Descrição de chapéu

PT perde discurso e se tranca mais fundo na cela de Lula a cada condenação

Partido, que saiu das eleições com condições de liderar alguma oposição, está sem norte

Igor Gielow
São Paulo

A nova condenação de Luiz Inácio Lula da Silva deveria servir como um alerta à sigla que ele fundou só para fundir ao seu destino ao longo de quase quatro décadas.

A presidente do PT, Gleisi Hoffman, discursa em frente à PF de Curitiba, onde Lula está preso
A presidente do PT, Gleisi Hoffman, discursa em frente à PF de Curitiba, onde Lula está preso - Mauro Pimentel - 20.dez.2018/AFP

Apesar de ter sobrevivido melhor do que outras agremiações, como PSDB ou o MDB, o PT não encontrou um fio narrativo decente desde que a onda de direita capitaneada por Jair Bolsonaro varreu as urnas em outubro passado.

As condições objetivas do petismo não eram totalmente desastrosas, mas o partido se perdeu. A sigla saiu com a maior bancada na Câmara das urnas e viu Fernando Haddad chegar ao segundo turno e levar quase 45% dos votos.

Apesar de ter entrado no pleito para ser derrotado e topado um papel humilhante de poste assumido, Haddad poderia buscar protagonismo no debate político. Claro, nunca lhe sobrou apoio partidário, mas deixar a bola com Gleisi Hoffmann apenas reforça o que já se sabe: o PT virou uma banca de advogados de defesa de Lula, restando a torcida por um desastre do governo Bolsonaro como discurso inercial.

O ex-prefeito paulistano nunca foi querido em seu partido, mas dedica-se a tuítes e a entrevistas confortáveis desde a derrota. Gleisi, bom, ela segue sendo uma histriônica porta-estandarte do surrado “Lula livre!”.

Outros líderes petistas são desconhecidos neste momento, e o histórico ético do partido não transmite muita credibilidade a acusações de que a nova condenação do ex-presidente é um ato político.

Uma saída óbvia para o partido é buscar organizar o que sobrou da esquerda no Congresso para atrapalhar a vida do governo, como ele soube fazer bem nas gestões tucanas de Fernando Henrique Cardoso. Mas os tempos são outros, e antigos aliados olham com desconfiança para quaisquer intenções petistas —Ciro Gomes (PDT) que o diga.

Há chance de sucesso em combates pontuais contra a agenda conservadora de Bolsonaro, mas mesmo assim as chances de vitória são mais midiáticas do que efetivas. Bandeiras autodenominadas progressistas não estão na moda no Brasil de 2019.

Além disso, há a insistência no erro político de agarrar-se sempre a agendas regressivas: note que os slogans petistas são invariavelmente de negação (“Fora Temer”, “Eleição sem Lula é fraude”, “EleNão”), algo que o próprio Lula abandonou lá no longíquo 2002, quando aprendeu o que tinha de fazer para chegar ao poder.

Torcer por uma debacle econômica, a essa altura e depois do legado do PT no setor, é engano análogo à crítica ao Plano Real em 1994. Claro que Bolsonaro irá desgastar-se sempre com a metade do Brasil que o rejeita, é parte do pacote, mas isso é quase irrelevante politicamente se houver sucesso na seara de Paulo Guedes.

Com tudo isso, PT poderia optar por uma renovação de lideranças, para então afinar um discurso sob a luz do desempenho de Bolsonaro. Só que por ora o partido prefere abraçar-se ao líder preso em Curitiba, trancando-se cada vez mais fundo dentro de sua cela a cada condenação.
 

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