EBC segue Bolsonaro e escala militares para chefia da estatal de comunicação

Mudanças fazem parte de reestruturação da empresa, subordinada ao ministro general Santos Cruz

Gustavo Uribe
Brasília

Como parte do processo de reorganização da estatal, o presidente da EBC (Empresa Brasil de Comunicação), Alexandre Graziani, repetiu prática adotada por Jair Bolsonaro em sua equipe ministerial e escalou militares para postos estratégicos.

Na diretoria, por exemplo, composta por seis integrantes, há dois militares, ambos graduados na Academia Militar de Agulhas Negras, no Rio de Janeiro, a mesma em que se formou Bolsonaro, que é capitão reformado.

O general Santos Cruz (Secretaria de Governo) ao lado do presidente Jair Bolsonaro - Pedro Ladeira - 25.mar.19/Folhapress

Um deles é o diretor-geral, Roni Baksys Pinto, designado no início de abril para o posto de comando. Cabe a ele o planejamento estratégico da reformulação estrutural, como a definição de metas administrativas e plano de carreira.

O outro é Márcio Kazuaki, diretor de administração, encarregado do orçamento e das finanças. Ele chegou à função em setembro e foi mantido pelo novo presidente da empresa. Os dois iniciaram carreira na EBC em 2015.

A escolha dos cargos diretivos passa pela aprovação do ministro da Secretaria de Governo, general Carlos Alberto dos Santos Cruz, pasta a quem a EBC está subordinada, e é referendada pelo presidente, que a torna efetiva com a publicação no Diário Oficial da União.

Além deles, foi escalado para atuar na assessoria do gabinete do presidente da estatal o coronel Hidenobu Watanabe, que chegou ao posto no início de abril, e auxilia no planejamento de reportagem, em questões como gravação e logística.

Nas próximas semanas, será designado também como assessor do presidente o tenente-coronel Alexandre Lara, que o aconselhará na área jornalística. Ele já atuou como secretário de imprensa da Presidência da República, foi chefe de comunicação da Vice-Presidência e estrategista de comunicação do GSI (Gabinete de Segurança Institucional).

Procurado pela Folha, o presidente da EBC disse que a escolha dos militares teve como objetivo "atender a necessidade de absorção de mão de obra com expertise em planejamento estratégico, gestão pública e orçamentária".

"As contratações na atual gestão têm como prioridade a qualificação e desempenho profissional, agregando valor ao produto final da empresa", afirmou Graziani.

Ao todo, Bolsonaro nomeou oito ministros militares, três deles para pastas que despacham no Palácio do Planalto. Nas empresas estatais, foram colocados militares em cargos relevantes na Petrobras, na Caixa Econômica Federal e nos Correios.

A designação de militares para áreas estratégicas não foi a única mudança implementada na EBC. O comando da companhia também alterou a direção de jornalismo. O jornalista Estevão Damázio foi substituído por Sirlei Batista, que já atuou como repórter e editora da empresa.

Além disso, no início do mês, foram fundidas as programações dos dois canais televisivos da estatal, a TV NBR e a TV Brasil, que viraram a Nova TV Brasil.

A grade de programação diária da nova emissora, segundo projeções da empresa, é hoje dividida em 10% do conteúdo em informações de governo, como notícias e informes, e 90% em programas típicos de uma televisão pública, com temáticas, por exemplo, nas áreas de educação e saúde.

O governo afirma que a fusão pode gerar uma economia de R$ 36 milhões por ano. A Secretaria de Governo prevê que o processo total de reorganização reduzirá os gastos da empresa em cerca de R$ 130 milhões, pouco mais de um quarto do orçamento atual.

Não foi apenas a programação da EBC que mudou. Segundo funcionários da estatal, houve alteração também na produção jornalística. No final de março, a dois dias do aniversário de 55 anos do golpe militar de 1964, a comissão de empregados divulgou nota interna em que denunciava a censura no conteúdo sobre a efeméride.

De acordo com o texto, palavras como "aniversário do golpe" e "ditadura militar" eram substituídas, respectivamente, por "comemoração de 31 de março de 1964" e "regime militar".

A mudança de postura, de acordo com a comissão, teve início após Bolsonaro ter determinado que a data tivesse "comemorações devidas" em unidades militares.

A representação dos funcionários ressaltou não ter conhecimento se a orientação era do Palácio do Planalto ou da direção da empresa estatal, que teria se adiantado a um "possível desconforto governamental".

Segundo jornalistas da empresa, a recomendação era feita de maneira informal, sem ter sido distribuído comunicado interno sobre o assunto.

Recentemente, funcionários também relataram à Folha que a palavra "fuzilamento" não era permitida em produções que tratavam do assassinato do músico Evaldo Rosa dos Santos, que teve o carro atingido por mais de 80 tiros disparados por militares durante ação do Exército no Rio de Janeiro.

Segundo o presidente da EBC, não houve nenhuma manifestação ou orientação da presidência da empresa a respeito da cobertura jornalística.

"A EBC pauta sua cobertura nos critérios da imparcialidade e da maior objetividade possível sobre a informação que é divulgada por meio dos seus canais de distribuição", disse Graziani.

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