segunda (18), Antonio Prata e Luiz Felipe Pondé conversaram sobre patrulhas ideológicas de esquerda e de direita. Prata lembrou que a expressão nasceu em referência à esquerda e questionou a existência de algo semelhante à direita. “Tem a milícia da internet, que não é patrulha, é ameaça”, afirmou.

Para Pondé, a agressividade pode ser explicada pelo ressentimento da direita, que se veria sem representação na universidade e na mídia. “Se houver uma normalização do debate, talvez tenhamos uma patrulha de direita não tão agressiva.”

Na terça, Elio Gaspari e Mônica Bergamo trataram do tema “Conservadorismo ou atraso?”. Gaspari considerou que o atraso no Brasil não se restringe aos governantes conservadores de hoje, mas que, quando Bolsonaro e o governador Wilson Witzel , por exemplo, “se misturam com as milícias, é atraso puro, é como defender o tráfico negreiro no século 19”.

Bergamo viu reações a avanços no terreno dos costumes, mas lembrou que em certos casos, como o do projeto Escola Sem Partido, têm pouco apoio. “O Datafolha mostrou que mais de 70% da população é favorável à discussão de política nas escolas.”

Um dos leitores presentes disse que via uma “guerra santa” da imprensa contra o presidente Bolsonaro. Os colunistas discordaram e Bergamo disse ver, na realidade, “uma adesão explícita ao governo por parte de alguns veículos, como a Record”.

Na quarta , os economistas Delfim Netto e Marcos Lisboa trataram da questão “O Brasil vai voltar a crescer?”, partindo da discussão do projeto da reforma da Previdência, apresentado naquele dia.
Para Delfim, “ainda que a reforma seja absolutamente necessária, não é suficiente”. Ele defendeu mudanças no salário mínimo, no funcionalismo e no “manicômio fiscal” do país.

Questionado pela plateia sobre 2019, Lisboa disse que o ano poderá ser bom. “Mas está todo mundo revisando [projeções] para baixo. Com razão. Havia certo otimismo que eu não sei de onde saía”. 

O leitor Miguel Lian, 18, estudante de economia, elogiou o jornal por introduzir temas e buscar “o que não é bem compreendido”. Já a empresária Franca Maria Berra, 62, elogiou Delfim, mas considerou que o presidente “está sendo muito perseguido”.

Na quinta, Ilona Szabó e Katia Rubio falaram sobre o tema “Ser mulher em tempos de #MeToo” e comentaram as dificuldades de as brasileiras se sentirem seguras para denunciar a violência sexual.
“As vítimas se calam por medo”, afirmou Rubio. “No Brasil, a denúncia é associada a uma agressividade que, culturalmente, não pega bem.”

Szabó também comentou questões relativas à representação política das mulheres e ressaltou a importância de dados confiáveis para desenhar políticas públicas.

Na sexta, Contardo Calligaris e Nizan Guanaes trataram da questão “Dá para ter orgulho de ser brasileiro hoje?”.

“Anos atrás, em Brasília, cinco adolescentes acharam divertido atear fogo num índio”, lembrou Calligaris. “Nenhum deles teria feito isso se estivesse sozinho. O grupo é a raiz do mal, só confio em indivíduos.”

Guanaes disse que nas últimas décadas “houve avanços”, mas que não se deve buscar comparação com o próprio país e sim “competir com os outros”. Para ele, o Brasil, “injusto na educação”, não dá condições de competição global aos jovens.

A comissária de bordo Milena Domingues, 34, considerou o debate esclarecedor, mas afirmou: “Não tenho muito orgulho de ser brasileira neste momento. Tenho até um pouco de vergonha”.

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