Em 100 dias, Witzel tenta suavizar imagem diante de discurso duro contra o crime

Governador do Rio busca se cacifar para disputa presidencial e até retoma agenda internacional

Italo Nogueira
Rio de Janeiro

Eleito com um discurso em defesa do endurecimento no combate ao crime, o governador do Rio de Janeiro, Wilson Witzel (PSC), completa cem dias no cargo buscando suavizar sua imagem.

Ao mesmo tempo em que mantém a defesa do “abate” de criminosos portando fuzis, o governador tenta ampliar sua presença em agendas de outros temas. Reformas da Previdência e tributária, combate à corrupção e até turismo ganham espaço entre os compromissos de Witzel.

O ex-juiz reativou inclusive as viagens oficiais internacionais no estado, extintas por decreto desde 2016 em razão da crise financeira. Foi para a Alemanha numa feira de turismo e para os Estados Unidos participar da Brazil Conference, em Boston (EUA), onde teve encontro com políticos e empresários.

Com o desejo de se tornar um candidato viável para a Presidência da República em 2022, Witzel tem buscado se distanciar da imagem do presidente Jair Bolsonaro (PSL). Pretende se apresentar como representante de uma direita mais pragmática, reduzindo a influência da ideologia na condução do seu governo.

A intenção de Witzel, contudo, tem encontrado obstáculos na vida real do estado e nos primeiros resultados de seu governo.

O governador do Rio de Janeiro, Wilson Witzel (PSC), durante coletiva de imprensa sobre assassinato da vereadora Marielle Franco, no Palácio Guanabara
O governador do Rio de Janeiro, Wilson Witzel (PSC), durante coletiva de imprensa sobre assassinato da vereadora Marielle Franco, no Palácio Guanabara - Ian Cheibub - 12.mar.2019/Folhapress

Embora o estado tenha registrado uma queda de 22,5% nos homicídios nos dois primeiros meses deste ano, o número de mortos pela polícia atingiu um recorde da série histórica para o período, de 305 vítimas.

Em fevereiro, a Polícia Militar matou 15 numa operação em favelas do centro, numa ação sob investigação que teve apoio imediato do governador. “Nossa polícia atuou para defender o cidadão de bem”, disse o governador, em fevereiro.

Nesta segunda (8), após a ação de militares do Exército que resultou na morte de um músico com mais de 80 tiros em Guadalupe, zona norte do Rio, Witzel afirmou ao O Globo: "Não sou juiz da causa. Não estava no local. Não era a Polícia Militar. Quem tem que avaliar todos esses fatos é a administração militar. Não me cabe fazer juízo de valor e nem muito menos tecer qualquer crítica a respeito dos fatos. É preciso que a auditoria militar e a Justiça Militar e o Exército faça as devidas investigações".

Na semana passada, nos Estados Unidos, amenizou o discurso. “Ninguém quer a violência. Ninguém quer o confronto. A política de segurança do Rio de Janeiro não está baseada na política de confronto. É muito mais amplo do que isso”, afirmou Witzel, no Brazil Conference.

Witzel defendeu até a melhoria das penitenciárias para ressocialização de presos, discurso distante do bolsonarismo que o ajudou a ser eleito.

“É preciso ter penitenciárias que reduzam a reincidência e reintroduzir à sociedade aqueles que praticaram crimes e tiveram envolvidos com o crime organizado. Foram cooptados pelo crime organizado e tiraram a oportunidade deles de estudar, de ser inserido na sociedade”, disse o governador no encontro.

Para a deputada Renata Souza (PSOL), as falas de Witzel ainda não se concretizaram em política pública efetiva. “Ele ainda não apresentou uma política de segurança que ultrapasse a política de abate. Historicamente já vimos o quanto uma política como essa é danosa”, disse a deputada, presidente da Comissão de Direitos Humanos da Alerj (Assembleia Legislativa do Rio de Janeiro).

A fim de tentar mostrar que se desarmou após a campanha eleitoral, o ex-juiz federal levou para dentro do Palácio Guanabara a entrevista coletiva sobre a prisão dos acusados de assassinar a vereadora Marielle Franco (PSOL) --cuja placa em sua homenagem foi quebrada na presença do governador durante a campanha. Também se reuniu com familiares dela, tendo divulgado em suas redes sociais.

“Estou sendo duramente criticado por alguns grupos por ter atuado na prisão dos suspeitos da morte de Marielle Franco e Anderson Gomes. A campanha política já acabou. Estamos governando para todos, fazendo o estado crescer, com mais segurança, saúde e educação para a população”, afirmou.

A avaliação do governo é que o apoio às ações duras na segurança pública vai durar pouco tempo. Witzel reconhece a interlocutores que seu governo precisa apresentar um plano de segurança mais consistente que escape da política de confronto.

Uma das principais apostas é a ampliação do Departamento de Lavagem de Dinheiro da Polícia Civil, que teve sua equipe triplicada na atual gestão. O objetivo é que a equipe amplie a investigação sobre milícias, facções criminosas e suas estruturas financeiras.

Ao longo dos cem dias, a gestão não criou nenhuma marca. Witzel pretende lançar um pacote de obras em favelas —iniciativa semelhante à do ex-governador Sérgio Cabral em início de governo—, mas enfrenta dificuldades com as limitações orçamentárias.

A previsão de déficit para este ano é de R$ 8 bilhões. “A marca desse governo é a segurança pública, austeridade com gasto público e transparência. Pode não ser muito midiático, mas é o necessário a ser feito”, disse o deputado Márcio Pacheco (PSC), líder do governo na Assembleia.

As ações para reaquecer a economia do estado ainda patinam. Nesta área, Witzel tem destacado a extinção de incentivos fiscais criados em favor da Petrobras e joalherias, entre outros setores.

A concessão desse benefícios pelos governos Cabral e Luiz Fernando Pezão passou a ser criticada após a crise fiscal do estado. As investigações da Lava Jato apontam que foram oferecidas mediante corrupção.

A renegociação do regime de recuperação fiscal segue sem definição. O governador teve encontros com o ministro da Economia, Paulo Guedes, e com o presidente Bolsonaro para debater o tema, mas nenhuma proposta para a alteração do acordo foi alinhavada.

“Ele precisa propor soluções mais objetivas para a crise. Reunir-se mais com autoridades federais, e não se portar como um pedinte, mas exigindo o que o estado tem direito”, afirmou o deputado Luiz Paulo (PSDB), em referência à regulamentação da Lei Kandir.

Na Assembleia, Witzel ainda não passou por nenhuma votação central que medisse sua base de sustentação. Ele chegou a tentar emplacar Pacheco como candidato à presidência da Assembleia. Diante da maioria já formada a favor do petista André Ceciliano, decidiu desestimular o correligionário a fim de garantir diálogo mais pacífico com a Casa.

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