Descrição de chapéu Lava Jato

Paulo Preto guardava R$ 100 milhões em bunker, disse delator à Lava Jato

Segundo procurador, valor seria o dobro do mantido em 'bunker do Geddel' em Salvador

Estelita Hass Carazzai
Curitiba

Alvo de prisão pela Operação Lava Jato nesta terça (19), o ex-diretor da Dersa Paulo Vieira de Souza, o Paulo Preto, é suspeito de ter mantido um bunker para guardar dinheiro em espécie, onde manteria cerca de R$ 100 milhões.

O relato sobre o bunker foi feito à Lava Jato pelo empresário Adir Assad, que operava propina para a empreiteira Odebrecht e fez acordo de delação premiada com a força-tarefa.

Paulo Preto, ex-diretor da Dersa e suposto operador do PSDB em São Paulo
Paulo Preto, ex-diretor da Dersa e suposto operador do PSDB em São Paulo - Geraldo Magela/Agência Senado

Assad e seus funcionários teriam visitado o local diversas vezes. Segundo ele, Paulo Preto mantinha dois endereços para guardar dinheiro: uma casa no bairro Vila Nova Conceição e um apartamento na avenida Brigadeiro Luís Antônio, ambos em São Paulo.

A delação de Assad foi um dos elementos usados para deflagrar a operação desta terça-feira.

Ainda segundo o delator, o apartamento, usado exclusivamente para armazenar valores, era tão cheio de dinheiro que Paulo Preto eventualmente colocava as notas ao sol, para que não mofassem. O imóvel pertenceria à cunhada do operador.

A informação sobre o bunker de Paulo Preto foi revelada durante entrevista à imprensa nesta terça, pelo procurador da República Roberson Pozzobon. “Isso é um escárnio”, afirmou o procurador.

Pozzobon ainda comparou o bunker do ex-diretor da Dersa ao do ex-ministro Geddel Vieira Lima. "Talvez o bunker de Paulo Preto tivesse o dobro de dinheiro do bunker do Geddel".

Em setembro de 2017, a Polícia Federal encontrou R$ 51 milhões em espécie em um apartamento ligado ao ex-ministro Geddel (MDB) em Salvador. Ele está preso na Papuda, em Brasília, investigado por fraudes em empréstimos da Caixa Econômica Federal.

Malas de dinheiro encontradas pela PF, em set.17, em endereço atribuído a Geddel Vieira Lima em Salvador
Malas de dinheiro encontradas pela PF, em set.17, em endereço atribuído a Geddel Vieira Lima em Salvador - Divulgação/Polícia Federal

A Lava Jato investiga o papel de operador financeiro de Paulo Preto em favor da Odebrecht, fornecendo dinheiro em espécie para o pagamento de propinas pela empresa.

O delator ainda afirmou que usava uma perua para ir à casa da Vila Nova Conceição, a fim de retirar valores em espécie. Lá, carregava de 12 a 15 malas de viagem cheias de dinheiro, com R$ 1,5 milhão cada.

Os fatos relatados por Assad teriam ocorrido entre 2010 e 2011.

Nenhum dos endereços, porém, foi alvo da operação desta terça: segundo as investigações, eles não eram mais atuantes há alguns anos.

A Lava Jato ainda não sabe a origem dos valores mantidos em espécie por Paulo Preto nos bunkers.

A Polícia Federal deflagrou nesta terça-feira (19) mais uma fase da Operação Lava Jato e prendeu Paulo Preto. Batizada de Ad Infinitum, a fase da operação também cumpre mandados de busca e apreensão em endereços ligados ao ex-senador e ex-chanceler Aloysio Nunes (PSDB). Aloysio atualmente é presidente da estatal Investe SP, cargo de primeiro escalão da gestão do governador João Doria (PSDB).

A Procuradoria acusa Paulo Preto de ter movimentado pelo menos R$ 130 milhões em contas na Suíça, entre 2007 e 2017.

Em uma dessas contas, segundo a Procuradoria, foi emitido um cartão de crédito em favor do ex-senador Aloysio Nunes, em dezembro de 2007 —que teria sido entregue a ele num hotel em Barcelona, na Espanha. O tucano nega o recebimento e diz que não sabe por que é investigado.

Na época, Aloysio era secretário da Casa Civil do Governo de São Paulo, na gestão de José Serra (PSDB). O cartão foi emitido na semana entre o Natal e o Ano-Novo.

As investigações são baseadas em informações e documentos colhidos no sistema de propinas da empreiteira Odebrecht. Paulo Preto é acusado de ter operado em favor da empreiteira, disponibilizando valores em espécie ao setor que comandava o pagamento de propinas.

Mas o ex-diretor da Dersa, segundo os investigadores, também recebeu valores em suas contas na Suíça das empreiteiras Andrade Gutierrez e Camargo Corrêa, igualmente investigadas na Lava Jato. Essas contas foram encerradas no primeiro trimestre de 2017, depois de o acordo da Odebrecht ter se tornado público. Em seguida, os valores foram transferidos para contas nas Bahamas.

Para o procurador da República Júlio Noronha, ainda há “várias caixas-pretas que precisam ser abertas” pela Lava Jato.

O ex-diretor da Dersa já é alvo de investigação pela Lava Jato em São Paulo, que apura desvios em obras rodoviárias no estado. Mas, segundo os procuradores de Curitiba, sua atuação no governo paulista não é alvo da investigação desta terça, que se concentra em seu papel de operador da Odebrecht.

Os procuradores argumentam que os repasses de Paulo Preto à Odebrecht foram imediatamente anteriores a pagamentos de propina para ex-diretores e gerentes da Petrobras, como Paulo Roberto Costa, Roberto Gonçalves e Pedro Barusco. Aí estaria o vínculo com a Lava Jato de Curitiba, a quem cabe apurar desvios na estatal de petróleo.

O ex-senador Aloysio Nunes, por sua vez, já foi alvo de um inquérito no STF (Supremo Tribunal Federal) que apurava doações irregulares à sua campanha ao Senado, em 2010. Mas a investigação foi arquivada no fim do ano passado, por falta de indícios mínimos de autoria ou materialidade.

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