Jornalista é alvo de 59 processos de diretoras de escolas em Sobral, no Ceará

Profissional que relatou fraudes em avaliações se diz alvo de ação orquestrada de prefeitura, comandada por irmão de Ciro

João Pedro Pitombo
Salvador

O jornalista Wellington Macedo foi alvo de 59 ações de danos morais movidas por diretoras de escolas municipais de Sobral (231 km de Fortaleza), reduto eleitoral da família de Ciro Gomes (PDT) conhecido por bons indicadores na área da educação.

Os processos questionam a série de reportagens “Educação do Mal”, veiculada por Macedo entre agosto e setembro do ano passado no YouTube. A série de vídeos mostra depoimentos de alunos e ex-alunos que relataram fraudes em avaliações externas em Sobral e em outras três cidades do Ceará.

Alunos chegam à Escola Massilon Saboia, em Sobral (CE). Cidade é famosa pelos bons índices em educação, mas há denúncias de pressões sobre alunos
Alunos chegam à Escola Massilon Saboia, em Sobral (CE). Cidade é famosa pelos bons índices em educação, mas há denúncias de pressões sobre alunos - Eduardo Anizelli - 6.nov.2015/Folhapress

O assunto também foi alvo de reportagem da Folha, que em setembro de 2018 esteve em Sobral e colheu depoimentos de nove alunos e cinco ex-alunos que afirmaram terem se envolvido em algum tipo de fraude em provas por orientação dos professores.

As 59 ações contra Macedo têm o mesmo objeto e pedido de indenização por danos morais do mesmo valor. Também foram movidas pelo mesmo advogado: Charles Antonio Ximenes de Paiva, que é servidor da Secretaria Municipal de Educação.

Cada uma das diretoras pediu indenização de R$ 38,1 mil, o que resultará em um passivo de R$ 2,2 milhões caso o jornalista seja condenado em todas as ações.

Para o jornalista, os processos foram uma ação orquestrada pela prefeitura, comandada por Ivo Gomes (PDT), irmão do senador Cid Gomes e do ex-governador Ciro Gomes.

“É uma clara tentativa de intimidação ao meu trabalho jornalístico. Eles moveram ações individuais numa tentativa de me ocupar com processos que são essencialmente iguais. Mas confio que o Judiciário não vai cair nessa armadilha”, disse Macedo à Folha.

Procurada, a Prefeitura de Sobral não se posicionou sobre as ações judiciais.

A defesa do jornalista solicitou que todas as 59 audiências fossem realizadas no mesmo dia, pedido que foi aceito pela Justiça. A audiência coletiva acontecerá na próxima terça-feira (19) em um auditório da cidade.

O caso se assemelha a outros nos quais dezenas de processos de teor semelhante foram abertos contra jornalistas. Em 2007, a jornalista Elvira Lobato foi alvo de 111 ações após a Folha publicar uma reportagem sobre a evolução do patrimônio de dirigentes da Igreja Universal. Os processos foram movidos por fiéis e pastores da igreja.

Em 2016, juízes do Paraná moveram 37 processos contra jornalistas do jornal Gazeta do Povo após uma reportagem revelar o valor dos vencimentos dos magistrados.

Além das ações movidas pelas diretoras das escolas, Macedo foi alvo, em novembro de 2018, de uma representação na Comissão de Ética dos Jornalistas do Ceará movida pelo secretário de educação de Sobral, Francisco Herbert Lima.

O jornalista também relata ter recebido ameaças por causa das reportagens e chegou a registrar um boletim de ocorrência na polícia em novembro do ano passado.

Também diz ter sido intimidado no seu exercício profissional: a polícia foi acionada quando ele conversava com adolescentes na porta de uma escola da cidade.

Em nota, a Abraji (Associação Brasileira de Jornalismo Investigativo) informou que repudia o que classifica de "assédio judicial” contra Wellington Macedo.

“A prática de mover dezenas de processos contra jornalistas em juizados de pequenas causas é uma estratégia de intimidação e, como tal, um atentado à liberdade de imprensa. Certa de que o Judiciário cearense seguirá decisões do STF e de outros tribunais em casos semelhantes, a Abraji espera que as ações sejam recusadas", afirma.

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