Cidade do interior de SP 'respira' padre Donizetti após confirmação de milagre

Vaticano reconheceu milagre atribuído a padre que curou doença em menino que tinha pé torto

Marcelo Toledo
Tambaú

Na madrugada da última segunda-feira (8), em Casa Branca (SP), a dona de casa Margarete Rosilene Arruda de Oliveira, 46, e seu marido, Adriano Hilário de Oliveira, 42, aguardavam um ônibus que os levaria a São Paulo para uma cirurgia eletiva.

Enquanto aguardava, o casal foi surpreendido com uma ligação urgente, às 5h30, do Santuário Nossa Senhora Aparecida, de Tambaú. Precisavam ir para a cidade vizinha, distante 34 km, imediatamente.

Após sete anos de uma investigação feita pela Igreja Católica, estava confirmado pelo Vaticano que Bruno Henrique Arruda de Oliveira, 12, um dos filhos do casal, curou-se de uma doença por milagre, por intercessão do padre Donizetti Tavares de Lima (1882-1961), que viveu e desenvolveu ações sociais na cidade do interior de São Paulo.

A notícia da assinatura do decreto pelo papa Francisco agitou a pacata Tambaú, que naquele dia viu o santuário receber 3.000 pessoas (a capacidade é para 1.500), à espera de Bruno, o miraculado –objeto do milagre.

A confirmação do milagre ocorreu após pesquisas iniciadas na cidade há 27 anos. Com isso, o agora beato Donizetti se junta a um grupo de beatos e santos no país que já tem Irmã Dulce (1914-1992), Padre Anchieta (1534-1597) e Frei Galvão (1739-1822).

A história do milagre de Tambaú começou em 2006. Logo após Bruno nascer, uma enfermeira percebeu os pés arqueados do garoto, o que o impossibilitava de encostar as plantas dos pés no chão, e fez um raio-X, que integrou o processo enviado ao Vaticano para comprovar a cura.

Ele sofria de pé torto congênito bilateral, que o obrigaria a usar botas ortopédicas e passar por uma série de procedimentos cirúrgicos na infância, sem garantia de cura total.

Na véspera de uma consulta com um ortopedista, quando o bebê tinha quatro meses, Margarete o trocou antes de dormir, numa pequena mesa de granito na casa em que moram, na periferia da cidade, olhou para os pés do menino e começou a chorar.

Pediu que padre Donizetti —a quem sua avó materna recorria nos momentos de oração— o curasse. “Implorei muito, chorei muito e o coloquei para dormir”, conta a mãe.

No dia seguinte, ao acordar e levar a criança para ser trocada na mesma mesa, percebeu que os pés de Bruno encostavam na mesa. “Fiquei perplexa.”

Padre Donizetti é mineiro de Cássia (MG), onde nasceu em 3 de janeiro de 1882. Foi ordenado em Pouso Alegre (MG), em 12 de julho de 1908. Chegou a Tambaú aos 44 anos, em 1926, para comandar a paróquia de Santo Antônio, que três anos depois foi atingida por um incêndio.

Cartaz com imagem do padre Donizetti em frente ao Santuário Nossa Senhora Aparecida, em Tambaú (255 km de SP)
Cartaz com imagem do padre Donizetti em frente ao Santuário Nossa Senhora Aparecida, em Tambaú (255 km de SP) - Almeida Rocha - 9.ago.2010/Folhapress

Segundo a igreja, ele entrou no imóvel em meio às chamas e retirou uma imagem intacta de Nossa Senhora Aparecida, a única que não foi destruída e que hoje é guardada num cofre, segundo Francisco Donizetti Sartori, membro da comissão pró-beatificação.

O padre morreu em 1961, aos 79 anos, mas ainda em vida já tinha recebido a fama de “milagreiro”. A frente de sua casa era tomada por milhares de fiéis, o que o impedia por vezes de ir à igreja e o obrigava a dar bênçãos da janela do imóvel.

Batizado pelo padre em 1957, e cujo nome homenageia o religioso, Sartori foi um dos elos entre a família e a igreja no processo de investigação do milagre. “Meu pai [Euclides Sartori, 95], foi secretário do Círculo Operário criado pelo padre Donizetti para defender trabalhadores. O padre era visto como comunista e sofreu resistência em sua chegada a Tambaú, mas logo ela passou.” 

