Com hesitação de Doria, PSDB de MG se movimenta para manter Aécio no partido

Ala mineira fez demonstração de força de ex-governador em recente convenção

José Marques Carolina Linhares
São Paulo

Integrantes do PSDB decidiram exibir a força política de Aécio Neves às vésperas de o partido eleger uma nova direção nacional próxima ao governador João Doria (SP), cujos aliados têm se manifestado a favor da saída do ex-governador mineiro da legenda. 

Recluso desde que foi alvo de delação da JBS, em 2017, Aécio reapareceu na convenção estadual do PSDB de Minas Gerais, no último sábado (4), quando discursou, falou com a imprensa, opinou sobre o governo de Jair Bolsonaro (PSL) e foi efusivamente aplaudido pelos correligionários.

Desde então o evento tem sido usado como uma demonstração da liderança que o ex-senador e atual deputado federal ainda tem dentro do partido e, especialmente, no segundo maior colégio eleitoral do país, enquanto parte dos tucanos têm pregado a expulsão dele da legenda.

“No sábado nós realizamos o maior evento político dos últimos dois anos em Minas, com mais de 1.000 convencionais, centenas de prefeitos, vereadores e até uma briga, mas uma briga boa, para ver quem preside a Juventude do PSDB. Você acha que o Brasil pode fechar os olhos para isso?”, questionou o deputado Paulo Abi-Ackel, presidente da legenda em Minas.

“Embora a gente saiba que existem vozes um pouco mais aflitas em relação a esse tema [futuro de Aécio], há também muita ponderação na medida em que todos reconhecem a importância dele para a recomposição do partido e como força política em Minas.”

Alvo de gravação da Polícia Federal em que aparece pedindo R$ 2 milhões a Joesley Batista, da JBS, Aécio passou a ter a permanência questionada por parte dos tucanos, principalmente após a derrota do partido nas eleições. O PSDB encolheu suas bancadas e teve menos de 5% de votos para seu presidenciável, Geraldo Alckmin, atual presidente da legenda.

A derrocada é atribuída, parcialmente, ao desgaste que as investigações sobre Aécio, candidato a presidente em 2014 com discurso anticorrupção, causaram ao partido.

A reconexão com a sociedade, segundo avaliação dos tucanos, passa pela renovação do comando do partido e por regras éticas claras. No próximo dia 31, o PSDB deve eleger o ex-deputado Bruno Araújo (PE) presidente, o que consolidará o domínio de Doria na nova direção. Na ocasião, a definição de um código de ética também estará em jogo.

Apesar de ser réu sob acusação de corrupção e obstrução de Justiça e alvo de ao menos cinco inquéritos, o ex-governador mineiro não foi condenado, o que tem sido usado como argumento para não expulsá-lo da legenda. Aécio sempre disse que é inocente.

Doria, que é o principal líder tucano hoje e está em articulação para eleger a nova direção, evitou responder sobre a expulsão de Aécio, mas afirmou que o tema será enfrentado. “Vou aguardar a eleição da nova executiva para me manifestar." 

“Não podemos colocar isso debaixo do tapete e fingir que não é um problema. É um tema que a nova executiva do PSDB vai ter que debater e vai ter que enfrentar, não dá para dizer que não tem nenhum tipo de problema e que vai ficar como está", disse Doria, na convenção tucana paulista, no domingo (5).

Convenção estadual do PSDB em Minas Gerais neste sábado (04/05), com presença do deputado federal e ex-senador Aécio Neves
Convenção estadual do PSDB em Minas Gerais. Na foto, Aécio ao centro, o presidente do PSDB-MG Paulo Abi-Ackel e Antonio Imbassahy - Fernanda Canofre - 4.mai.2019/Folhapress

Já outros tucanos próximos a Doria, da ala jovem do partido que prega uma reciclagem, defendem abertamente a saída de Aécio.

"A gente não pode falar do PSDB Brasil pelo PSDB de Minas. O recado das urnas foi claro. Com todo respeito que eu tenho pelo senador Aécio Neves, mas acho que ele deveria sair do partido", disse o presidente da Assembleia Legislativa de São Paulo, Cauê Macris, também na convenção paulista.

Líder do governo Doria na Assembleia, o deputado estadual Carlão Pignatari diz que sua opinião pessoal é a de que Aécio deveria sair do partido por conta própria. 

Outro “cabeça preta” do PSDB, Eduardo Leite, governador do Rio Grande do Sul, tem defendido que tucanos com denúncias consideradas graves, como a de Aécio, sejam alvo de discussão interna e eventualmente desfiliados.

Além do caso de Aécio, também tem sido proposta no partido uma discussão sobre a permanência do ex-governador Beto Richa (Paraná), réu por corrupção passiva, e do ex-governador mineiro Eduardo Azeredo, preso após o julgamento do mensalão tucano.

O escolhido de Doria para o comando do PSDB em São Paulo, Marco Vinholi, é a favor de “faxina” no partido, embora evite citar nominalmente o político mineiro.

"Não queremos fulanizar o partido. O que vamos fazer é um processo de compliance, com regras rígidas. Sendo A ou sendo B, vai sofrer a mesma sanção e é assim que nós vamos nos reconectar com a sociedade", afirmou no domingo.

Em contrapartida, os mineiros têm dito que esperam "bom senso" da nova direção nacional do PSDB em não apresentarem punições contra Aécio, já que ainda pesa a presunção de inocência sobre ele.

Dizem que quem se volta contra Aécio não entende de política mineira e esperam que não haja interferência do partido nesse sentido —ressaltam que a segunda maior bancada do PSDB na Câmara é de Minas, que também tem um senador ligado a Aécio, Antonio Anastasia.

Não que Aécio seja uma unanimidade dentro do partido, mesmo em Minas. Sua volta na convenção causou constrangimento em parte da bancada. Depois de ele ter subido no palanque e defendido que o partido não seja base do atual governador, Romeu Zema (Novo), houve um efeito contrário.

Correligionários que já discutiam o desembarque voltaram atrás e agora temem que, ao deixarem a base, passem a mensagem de que tomaram a decisão a mando de Aécio. Atualmente, o líder do governo Zema na Assembleia, Luiz Humberto, e o líder do bloco governista, Gustavo Valadares, são do PSDB. ​

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