Descrição de chapéu Governo Bolsonaro

Após vídeo obsceno no Carnaval, Bolsonaro muda foco da comunicação na internet

Plano é consultar equipe de comunicação antes de comentar polêmicas

Gustavo Uribe Talita Fernandes
Brasília

Com a polêmica criada após ter divulgado um vídeo com imagens obscenas, o presidente Jair Bolsonaro indicou a assessores que pretende evitar controvérsias e priorizar iniciativas do governo ao utilizar sua conta pessoal nas redes sociais.

A sinalização foi feita em conversas reservadas com assessores presidenciais após ele mesmo reconhecer que não deveria ter compartilhado conteúdo impróprio no Twitter com o objetivo de criticar gestos que na sua visão ofendem a moral.

Segundo relatos feitos à Folha, Bolsonaro ficou incomodado com a repercussão negativa causada pelo compartilhamento de vídeo, filmado durante o Carnaval, no qual um homem introduz um dedo no próprio ânus e recebe jato de urina na nuca.

Nas palavras de um assessor, Bolsonaro "sentiu o golpe" e admitiu que reagiu por impulso ao compartilhar material como esse.

O presidente Jair Bolsonaro participa da cerimônia de celebração dos 211 anos do Corpo de Fuzileiros Navais no Centro do Rio de Janeiro - Marcos Corrêa/PR

O plano é que, a partir de agora, ele consulte a equipe de comunicação antes de fazer comentários com risco de polêmica e que assuntos delicados passem a ser tratados em público apenas pelo porta-voz da Presidência da República, general Otávio Rêgo Barros.

A orientação é que Bolsonaro centralize anúncios de governo nos canais oficias de comunicação e que, uma vez por semana, faça um resumo das iniciativas de sua gestão em uma live pelo Facebook, em uma espécie de "ambiente controlado", como definiu um auxiliar palaciano.

O primeiro foi feito nesta quinta-feira (7), no qual o presidente aparece ao lado do porta-voz e do ministro do GSI (Gabinete de Segurança Institucional), Augusto Heleno. As declarações de Bolsonaro são tuteladas pelos dois militares.

Na live, o presidente falou sobre dez assuntos diferentes, de Previdência a lombadas eletrônicas, além de uma tentativa de esclarecer sua declaração sobre o papel das Forças Armadas na democracia. Evitou, porém, abordar temas sensíveis como as suspeitas envolvendo o ministro do Turismo no caso dos laranjas e o vídeo obsceno postado durante o Carnaval.

Essa publicação do presidente foi criticada tanto no país como no exterior e foi rechaçada por parlamentares de oposição e até mesmo de partidos simpáticos ao governo. Após o vídeo, o Planalto detectou desmobilização de apoiadores de Bolsonaro na rede social.

Para evitar novas crises, a ideia é reforçar nas próximas semanas a equipe de comunicação e contratar um profissional experiente que, além do porta-voz, oriente Bolsonaro nas declarações públicas. A equipe do presidente já começou a procurar uma pessoa que se encaixe nesse perfil de conselheiro, mas tem encontrado dificuldades diante da limitação salarial dos cargos disponíveis pelo governo.

O entorno do presidente é entusiasta do nome do jornalista Alexandre Garcia, que deixou a Rede Globo no final do ano passado e ocupou o cargo de porta-voz na gestão de João Figueiredo (1979-1985), durante a ditadura militar. Ele, contudo, já sinalizou que não pretende fazer parte do governo.

Assessores que defendem uma comunicação mais profissional e menos aguerrida já aconselharam o presidente a afastar o vereador Carlos Bolsonaro (PSC-RJ), seu filho mais próximo, da comunicação do governo.

Carlos, contudo, tem mantido proximidade da gestão do pai e já participou de reuniões ministeriais, chegando inclusive a ter sido adicionado em um grupo de WhatsApp de pessoas que organizaram a comunicação da posse.

Conhecido como 'pitbull' da família, Carlos foi o responsável por criar a estratégia de comunicação do pai com os eleitores por meio de redes sociais.

Embora tenha tentado se manter mais distante do Planalto fisicamente, Carlos ainda conta com pessoas próximas que têm acesso frequente ao gabinete presidencial, caso de um ex-auxiliar de seu gabinete de vereador, Tércio Arnaud, nomeado assessor especial da Presidência.

O episódio desta semana não foi a primeira vez em que o presidente precisou passar por uma intervenção na área de comunicação. Na semana passada, o Palácio do Planalto montou um plano para limitar os comentários de Bolsonaro sobre a reforma da Previdência.

A ideia é que a partir de agora ele comente em público apenas aspectos sociais ou pouco sensíveis da proposta, evitando pontos polêmicos que possam gerar mal-estar com o Poder Legislativo.

A estratégia foi montada após o presidente ter indicado que a idade mínima na aposentadoria das mulheres pode ser de 60 anos e não 62, como está na reforma, o que irritou o ministro da Economia, Paulo Guedes, e o presidente da Câmara dos Deputados, Rodrigo Maia (DEM-RJ).

Bolsonaro foi pautado para focar suas manifestações públicas em apenas três ou quatro itens, que sejam consenso e não tenham discordâncias, do conjunto de medidas que endurece os critérios para aposentadorias.

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