Alckmin chama Bolsonaro de oportunista ao deixar comando do PSDB

Ex-governador de SP disse que petismo e bolsonarismo são duas mentiras

Carolina Linhares Daniel Carvalho
Brasília

No seu último discurso à frente do PSDB, o ex-governador de São Paulo Geraldo Alckmin criticou duramente o governo de Jair Bolsonaro (PSL), de quem seu afilhado político, João Doria (PSDB), se aproximou no discurso para se eleger governador paulista no ano passado. 

"Onde é que está a agenda de competitividade desse governo? Vamos ter coragem de criticar. Pôr o dedo na ferida", disse Alckmin, puxando aplausos do público. "Santo Agostinho dizia 'prefiro os que me criticam, porque me corrigem, aos que me adulam, porque me corrompem'", continuou. 

 
O governador de SP, João Doria, e o ex-governador Geraldo Alckmin durante convenção da executiva do PSDB, em Brasília - Pedro Ladeira/Folhapress

Alckmin discursou na convenção do PSDB que elegeu o ex-deputado Bruno Araújo novo presidente da sigla nesta sexta-feira (31). Araújo foi indicado ao posto por Doria, o principal nome do tucanato atualmente. 

Em referência à crise de Bolsonaro com o Congresso, Alckmin se disse solidário ao presidente da Câmara, Rodrigo Maia (DEM), que estava presente na convenção tucana. 

"Tem a minha solidariedade, Rodrigo Maia, desses oportunistas, políticos por 30 anos, ele e a família inteira, e numa deslealdada vem atacar a vida dos homens públicos, jogando a sociedade contra as suas instituições", disse. 

"Não temos duas verdades: a extrema direita e a extrema esquerda. Temos duas grandes mentiras: o petismo e o bolsonarismo", afirmou Alckmin, novamente arrancando efusivos aplausos.

Em entrevista à imprensa, Alckmin voltou a criticar Bolsonaro, mas disse ter simpatia pelo presidente. "Não tenho nada pessoalmente contra o Bolsonaro, até tenho uma certa simpatia a algumas coisas dele, esse jeitão mais simples", disse. 

"Está faltando governo. Qual é a proposta de reforma tributária? Onde está a polícia de fronteira para enfrentar o tráfico? Eu vejo uma grande dificuldade na agenda do governo, uma criação de crises, uma coisa radical totalmente ultrapassada. Tudo ideologizado prejudica o país", completou.

Questionado pela imprensa sobre as falas de Alckmin, Doria relativizou as críticas de seu antecessor a Bolsonaro. "São opiniões próprias do governador Geraldo Alckmin, que eu respeito. Não são opiniões do PSDB como um todo. Não temos este alinhamento crítico, temos um alinhamento de buscar as melhores alternativas para o país", afirmou.

Doria disse não  defender que o partido se alinhe com o governo Bolsonaro. "Continuo entendendo que o PSDB não deve fazer este alinhamento, mas apoiando as boas iniciativas para o Brasil", disse o governador.

Na mesma linha, Bruno Araújo defendeu independência em relação ao Palácio do Planalto. 

"[Teremos] uma posição de absoluta independência. Se for necessário, oposição nos momentos em que haja discordância, e há", afirmou o tucano.

"Primeiro em relação à compreensão que democracia se constrói num processo de diálogo com as instituições, de forma firme. Não é só chamando para assinar algumas folhas de um pacto. É com interlocução direta, tratando com os representantes da sociedade civil organizada", disse Araújo.

O novo presidente tucano disse também que o PSDB é "um partido de centro, que não convive com extremismo de direita e extremismo de esquerda no seu seio, dentro de si, mas respeita todas as demais posições ideológicas"

Até a fala de Alckmin, que encerrou o evento, os discursos de outros tucanos não haviam criticado Bolsonaro abertamente. A maioria dos caciques da sigla defendeu a reforma da Previdência, ressaltando que o apoio era por considerarem a medida necessária para o país e não por ser bom para o governo. 

O governador João Doria (SP) em convenção do PSDB em Brasília
O governador João Doria (SP) em convenção do PSDB em Brasília - Divulgação

Nesse contexto, o relator da reforma da Previdência, o deputado Samuel Moreira (PSDB-SP), foi exaltado na convenção em diversas ocasiões. 

Maia, em seu discurso, também criticou o ataque às instituições. "Democracia não existe sem partidos fortes. Atacamos as instituições ao falar que conseguimos governar sem partidos", afirmou. 

"O Brasil está tão radicalizado que temos que aplaudir uma frase do governador Eduardo Leite [PSDB-RS], de que é preciso ter a ousadia de ser ponderado", completou. 

Chamando Doria de amigo e Araújo de irmão, Maia disse que juntos eles têm a responsabilidade de reformar o país para estarem fortes e num projeto único em 2022. O DEM é um aliado histórico dos tucanos nas disputas eleitorais.

Disputa no PSDB

Alckmin disse não ver divisão existente entre a velha guarda e os cabeças-pretas (jovens tucanos) —embora a convenção tenha sido palco até de uma briga entre correntes da juventude tucana, uma ligada a FHC e outra a Doria. 

O antagonismo se dá justamente por meio de Doria, chamado de traidor por Alckmin após a eleição, defensor da renovação no partido e que tem adotado um discurso mais conservador à direita

De fato, na convenção desta sexta, Alckmin e Doria não trocaram recados por meio de discursos, como fizeram na convenção do PSDB paulista, quando o ex-governador defendeu a social-democracia, enquanto o empresário pregava mudança de rumo. 

"Sou contra essa divisão de jovem guarda e cabeça-preta. Temos que estar todos unidos. Renovação é sempre importante, ter novos quadros e estimular novas lideranças, agora princípios e valores são permanentes. Não conheço ninguém mais jovem em suas ideias do que Fernando Henrique [Cardoso]", disse Alckmin.

Ele afirmou que o partido não está pressionado a dar uma guinada à direita agora que é comandado por Araújo, aliado de Doria. Também disse não ver disposição para que a sigla adote posição mais conservadora. 

O ex-governador paulista relembrou as origens do PSDB e adotou um discurso alinhado com a social-democracia. "Temos que estar junto ao povo, os trabalhadores, os desfavorecidos, e lutarmos contra a desigualdade", disse. 

"O Brasil é o paraíso dos ricos, dos milionários e abandonam os menos favorecidos", completou. 

Alckmin defendeu ainda o voto distrital misto, o fortalecimento da cláusula de barreira para diminuir o número de partidos e o sistema parlamentarista, afirmando que o presidencialismo traz crise permanente.

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