Na cidade, a beatificação é vista como uma oportunidade para desenvolver ainda mais o turismo religioso e a economia local, combalida por uma crise que fez desaparecer dezenas de indústrias cerâmicas nas duas últimas décadas.

“A beatificação é muito importante espiritualmente, mas também para o desenvolvimento da economia e do turismo. Vai impulsionar o Caminho da Fé”, disse o ciclista Carlos Alberto Menegosso, 43, de Jundiaí.

Na última quinta (11), ele entrou no santuário, orou e iniciou sozinho o caminho que liga a cidade a Aparecida, onde deverá chegar terça-feira (16). É um dos primeiros peregrinos a fazer a rota após a beatificação.

Dois projetos protocolados na última semana na Câmara Municipal propõem que o papa Francisco e o estudante recebam o título de cidadão tambauense.

‘É MAIOR DO QUE NÓS’

Margarete disse não ter percebido, na hora do milagre, a dimensão do que ocorreu. Era algo que a igreja buscava, com documentos, desde 1992. Ela creditava o fato ao padre Donizetti, mas somente anos depois foi a Tambaú e depositou roupas do filho e um bilhete na cama que o religioso usava, na casa em que morou e hoje é museu.

No bilhete, deixou só os primeiros nomes dela e do filho, e a cidade em que morava. Ao tomar conhecimento do fato, a comissão pró-beatificação iniciou buscas pela família. Apelou a emissoras de rádio de Casa Branca, até que uma vizinha procurou Margarete e relatou o ocorrido.

“O que a gente queria era resolver o problema do meu filho, e foi resolvido. O deles [Igreja] era a beatificação, que é algo mais amplo, muito maior do que eu imaginava”, disse, chorando, Margarete.

Não é exagero dizer que Tambaú respira padre Donizetti. Ao lado do santuário desejado por ele, iniciado anos após sua morte, há a casa em que morou, aberta para visitas. Há ainda uma creche e um asilo de idosos abertos por ele, uma estátua ao lado do cemitério e o túmulo que abrigou seus restos mortais por 48 anos —em 2009, houve transferência para o santuário.

A data da celebração da beatificação não está definida, mas a expectativa do padre Anderson Godoi de Oliveira, 42, reitor do santuário, é que ocorra neste ano.

“É um marco muito grande, um sonho realizado para muitas pessoas [de Tambaú], que conviveram com um homem santo”, disse ele, vice-postulador no processo de beatificação.

Embora haja centenas de relatos de supostos milagres atribuídos ao beato, para ser canonizado será necessário surgir um milagre após a beatificação, conta o reitor.

O problema, diz Sartori, é que às vezes é difícil obter toda a documentação exigida pela Congregação para as Causas dos Santos. “O caso de Casa Branca foi completamente documentado, antes, durante e após a cura. Os sete especialistas de lá [Vaticano] foram unânimes ao cravar que a medicina não curaria o Bruno. As comprovações são difíceis, mas sabemos que os milagres existem.”

Bruno é religioso e já sabe que participará da Marcha da Fé em Tambaú, dia 16 de junho, data de morte do padre Donizetti e mesmo dia em que será crismado em Casa Branca. A marcha deve reunir mais de 30 mil pessoas.

“É emocionante saber que faço parte de uma história tão bonita. Na escola, os amigos e a professora começaram a perguntar detalhes. Contei tudo para eles, que aplaudiram”, disse ele, que é escoteiro, pratica caratê e escolheu Sartori, que o acompanhou nos últimos anos, como padrinho de Crisma.


A Fé no Brasil

Alguns dos santos e beatos

Madre Paulina (1865-1942)
Nascida na Itália, foi canonizada em 2002, 60 anos após a sua morte

Frei Galvão (1739-1822)
Nascido no Brasil, recebeu o título de santo em 2007, 185 anos após a morte

José de Anchieta (1534-1597)
Canonizado em 2014, num processo iniciado em 1597. Não tem milagres comprovados –o papa dispensou a necessidade

Mártires do RN
Em 2017, o papa canonizou 30 mártires assassinados no século 17 no Rio Grande do Norte, no período de dominação holandesa

Irmã Dulce (1914-1992)
Foi beatificada em 2011

Padre Donizetti
Morreu em 1961 em Tambaú (SP), foi beatificado pelo papa Francisco

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