Sob tensão, PSDB elege Bruno Araújo, aliado de Doria, para presidir partido

Ex-deputado sucede Alckmin no comando da sigla ao ser eleito em chapa única

Carolina Linhares Daniel Carvalho
Brasília

O ex-deputado federal e ex-ministro Bruno Araújo (PE), 47, foi aclamado presidente nacional do PSDB nesta sexta-feira (31), na convenção do partido em Brasília, com o objetivo de colocar em prática as diretrizes do novo PSDB, engendrado pelo governador João Doria (SP), hoje principal líder do partido na ativa.

Doria, que constrói a sua candidatura ao Palácio do Planalto em 2022, foi recebido pela militância tucana aos gritos de “Brasil pra frente, Doria presidente”. Em um espaço de eventos, o governador paulista chegou acompanhado do presidente da Câmara, Rodrigo Maia (DEM), de quem se tornou aliado na articulação para aprovação da reforma da Previdência.

O governador João Doria (SP), o novo presidente do PSDB, Bruno Araújo (PE), e o ex governador Geraldo Alckmin (SP) em convenção do partido, em Brasília
O governador João Doria (SP), o novo presidente do PSDB, Bruno Araújo (PE), e o ex governador Geraldo Alckmin (SP) em convenção do partido, em Brasília - Pedro Ladeira/Folhapress

Bruno Araújo sucede o ex-governador Geraldo Alckmin no comando do PSDB. Ele foi eleito em chapa única —não porque todos os tucanos concordem com os rumos ditados por Doria, que prega renovação, mas porque caciques fundadores da sigla não conseguiram viabilizar um nome competitivo.

O ex-presidente Fernando Henrique Cardoso não foi à convenção. Nomes enrolados em escândalos de corrupção, como os ex-governadores Aécio Neves (MG) e Beto Richa (PR), também estiveram ausentes. 

O novo presidente do PSDB, assim como Doria, afirma que o partido será de centro –rejeitando o que consideram extrema esquerda e extrema direita. Ambos, no entanto, colaram suas campanhas no ano passado a Jair Bolsonaro (PSL), para surfar na onda conservadora que elegeu o presidente da República.

Em Pernambuco, Araújo é conhecido como um político tradicional, pragmático e habilidoso nos bastidores. No ano passado, chegou a elogiar o ex-presidente Lula (PT) classificando o petista, cuja popularidade é alta no Nordeste, de “presidente excepcional”.

Em 2015, ganhou holofote nacional ao proferir o voto que sacramentou, na Câmara, a admissibilidade do impeachment da ex-presidente Dilma (PT). Araújo é advogado e filho do ex-deputado estadual Eduardo Araújo. Em 1998, aos 26 anos, foi eleito pelo PSDB o deputado estadual mais jovem de Pernambuco. 

Foi deputado federal por três mandatos, mas não conseguiu se eleger senador no ano passado. No período, Araújo elevou em 454% seu patrimônio. Ele diz que tudo está declarado no Imposto de Renda. 

Nesta sexta, durante a convenção, Araújo afirmou que "o PSDB é um partido de centro, que não convive com extremismo de direita e de esquerda no seu seio, dentro de si, mas respeita todas as demais posições ideológicas".

Afirmou também que o PSDB terá uma postura de independência em relação ao governo Bolsonaro e fará oposição quando achar necessário.

"[Teremos] uma posição de absoluta independência. Se for necessário, oposição nos momentos em que haja discordância, e há", afirmou o tucano. ​

"Primeiro em relação à compreensão que democracia se constrói num processo de diálogo com as instituições, de forma firme. Não é só chamando para assinar algumas folhas de um pacto. É com interlocução direta, tratando com os representantes da sociedade civil organizada", completou.

O novo presidente do PSDB defendeu que o partido feche questão a favor da reforma da Previdência —segundo tucanos, não por ser bom para Bolsonaro, mas para o país. O relator da medida, o deputado Samuel Moreira (PSDB-SP), foi exaltado na convenção em diversas ocasiões. 

Araújo afirmou ainda que vai trabalhar para tirar do PSDB a característica de não ter posicionamento claro sobre os principais temas do país, como, por exemplo, o decreto sobre porte de armas. Aos correligionários, ele repetiu a frase de Doria de que o PSDB "não teria mais muro" e disse que se afastaria de hesitações. 

Representantes de DEM, MDB, PP, PL (ex-PR) e PRB participaram da convenção, mas Araújo disse acreditar ser muito cedo para se falar sobre aliança para as eleições de 2022. O presidente do MDB,  Roméro Jucá, estava presente. 

Bruno Araujo na celebração do impeachment de Dilma Rousseff
O tucano Bruno Araújo na celebração do impeachment de Dilma Rousseff - Ueslei Marcelino - 4.abr.16/Reuters

Na convenção desta sexta-feira, a tensão entre a velha guarda tucana, defensora da social-democracia, e aliados de Doria, posicionados mais à direita, ficou evidente, por meio de discursos e de uma briga.

Dois grupos da juventude do partido, um ligado ao governador paulista e outro ligado a FHC, trocaram agressões físicas.

A confusão começou quando o grupo de Doria vaiou a nova presidente da juventude tucana, Júlia Jereissati, sobrinha do senador Tasso Jereissati (CE) e representante do grupo opositor. Até o presidente do PSDB de São Paulo, Marco Vinholi, que foi indicado por Doria, se envolveu no bate-boca.

Aliados de Doria estavam vestidos com camiseta amarela e boné azul, onde se lia “novo PSDB”. Já o grupo próximo a Alckmin questionava se a alegada renovação era real. Questionavam, em tom de ironia, se os "cabeças-pretas" (como são conhecidos os jovens tucanos) não eram apenas cabelos brancos tingidos.

No entanto, a ala alckmista não se furtou a fazer autocrítica. Em rodas de conversas pelo salão, aliados reconheceram o tamanho da derrota na disputa eleitoral do ano passado, quando Alckmin obteve apenas 5% dos votos na corrida ao Planalto, e a perda de espaço no lado direito do espectro político para Bolsonaro.

"Sentimento de dever cumprido", disse Alckmin, ao chegar à convenção. Em seu discurso, fez duras críticas a Bolsonaro, chamando-o de oportunista. "Não temos duas verdades: a extrema direita e a extrema esquerda. Temos duas grandes mentiras: o petismo e o bolsonarismo", afirmou o tucano.

Questionado sobre seu sucessor, se comprometeu a ajudá-lo. "Bruno é um bom quadro, preparado, animado. Vai fazer um bom trabalho e vamos ajudá-lo."

Um dos jovens quadros do partido, o governador do Rio Grande do Sul, Eduardo Leite, vê "um processo de renovação natural e, ao mesmo tempo, com responsabilidade de respeitar o passado e construir o futuro". 

Já o senador Jereissati disse que a transição é importante e representa a superação de "um período difícil". "Renovar não é só idade, é ideias. Cabeça nova, hábitos, comportamento político. Tem muita gente nova. Muita gente boa, que tem condições de levar o partido no seu rumo verdadeiro", afirmou.

Sobre a reaproximação com DEM e MDB, representados na convenção, respectivamente, por Maia e Romero Jucá (presidente nacional da sigla), disse entender que é algo necessário.

"Estamos vivendo em um momento de extremos. Extrema direita de um lado, extremamente radicalizada, intransigente e intolerante, e a mesma coisa na esquerda. E a grande maioria silenciosa brasileira não está em nenhuma dessas extremidades e precisa de um grupo político que os represente."

Rompido com Alckmin na eleição passada, o prefeito de Manaus, Arthur Virgílio (PSDB), pregou que "o PSDB não pode ter dono", "tem que redefinir identidade" e defendeu o parlamentarismo, momento em que foi aplaudido.

O prefeito disse que o PSDB não é mais o partido que polariza e cobrou "que nunca mais se realize eleição para presidente da República sem prévias duras" e fez autocríticas. "Que saiam daqui notícias das vaias, das divergências, mas que tem um jovem de valor que assume a presidência do PSDB", disse Virgílio.

A principal divergência entre os tucanos é a divisão entre caciques e aliados de Doria sobre qual deve ser o rumo do partido. Em vez de antagonizar, como fez em discursos anteriores, o governador paulista buscou contemplar a velha guarda tucana em sua fala. 

“As raízes devem ser mantidas. É isso que o povo espera do PSDB, que respeite sua história, mas que também seja protagonista de sua história. Não é preciso apagar a história nem negar a história, mas se queremos fazer a história será com os jovens, com as mulheres, os desvalidos, aqueles que precisam de políticas públicas”, afirmou Doria.

Doria acenou ainda a partidos de centro. Maia, por sua vez, disse que os partidos têm a responsabilidade de aprovar reformas para estarem fortes e num projeto único em 2022. O presidente da Câmara chamou Doria de amigo e Araújo de irmão. Também afirmou que "democracia não existe sem partidos sólidos" e criticou a radicalização da política atual. 

Ao citar os cerca de 13 milhões de desempregados, Doria voltou seus ataques ao PT. “O PSDB só tem uma bandeira, que é verde e amarela, não é vermelha”, afirmou, num momento em que se aproximou do tom de Bolsonaro. 

Na semana passada, Doria chegou a dizer que quem discordasse do partido deveria pedir para sair, em recado a ala esquerdista tucana e também pegando afastamento de tucanos acusados de corrupção. Em resposta, outros tucanos falaram em tolerância em seus discursos. 

"O novo PSDB é o que honra suas origens, respeitando quem pensa diferente. Não ceder aos apelos de extremismos que dividem nossa sociedade. Isso não é estar em cima do muro", disse o governador Eduardo Leite.

Em recado em vídeo, o ex-presidente FHC também respondeu à ideia de Doria de trocar o nome do partido. Afirmou ser preciso reafirmar a crença democrática e lutar contra injustiças e desigualdades. “O PSDB nasceu com esse propósito, pode mudar de nome, pode fazer coligação, mas o propósito não pode mudar.”

A convenção nacional que elegeu a nova direção do PSDB foi mais modesta que as anteriores. O evento tucano foi realizado no mesmo centro de eventos onde Alckmin lançou sua candidatura à Presidência no ano passado, mas desta vez não ocupou o salão principal, reservado a um congresso médico.

Os filiados se reuniram em um salão no subsolo, contíguo à garagem. O público se aglomerou à frente do palco e sobraram cadeiras vazias ao fundo.


 

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